Paul-Lafargue

“O Direito à Preguiça” de Paul Lafargue

A obra, primeiramente publicada no jornal socialista “L’Égalité”, em 1880, foi editada em Portugal no ano passado pela Antígona.

«Ó Preguiça, mãe das artes e das nobres virtudes, sê o bálsamo para as angústias humanas!» LAFARGUE

Assim termina “O Direito à Preguiça” de Paul Lafargue (Antígona, 2016), mas poderia muito bem ser o seu mote de arranque. E afinal de contas, os preguiçosos mais convictos nem teriam que ler muito mais que esta citação, para perceberem a natureza desta obra. Mas, se o fizerem, seguramente não darão o tempo por mal empregue.

Com efeito, a obra primeiramente publicada no jornal socialista “L’Égalité”, em 1880, apresenta-nos uma descrição do regime capitalista nos seus moldes iniciais, com uma sociedade alienada e emudecida pela sua própria ignorância, resultando numa crítica social, virulenta e plena de ironia, cujo sentido de oportunidade parece ter atravessado os tempos até à contemporaneidade. Este registo que Lafargue considera um modelo de “escravatura moderna”, decorre da constatação de que o ócio criador é um privilégio exclusivo da classe dominante, fundada numa estrutura de base composta por um modelo de escravidão assalariada. Um “dogma desastroso” resultante da concepção burguesa que considera o trabalho como uma virtude, mas que na realidade não gera senão uma “estranha loucura” sobre as classes operárias “arrastando atrás de si misérias individuais e sociais”.

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Sempre considerada como uma pecado capital, a preguiça e os seus benefícios são-nos então apresentadas como direitos essenciais “mil vezes mais nobres e mais sagrados que os tísicos Direitos do Homem.

Às ideias aqui formuladas, não será estranha a convivência que mantinha com o círculo próximo de Karl Marx, de quem era genro, e que muito terá contribuído para o espírito revolucionário de Paul Lafargue, cuja história de vida é indissociável da história do socialismo francês.

Paul Lafargue, nasceu em Santiago de Cuba, em 1842, filho único de uma família mestiça de ascendência francesa. Fixou-se em Paris em 1851, concluindo o curso de Medicina, que no entanto optou por não exercer. Enquanto estudante viu despertar o seu interesse pela vida política, e declara-se republicano, socialista, materialista e ateu, passando então a dedicar-se activamente à causa operária. Suicidou-se com Laura Marx em 1911 “[…] antes que a velhice imperdoável me arrebate […]” conforme explicação que nos deixou.

Por último, se não tiveram preguiça em ler esta análise até final, deixo-vos a citação com que Lafargue nos motiva a empreender a leitura da sua obra:

«Preguicemos em tudo, excepto no amar e no beber, excepto no preguiçar» LESSING



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