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“O luto é a coisa com penas” de Max Porter

A morte, disse o corvo

Há livros diferentes. Este é um deles. Pensado, construído e exposto por diferentes camadas de dor, “O luto é a coisa com penas” (Elsinore, 2016), obra de estreia do britânico Max Porter é um exercício parte estória, mito e poesia, cuja maior particularidade é a expressão narrativa por via da voz de um metafísico corvo.

A trama inicia na ressaca da trágica morte de uma mulher e mãe. No âmago da ação está o seu marido, um académico apaixonado pela obra de Ted Hughes – autor de livros que misturavam o universo da poesia com o infantil como “O gigante de ferro” ou “Corvo” –, e os seus dois pequenos filhos, todos eles a braços com uma inesperada e devastadora perda.

Enquanto o pai se torna numa espécie de autómato rotineiro que cuida da sua dor e dos seus pequenos rebentos órfãos de mãe, surge a figura de um corvo que se assume como um conselheiro para toda a família enquanto todos tentam cauterizar as feridas abertas na sua alma.

O cenário que encontra mostra-lhe que tudo, coisas e pessoas, que existe naquela casa está coberto por um mar de perda mas, qual juramente solene, promete apenas deixar aquela família quando a sua presença já não seja necessária.

A narrativa, distópica, efabulada, é-nos apresentada através de uma tripla visão: Meninos-Pai-Corvo. Este último, mais eloquente, discursa através de uma poesia onomatopeica, ora acessível ora resguardada por um exercício reflexivo mais complexo. Aquilo que ele, corvo, e nós, leitores, encontramos são seres humanos que apenas através do luto conseguem tornar-se pessoas menos previsíveis. Os meninos conseguem mesmo um melhor enquadramento face a um mundo sem mãe, ao contrário do pai que está imerso, perdido, no buraco negro que se tornou a sua existência.

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Também a forma como a imagem da mãe/esposa é recordada tem uma clareza muito diferente entre ambos pois enquanto os filhos fazem uma mescla de saudade e um certo desafio da vida, o pai torna-se um ser vazio, sem força e vontade de continuar num mundo que acabou depois da morte da mulher. Por isso, resta ao corvo tentar ser “ama” e âncora, animador e ombro amigo, continuidade e sobrevivência.

Vencedor do International Dylan Thomas Prize, um dos mais prestigiados galardões dedicados às obras literárias debutantes, “O luto é a coisa com penas” é uma inovadora experiência de ler e entender um livro, uma novela, ainda que também possa ser encarado como uma coleção de particular poesia que usa uma inventividade discursiva que deambula entre a crueza e o belo, entre a esperança e o vazio, entre a vida e a morte.

Não sendo um livro “fácil”, mesmo com alguma oscilação emotiva, e ainda que relativamente breve, tem o mérito de abrir a nossa mente, fazendo-nos olhar para a dor de uma outra forma, do lado de “fora”, e para essa inaudita faculdade de moldar quem a sente, afaga e, se possível, a enfrenta e vence.



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