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“Old Joy”

O silêncio é de ouro e muitas vezes é resposta

Mark (Daniel London) está sentado no jardim de sua casa. O som desconcertante da liquidificadora, em que a sua mulher Tanya (Tanya Smith) prepara algo, antecipa o telefonema de Kurt (Will Oldham) que nos trará a linha de acção deste filme: Kurt convida Mark a fazer uma viagem até uma cascata nos arredores de Oregon. Não nos são dados motivos mas rapidamente nos apercebemos do descontentamento de Tanya perante o convite de Kurt que Mark acaba por aceitar.

Mark conduz ao encontro de Kurt. A viagem é acompanhada pela tão frequente presença do rádio num carro e é com a subtileza de um debate que se faz ouvir que Reichardt caracteriza o afastar da cidade e da Sociedade em direcção a um fim-de-semana de libertação das personagens que esperam relembrar os tempos áureos da sua juventude.

No capítulo do reencontro apercebemo-nos de quem é Kurt perante Mark. À mínima oportunidade passa a responsabilidade da condução ao velho e leal amigo que aceita conduzir sem hesitação. O rádio faz-se ouvir novamente numa continuação do debate ironizando o momento em que Kurt compra erva para a viagem.

É já na estrada que as personagens vão sendo caracterizadas. A certa altura apercebemo-nos da inveja de Kurt em relação ao amigo que vai recebendo chamadas de Tanya. Kurt revela-se um homem solitário contudo, e exalto aqui a presença do grande plano, é na sua expressão que notamos as questões que coloca a si mesmo. Ambos presos às memórias do passado as personagens diferem na forma como cresceram e é isso que justifica o desconforto existente entre as duas personagens. A forma como se vêm e como olham aquilo que os rodeia não é mais aquilo que um dia foi. Kurt tenta falar sobre o assunto mas é Mark quem desvia o assunto afirmando não perceber onde o amigo quer chegar com a conversa. Mark acaba por colocar de novo a máscara e continuam a viagem fingindo que nada mudou.

O espaço é propício ao ambiente reflexivo que Old Joy nos transmite; a abundância de planos da Natureza que os rodeia, planos longos com acções igualmente longas das personagens permitem-nos chegar mais perto deles, convidando-nos a conhecê-los.

Os amigos regressam a casa. O retorno é feito ao som da banda sonora original dos Yo La Tengo que nos acompanharam ao longo desta hora de filme. Entramos na cidade ao anoitecer, Kurt despede-se de nós e volta a ligar-se o rádio trazendo Mark à realidade.

Longe de uma investida dramática que nos mostre as transformações que sofremos com o passar do tempo, Old Joy funciona apenas como um reflexo, uma constatação dessas mudanças. As personagens frequentemente introspectivas agem caladas, bastando o olhar das mesmas e as poucas falas e os silêncios constrangedores para que nos identifiquemos com aquilo que sentem.

De: Kelly Reichardt
Com: Daniel London, Will Oldham, Tanya Smith
Outros dados: EUA, 2006, Cores, 76 min



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