O meu Indie

O relato de quem lá foi pouco.

O cinema, de todas as artes, é talvez a mais popular. Pelos custos da sua produção, pelo número de pessoas que normalmente é necessário para a sua realização, uma arte que exige muito público. Uma arte que, mesmo se subsidiada, se sustenta num negócio. Não é difícil escrever um livro, fazer música, uma escultura, pintura, etc., por conta própria, independentemente da qualidade do resultado. Porém, o mais económico dos filmes custa dinheiro, mais dinheiro que uma pessoa sozinha pode comportar. 

Nunca me preocupei demasiado se o cinema é arte ou entretenimento. Nos melhores dos casos, costuma ser a duas coisas. A época de Ouro de Hollywood, quando as “fitas” (como, por cá, se dizia) eram produzidas industrialmente e o papel do produtor era tantas vezes autoral, atesta a isto mesmo. Em nenhuma outra altura, ou outro lugar, se fizeram tantos e bons filmes – uma afirmação discutível, mas perfeitamente defensável. No entanto, desde o começo, houve sempre o desejo de outro tipo de obras, mais artísticas, mais vanguardistas. Que muitas delas aparecessem onde menos se esperava – dentro do sistema de estúdios – é uma história, que muitos as procurassem noutro sítio é outra, esta.

A distribuição de cinema em Portugal está empanturrada de imensas películas de conteúdo duvidoso, o cinema americano comanda aqui, como noutros lugares. Há inúmeras excepções que quase negam a regra, mas ela existe. Daí o espaço a acontecimentos como o IndieLisboa ou o DocLisboa, ou, de outra maneira, à “exposição permanente” do Museu do Cinema. Que estes eventos se dirijam a uma pequena clique intelectual não interessa, ela basta-se para lhes dar validade. Mas também lhes enforma os defeitos.

Gosto de cinema, sempre gostei, desde os desenhos animados da infância. A partir de certa altura, interessei-me por cinematografias “diferentes”, fossem a francesa ou a italiana, fossem as asiáticas. Como é óbvio, há bom cinema por todo o lado, assim como haverá, com certeza, extraterrestres por esse Universo afora. É uma evidência. Nunca embarquei, contudo, na nau dos que pensam “quanto mais estranho/excêntrico/esquisito/distante, melhor”. Por isso, mantenho alguma desconfiança em relação a coisas como o Indie. Até à edição deste ano, tinha ido ver apenas uma sessão das anteriores.

Este ano foi-me dado, circunstancialmente, um passe para assistir gratuitamente a todas as sessões deste festival. É claro que a exigência que alguns filmes nos pedem – esclareço que não só intelectual – e a preguiça (especialmente, a preguiça) não me permitiram ir a todas. Fui mesmo a muito poucas, perdendo muita coisa boa, do que me arrependo. Enfim, posso somente dar conta do que vi. Das obras premiadas, não vi nenhuma. Das obras em competição, vi apenas uma – Grain in Ear – uma obra sino-coreana sobre uma mulher desesperada que, no fim, decide envenenar todos os convidados de um casamento (o filme de que menos gostei, e que afinal ganhou o prémio dos críticos internacionais – sempre vi uma obra premiada).

Não vi nada da secção Heróis Independentes – motivo do meu maior arrependimento: tanto Jay Rosenblatt (de quem no futuro pretendo ver alguma coisa) como Michael Glawogger me foram bastante e bem recomendados. Não vi também nenhuma curta-metragem, nada contra ao género em si, mais com o empacotamento de uma série de filmes numa só sessão. Não me parece que a melhor maneira de fruir um filme seja no meio de uma dúzia de outros, mesmo se de curta duração. Mas este é o grande problema da distribuição deste tipo de obras, não há muitas alternativas.

Este texto começa a parecer o racconto do que não vi, mas como já disse muito do que não vi interessava, e a lista continua. Todos os filmes que sabia que iriam estrear comercialmente – eram muitos e bons: Mary de Abel Ferrara, Le Temps Qui Reste de François Ozon, The Proposition, com argumento e música de Nick Cave, ou Drawning Restraint 9 de Matthew Barney – deixei de lado, para os ver numa altura mais propícia, em exibição normal.

