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“Born to Run” de Bruce Springsteen

Algumas luzes nunca se apagam

São raras as vezes que escrevo sobre um livro na primeira pessoa, mas trata-se de um caso especial.

Ouvi falar de Bruce Springsteen pela primeira vez nos finais de 1986. Tinha 13 anos e na minha cabeça ecoavam sons vários. As influências eram muitas, as novidades chegavam a reboque de conversas com amigos, na escola e fora dela, do que ouvia na rádio. Cultivava-se uma especial partilha e era vulgar carregar, vaidoso, as enormes rodelas de vinil debaixo do braço, para a “troca”, ou para serem tocados nas muitas tertúlias musicais que tinha por hábito participar.

Foi numa dessas sessões que ouvi pela primeira vez um tipo de voz rouca, carregada de alma, e logo ao primeiro impacto, senti um misto de explosão e empatia. A canção em particular era “Backstreets”, faixa que abria o lado A do segundo 33 rotações de “Live 1975-85” (a edição em vinil era composta por cinco discos), uma compilação de registos ao vivo de Springsteen e da (sua) E-Street Band.

Gravei uma cassete (de 90 minutos!) com algumas das 40 músicas que componham “Live 1975-85” e passaram a ser o meu mantra. Sempre que as ouvia, deixava o som entrar na minha circulação sanguínea, devorava as histórias contadas em género de “prefácio” e sabia (e, digo-o, com orgulho, ainda sei) todas as letras de cor. Dai até conhecer toda a discografia do Boss foi um pequeno passo (eternamente agradecido Hugo, grande abraço!). Hoje, passados trinta anos, continuo a sentir a mesma magia quando oiço “Rosalita”, “Hungry Heart”, “Because the Night”, “Born to Run” ou “Thunder Road”, esta última a canção da minha vida, e a qual já tive o privilégio de “ouver” no momento devido, com a pessoa certa, a minha “Jersey girl”.

Cresci com as canções de Springsteen, gravadas e cravadas na alma, mas sempre quis saber mais da vida do Boss. Sim, acompanhei (quase) todo o que o profeta de Jersey fez mas faltava sempre qualquer coisa, um contexto (histórico) geral, uma pitada de sal que tardava.

Até que, recentemente, surgiu “Born to Run” (Elsinore, 2016), a tão aguardada autobiografia de Bruce, que, reza a história, nasceu na sequência de um concerto realizado aquando da edição de 2009 do Super Bowl e que serviu de epifania para que Springsteen resolvesse, finalmente, contar toda a vida.

Recuando aos mais recônditos becos da sua memória, Bruce Springsteen, o inicialmente desajustado jovem descendente de uma família de origem italiana, resolveu revelar o seu lado mais privado com a mesma devoção, honestidade, fúria, humor e paixão com que sempre escreveu as suas canções.

À boleia de uma escrita confessional e emotiva, Bruce recorda as (suas) raízes católicas na fria Freehold, New Jersey, revela os primeiros contactos com a perigosa e efervescente premissa e poesia rock, passando pelos perigos de uma imaginação fértil alimentada pelo combustível da música negra, a reação provocada pela atuação de Elvis Presley no “The Ed Sullivan Show”, o impacto da arte dos The Beatles, os prematuros contactos com a indústria musical, o domínio dos The Castiles e Steel Mill (as duas primeiras bandas de Springsteen) dos circuito de bares da zona de Asbury Park, o conhecimento decisivo de personagens como o produtor John Landau ou os músicos Clarence Clemmons e Little Steven, ou da “sua” Patti, até à afirmação, a pulso, da E Street Band e do seu (merecido) sucesso mundial. Tudo sublinhado com as dúvidas e lutas interiores que servem de inspiração para toda a sua obra e nos levam também a conhecer melhor a génese de muitas das suas canções.

A beleza de “Born to Run”, um livro que se devora, de preferência, devagar, lenta e pausadamente, pois não queremos que acabe, reside no espírito das suas palavras (e imagens) e transcende o objeto livro. É uma forma de inspiração não só para quem é fã do Bruce cantor, artista, homem e poeta, mas também para aqueles que ousam conhecer melhor uma pessoa que lutou por aquilo que acreditava, desafiou destino e família, e abraçou dias de glória.

E é também o livro que sempre esperei, que ficará para sempre perto da minha almofada, a transcrição de uma lenda, de alguém, de carne e osso, com virtudes e defeitos, da pessoa que me transmitiu algumas das maiores lições de vida («aprendemos mais ao ouvir um disco que na escola»), do ser cujo legado gostaria que os meus filhos conhecessem, de uma luz que teima em indicar-nos o caminho.



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