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“O Dia Antes do Fim”

Apocalipse financeiro.

O título português de “Margin Call”, primeira longa-metragem de J.C. Chandor, premiada como melhor filme de estreia nos recentes Spirit Awards (os “Óscares” independentes), faz antever um filme-catástrofe com dilúvios, incêndios devastadores e algumas pragas. Não é bem isso, mas não anda assim tão longe. “O Dia Antes do Fim” corresponde ao dia antes de se descobrir que o sistema financeiro vai ruir. O ano, toda a gente se lembra, é 2008.

Um jovem analista de risco de um banco de investimento, que nunca será nomeado para algo maior, faz umas contas que o espectador não entende muito bem — pelo menos, este — e percebe que dentro de muito pouco tempo (dias, semanas, meses, horas) vai-se descobrir que o que a empresa anda a vender vale muito menos do que se pensa (ou coisa do género; como muitas personagens do filme, essas estranhamente, percebo pouquíssimo de financês), o que equivale a dizer que os produtos financeiros que têm em carteira podem valer um grande prejuízo não tarda muito. A notícia deixa, obviamente, todos em polvorosa e o pânico vai escalando de degrau em degrau até às mais altas chefias.

“O Dia Antes do Fim”, uma ficção do início da crise financeira que ainda assola o mundo, abre as portas para os bastidores do poder financeiro em estado de sítio: as reuniões na calada da noite; o espanto passageiro; a irresponsabilidade (há sempre alguém acima a quem culpar); o esquema para escapar à situação; a necessidade dos bodes expiatórios, o “esta gente nunca perde dinheiro”, e não perde; o bifinho mal passado quando inúmeros vão para o desemprego. Qualquer que seja a perspectiva (política, em especial) de quem vê o filme, a encenação destes momentos, quase sempre em espaços fechados (os escritórios, apesar da Nova Iorque em pano de fundo), é suficiente para suscitar e manter o interesse do espectador.

Chandor, apoiado num vasto elenco com alguns actores de televisão (Zachary Quinto e Penn Badgley) e sobretudo pesos-pesados (Kevin Spacey, Demi Moore, Stanley Tucci, Paul Bettany, Jeremy Irons), usa as convenções do thriller, a tensão sempre a aumentar, para contar uma violência que não pede cadáveres nem sangue, mas é capaz de ser mais aflitiva por isso. Mal comparado, lembra os “crimes” de colarinho branco de “Mad Men”. O filme pecará pelos diálogos muito espertinhos e pela “perfeição” do argumento, sinais de que é mais ilustração de um guião do que cinema propriamente dito (é mais série televisiva), mas como tal é bastante bom.

Estreia dia 8 de Março em Portugal.



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