O que me leva a outra questão: o público do Indie (enquanto público do Indie, não os indivíduos que o compõem, que não os conheço) comporta-se de uma forma interessante. Ri-se nas situações mais estranhas, onde não há nada para rir. Como se fosse uma senha de reconhecimento entre iguais. Toda a gente se conhece: há sempre alguém na fila da frente a acenar para as detrás. O que me aborrece um pouco – o próprio festival é mais importante que os filmes que por lá passam. Ou seja, é importante ir ver, não importa o quê. Deliro, se calhar. O que é certo é que me tentei refugiar nas sessões menos atendidas, onde essas manifestações menos se revelam.

As propostas mais interessantes encontravam-se nas secções Observatório e Laboratório – que concentraram filmes que não tinham os atributos para entrarem em Competição (não são nem primeiras nem segundas obras) – e, no caso do Laboratório, objectos mais experimentais. A secção Director’s Cut permitiu ainda ver filmes perdidos pelo tempo ou que nunca tinham sido mostrados em versão integral. De seguida, faço uma pequena análise dos que, dentro estes, gostei mais:

Wild Blue Yonder de Werner Herzog

O filme que vi no primeiro dia e o filme de que gostei mais. Do extenso corpo de trabalho do cineasta alemão conheço quase nada, mas as suas duas últimas são de invejável qualidade. Grizzly Man, um documentário sobre a bestialidade do reino animal – ser humano incluído – foi o melhor filme que passou nas salas portuguesas o ano passado. Wild Blue Yonder é um filme belíssimo, à falta de melhor definição. A partir de imagens reais, perfeitamente reconhecíveis como tal (de uma missão espacial dos anos 80, de cientistas geniais a debitarem informação incompreensível para o resto dos mortais, de expedições subaquáticas debaixo do gelo), Herzog constrói uma fábula de ficção científica absurda, cheia de verdadeiro humor e de uma ternura de quem reconhece que o Homem é uma besta, mas infinitamente mais interessante que todas as outras, mesmo que venha de um planeta a não sei quantos milhares de anos-luz da Terra.

East of Paradise de Lech Kowalski 

Kowalski especializou-se em documentar o sub-mundo de Nova Iorque, do punk, da pornografia. Um cinema radical, anti-establishment, que não perde por isso o viço, como costuma acontecer a objectos similares. East of Paradise reporta-se aos horrores da humanidade: se, na primeira parte do filme, nos é mostrada a mãe do cineasta a relatar cruamente as suas deambulações pela Rússia, depois de ter sido encarcerada num gulag, a segunda refere-se a próprio Kowalski, enquanto realizador underground, interessado principalmente pelos despojos da sociedade americana. Algumas imagens que acompanham este “capítulo” são insuportáveis, transformando este filme num enorme murro no estômago, a que nem os menos impressionáveis conseguem escapar.

Le Filmeur de Alain Cavalier

O filme de Cavalier é uma colecção de imagens tiradas ao longo de dez anos, não num registo diarístico, mas numa série de highlights da vida do autor e dos que o rodeiam. Apesar de tudo, Le Filmeur nunca cai no onanismo puro, coisa que podia muito bem acontecer numa obra como esta, nesse sentido é leve e airoso, apesar de lidar com o envelhecimento, a doença e a morte. Cavalier é um voyeur dos que lhe estão próximos (várias vezes filma a mulher a dormir ou invade sorrateiramente o quarto da mãe) e raramente de si mesmo, se bem que filme, ao espelho, o próprio rosto. Usa também a câmara, como diz a determinada altura do filme, para registar pequenos apontamentos do dia-a-dia que o interessam por qualquer razão, seja uma galinha que se recusa a sair de onde está ou o prédio que lhe tira a vista para o céu.

Coming Apart de Milton Moses Ginsberg

Película americana pouco conhecida de finais dos anos 60 sobre um homem em processo de autodestruição que aluga um apartamento, longe da mulher, do emprego, de tudo o que é a sua vida – e perto da mulher por que está apaixonado/obcecado – para se entregar a uma vida de devassidão moral e sexual. Para compor o ramalhete, coloca uma câmara para filmar tudo o que vai acontecendo ali, as pessoas que por lá passam –  e esse é o ponto de vista do filme, que se mantém até final. Ou seja, todo a acção se passa num espaço fechadíssimo, um recanto do apartamento. Claustrofobia e loucura, com Nova Iorque como pano de fundo. 



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