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Hadewijch

Os mistérios da fé.

É extremamente complicado não ir buscar Robert Bresson como termo de comparação, ou melhor, como ponto de partida (e de chegada) para “Hadewijch”, a quinta longa-metragem do também francês Bruno Dumont. Veja-se o final do filme, o encontro anunciado e salvador e os misteriosos caminhos (da fé, da graça) que nos levam até lá. Há muito que não se via um filme tão despudoradamente religioso (católico?), nem um tão faminto de Deus.

Desconhecendo como desconheço o resto da obra de Dumont, não posso garantir que a intenção do realizador não seja a de denúncia dos excessos da crença e dos malefícios da religião. Não creio, no entanto, que seja o caso. Se essas componentes estão lá, enquadram-se numa reflexão maior, dos próprios mistérios da fé, assunto nada simples e que merece do cineasta, portanto, toda a complexidade.

Hadewijch, a personagem titular do filme, é uma menina bonita, filha de boas famílias (o pai é ministro, e vivem todos num belo palacete parisiense), cujos pais lhe ligam pouco e que se virou para a religião. Conhecemo-la enfiada num convento, jejuando e privando-se de todos os confortos. Tal é a falta de moderação neste Amor, que a Madre Superiora se convence que o melhor para Hadewijch é voltar ao mundo.

Cá fora, ela continua a sofrer a ausência física de Deus, na demanda pelo Seu corpo (há um desejo quase carnal). Procura-o na música (os punks numa festa, as cordas numa igreja), na amizade com Yassine, um jovem mulçumano dos banlieue de Paris, meio revoltado, meio apaixonado, sem sucesso. É na figura de Nassir, irmão de Yassine, que encontrará uma paixão semelhante à dela — outro sofredor da mesma ausência, humilhado por ela, um soldado de Deus —, que a levará a um acto ignóbil e à sua suprema contrição. Mas a sua salvação virá de um outro prisioneiro (de outras muralhas), que, sem palavras, lhe revelará, finalmente, o Amor.

Dumont não tem o mesmo rigor formal de Bresson: em vez de cinematógrafo, há cinema. Muito bom cinema.



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