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50/50

O filme "independente" da praxe.

Há muito que a corrente principal do cinema norte-americano absorveu aquele mais marginal, que teve o seu apogeu em fins dos anos 80, princípios dos anos 90: já conta como tradição a sazonal estreia de um filme “independente”, produzido e distribuído por estúdios “independentes” para concorrer aos Óscares (e ganhar uma estatuetazita de “Melhor Argumento” ou para um dos actores) que, de verdadeiramente independente, se fica pela pose e um conjunto de tiques. Como qualquer outro, este género — cujo alvo é aquele público que se cansa das grandes produções e procura “algo mais” sem se esforçar muito — tem os seus altos e baixos.

Mal por mal, “50/50”, de Jonathan Levine, até pela sua aproximação à comédia “Apatow” (que tem muito a ver com a presença de Seth Rogen), não é dos mais baixos (em comparação com o seus congéneres, não é tão bom quanto “Juno”, mas é bem melhor do que “Os Miúdos Estão Bem”). No entanto, pense-se em “Gente Gira”, mais conhecido como “Funny People”, que também lidava com o tema do cancro e tentava encontrar um balanço entre um registo mais sério e o cómico: a primeira hora desse filme, que jamais esteve em risco de ser nomeado para coisa alguma, era muita mais negra e nunca resvalava para a lamechice. Ora, “50/50” resvala e não é pouco.

Percebe-se que é difícil falar de cancro e das suas consequências no doente e nas pessoas que lhe são próximas sem cair na sentimentalidade; para mais, a história é baseada na vida de Will Reiser, argumentista do filme, a quem foi diagnosticado um cancro quando tinha pouco mais de vinte anos. Mais ainda, Seth Rogen, seu melhor amigo, na vida real terá representado um papel semelhante ao que tem no filme. Mas não era preciso que todas as personagens, à excepção de uma (tão óbvia), fossem tão boazinhas, que todos os problemas fossem resolvidos tão perfeitamente e todas as pazes se fizessem, que a morte de outrem fosse tão instrumental e previsível (para que se tema pela vida do protagonista, a ideia da morte tem de ser posta. Como o fazer? Matando a personagem secundária simpática).

Se, por um lado, falta nervo e sobra choro fácil — “50/50” vai abandonando a comédia para se encostar ao tear-jerker —, pelo outro, as costuras do argumento — em que se costumam encerrar quase todas as qualidades deste tipo de filmes — estão demasiado à mostra: a já referida “morte instrumental”; as diferentes fases do enfrentar da doença a caberem tão bem na compartimentação dos três actos. Também é verdade que “50/50”, como filme de argumento, está muito bem feito e tem tudo no lugar: os actores são bons (Anjelica Houston à cabeça), a música é bem escolhida (é óptimo ouvir Liars, e «The Other Side of Mt. Heart Attack» parece escrita para aquela cena), os planos são bem filmados, a montagem é acertada, etc. Mas o bem-feitinho cansa e poucas vezes dá grande cinema e, principalmente, apesar da fúria e dos esgares de Joseph Gordon-Levitt (estranhamente, em imitação perfeita de Kevin Spacey em “A Beleza Americana”), nunca se sente a raiva de “O Tempo que Resta”, de François Ozon, ou a dor do recente “Assim é o Amor”, de Mike Mills.

Se fosse apostador, já tinha metido dinheiro em “50/50” para o tal Óscarzito. Em Fevereiro do próximo ano, logo se verá se ganha alguma coisa ou não.



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