“O Instinto de Morte – Autobiografia de um fora-da-lei” | Jacques Mesrine

“O Instinto de Morte – Autobiografia de um fora-da-lei” | Jacques Mesrine

A culpa é do sistema

Por volta de mil setecentos e troca o passo, o filósofo Jean-Jacques Rousseau saía-se com uma pérola destas: «O homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe.» Não sabemos se Jacques Mesrine terá visto em Rosseau uma inspiração, mas o facto é que aquele que foi, em tempos, considerado o inimigo público nº 1 em França e no Canadá, atribuía ao sistema as culpas de se ter tornado um temível e muito respeitado fora-da-lei.

Mesrine, nascido em 1936, atravessou um tempo onde em França se notava uma certa paixão pela rebeldia, uma admiração por «indivíduos que tinham lançado um desafio à sociedade e faziam troça da polícia», como lemos no prefácio de Anselm Jappe a este “O Instinto de Morte”, autobiografia assinada pelo próprio Mesrine. Admiração, essa, que se fez sentir também na cultura do próprio País: dedicaram-lhe canções, foi considerado «o símbolo perfeito de liberdade» por Gérard Lebovici – então o patrão das edições Champ Libre -, a sua vida deu mais do que um filme.

Afinal, quem melhor que Jacques Mesrine para dar corpo ao rebelde que fazia gato e sapato da polícia? Ao longo de uma carreira dedicada à malfeitoria, Mesrine assaltou vários bancos – por vezes vários num mesmo dia – e fugiu de prisões de alta segurança, tornando-se numa referência para todos aqueles que viam no crime o ideal de vida, ou apenas para quem olhasse a sua vida como a fuga a um mundo e a uma sociedade pré-programada, «uma metáfora da consecução do impossível, demonstrando que a evasão, em todos os sentidos, é sempre possível, que nem a prisão, nem qualquer situação má, é definitiva» (no prefácio).

A cumprir pena na prisão de Fleury-Mérogis em 1976, Mesrine faz neste livro como que um balanço de vida, traçado neste auto-retrato: «era um inadaptado social, um pouco preguiçoso, jogador, bebedor, apreciador do risco e das mulheres, um ser atraído pela vida nocturna, pelos bares obscuros e pelas putas. Queria tudo, mas repudiando o trabalho como se fosse uma doença vergonhosa… Sim, aos vinte e três anos ia fazer do crime uma profissão.» Acompanhamos também a sua relação com mulheres e amantes – onde não falta uma boa carga de violência -, o afastamento em relação aos pais e a uma vida normal, a presença na guerra da Argélia que lhe trouxe condecorações e o descrédito na humanidade, o casamento falhado, o vício das apostas, a tentativa de se redimir dificultada por um cadastro de respeito, a sua crença pura nas amizades, a ida para o Canadá que lhe conferiu o estatuto de supervilão.

Nota-se em Mesrine algum ressentimento pelas suas escolhas, como quando fala de si na terceira pessoa nas primeiras páginas: «Suicidou-se socialmente, não por desprezo pela sociedade, mas porque um dia olhou à sua volta, pegou numa arma e convenceu-se, erradamente, de que aquela era a solução do seu problema.» Porém, está longe de mostrar qualquer arrependimento, e é essa vida como “escolha” e não como puro acaso que lhe confere uma grande originalidade.

Curioso é que, o que então parecia o prenúncio de um baixar de braços, apenas tenha sido o retomar do fôlego antes de uma recta final de existência em grande estilo: escapou da Santé em 1978, assaltou vários bancos e um casino – perseguido por uma unidade especial de polícia criada apenas para o apanhar -, tentou raptar o juiz que o condenou e sequestrou um industrial – obtendo um resgate elevadíssimo -, deu várias entrevistas à imprensa e publicou cartas abertas denunciando as prisões como lugares onde se criavam monstros. Tudo antes de acabar crivado de balas no ano de 1979, numa operação policial de grande monta vista por muitos como um assassínio de Estado. Ainda hoje, Mesrine é considerado um herói popular, tendo este livro em muito contribuído para tal. É que, para além das armas, Mesrine era também um exímio atirador de palavras.

Próximo Lançamento

Pensão Amor (Rua do Alecrim, 19, Lisboa)

20 de Abril | Sábado | 18h30

Apresentação por Anselm Jappe (autor do prefácio do livro)

Concerto com Michel (acordeão) e Sylvie Canape (voz)

Entrada livre (e também a saída, segundo a Antígona)



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