O Pecado de João Agonia

“Não há pecado mais vergonhoso” do que aquele que vai cometer-se no próximo dia 18 de Maio, no Teatro Turim, em Benfica. “O Pecado de João Agonia” volta a subir ao palco pelo Pequeno Palco de Lisboa e sob encenação de Rui Luís Brás, depois de ter sido representada, pela primeira vez, em 1969, no Teatro Capitólio, pela Companhia do Teatro Nacional, numa encenação de Rogério Paulo.

Em cena, de 18 de Maio a 29 de Maio, de 4.ª a Sábado às 21h30 e Domingos às 17h00, no Teatro Turim, “O Pecado de João Agonia” é a 16ª produção do Pequeno Palco de Lisboa, companhia fundada em 2004 pelo ator e encenador Rui Luís Brás, que conta com dois elencos semi-profissionais, compostos por 18 alunos. Os elencos de “O Pecado de João Agonia” são: João Agonia (Santiago/Nuno Miranda); José Agonia (João Paulo Castanheira); Rita Agonia (Ana Luísa Luz/Lia Colorado); Fernando Agonia (Emanuel Almeirante); Miguel Agonia (Miguel Martins); Carlos Agonia (Joaquim Frazão); Rosa Agonia (Teresa Franco/Filomena Correia); Guilhermina Giesta (Marta Paulino/Cristina Lopes); Maria Giesta (Andreia Esteves/Cristina Duarte); Tóino Giesta (João Pontes); Manel Lamas (Verónio Gomes)

Para Rui Luís Brás, “fazer a montagem deste texto com alunos em início de carreira é um desafio gigantesco a todos os níveis, sobretudo quando falamos de um autor como Bernardo Santareno, que é um caso ímpar na dramaturgia portuguesa”. “É fecundo de emoções e subtilezas, escreve visceralmente, oferecendo ao autor as palavras já prontas, impregnadas em alma lusitana e envolvendo-nos, quase sempre, numa mística ardente onde as personagens nos consomem e onde a figura Povo é arquétipo e juiz”, evidencia o encenador.

Relativamente às opções de encenação, Rui Luís Brás justifica a abertura de “espaços físicos que extrapolam a casa da família Agonia, ao saber dos desígnios das personagens que habitam ou a circundam, retirando a fixidez do espaço originalmente estanque e uno”.

Numa povoação do interior rural, a família Agonia aguarda, com alegria e anseio, o regresso de um dos seus filhos, depois de cumprido o serviço militar. Mas uma maldição paira sobre esta família: antes do nascimento de João Agonia, a avó, Rosa, anuncia na sua loucura um “verde destino” do qual João não poderá escapar. João Agonia tenta desesperadamente fugir ao seu destino, recolher-se na clausura da serra e contrariar os seus desejos mais íntimos, esforçando-se por corresponder às expectativas da família. Mas será que nesta luta interna alguém sairá vencedor?

O poder do estado e da igreja, assentes no catolicismo, continuam a ser basilares para a estabilidade da ordem familiar em 1961, quando o mundo começa a purgar mudanças: antigas colónias africanas iniciam os seus processos independentistas, os EUA invadem a Baía dos Porcos e a Igreja Católica prepara o Concílio Vaticano II. E Portugal está prestes a embarcar na Guerra do Ultramar. É neste ambiente de profundas alterações de paradigmas sociais cristalizados que Bernardo Santareno escreve “O Pecado de João Agonia”.

Aparentemente datado, “O Pecado de João Agonia” continua tão atual quanto o foi em 1969, data da sua estreia: nas sociedades ocidentais laicas e democráticas o lugar da diferença ainda se apresenta, hoje, problemático. O pecado de João Agonia é o pecado que cada um de nós carrega na sua relação com a diferença, ao pressupor uma igualdade que não se constrói. Haverá absolvição para o Pecado de João Agonia?



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