Mac DeMarco @ LAV (21.09.2026)
Texto por Miguel Barba e fotografia por Alice Neutel.
Não consigo precisar quantas vezes vi Mac DeMarco ao vivo. Foram algumas e foram por altura dos primeiros álbuns. Aqueles seminais, que o definiram. A guitarra que parecia estar prestes a entrar numa espiral de desafinação mas que, com arte e engenho, se equilibrava o suficiente para lhe dar desde logo um cunho próprio, único. E a voz. Apenas sua, e constantemente acompanhada por um sorriso matreiro com aquele espaço entre os dois incisivos centrais da parte de cima do maxilar. Junte-se a isto um conjunto sólido de hinos/bangers/whatever, que, mesmo com uma periodicidade irregular nas edições mas muitíssimo profícua em determinados momentos, conseguiu manter a chama acesa e recrutar uma nova faixa etária de novos acólitos, como as duas noites esgotadas na Sala 1 do LAV não deixam enganar.
Vicky Farewell, que integra a editora de DeMarco, tem o slot de abertura. Um pop etéreo e sonhador, suave, quer nas batidas quer na voz que nos canta entre embalos e sussurros, sempre com aquela aura de quarto. Escutamos um novo single, «Sunburn», entre outras do ainda curto cardápio da cantora do sul da Califórnia, como «Turn Me On» e «Underneath the Sun». As canções vão desfilando, nós vamos deixando os corpos agitar-se suavemente, à medida que vamos descobrindo elementos e influências curiosas nas suas canções, mostrando que há aqui mais do que parece à primeira vista.
A tour europeia de DeMarco termina hoje, para ser retomada daqui a poucas semanas do lado de lá do Oceano que nos separa. A única certeza aqui é que não há fãs número um aqui, porque esse lugar pertence apenas à Agnes DeMarco. A primeira pessoa que reconheceu talento nas canções do canadiano, que o incentivou e que disse numa entrevista algo como “His songs always make me cry.” Pessoa de máxima importância na vida e carreira de Mac DeMarco, com inúmeros e deliciosos momentos em que ambas as vertentes se misturaram. Esta relação, a que não existe com o seu pai, misturada com humor e algum nonsense, torna o universo musical de DeMarco numa teia complexa, mas não menos interessante que, naturalmente, com o passar dos anos, foi consolidada e adquiriu novas facetas que iremos conhecer neste regresso a Portugal, após um interregno de 10 anos.
Perto da frente do palco alguém faz bolas de sabão. Encaixa bem no momento. O concerto tem início com a apresentação da que acompanha DeMarco em palco, e que tem Phill Melanson na bateria, Alec Meen alternando entre guitarra e teclados, Pedro Martins na guitarra e Daryl Johns no baixo, e com a sala a irromper num monumental sing-a-long em «For the First Time» e «Sweeter», logo a seguir. Na fase inicial DeMarco abdica da guitarra para se cingir à voz e à performance. No ecrã ao fundo do palco passam imagens coloridas e pixelizadas, como se fossem frames das sinapses de DeMarco a comunicar entre si. «Salad Day» é recebida em êxtase. As oldies têm realmente qq coisa extra. Há espaço para monólogos nonsense, palmas aos mais variados ritmos. Há espaço para tudo isto e o que mais nos queira DeMarco atirar. O tempo, naturalmente, encarregou-se de cobrir o gap como executante nos instrumentos e isto cria uma sensação algo dúbia, naquela parte de nós que via esta nuance como um fator diferenciador.
A obra de DeMarco atravessou diversas fases na sua carreira, pelo que é interessante constatar que o próprio tem perfeita consciência disso, e isso reflete-se, em primeiro lugar, na forma como constrói o próprio alinhamento, mas também na forma de estar. A idade é um posto, e DeMarco não é exceção; é menos exuberante, mas mantém a sua aura de gozão.
Beija o companheiro de banda que de seguida canta «No Other Heart». Depois ouvimos melosamente «Heart to Heart». É um momento daqueles back-to-back; sentimo-nos preenchidos, e o belo nestas canções é a forma repentina como muitas delas terminam. «Ode to Viceroy» dá um arrepio na espinha do escriba. Da mesma forma que as skills como executante subiram, o mesmo aconteceu com a voz de Mac. Continua a bater na barriga com o microfone perto, por isso podemos usar a expressão “há coisas que nunca mudam” e isso, mesmo nesta situação em particular, é estranhamente reconfortante.
A fechar, imediatamente antes do encore, «Chamber of Reflection» brilha bem alto, entregue de forma perfeita, tal como «My Kind of Woman» já no encore e que antecede o cover de «Human Nature», do Michael Jackson.
Duas horas em que não demos pelo tempo passar. Duas horas que foram perfeitas para matar saudades para alguns e de uma estreia inolvidável para outros. Que o regresso não demore novamente dez anos.
Longa vida ao rei do rock lo-fi!
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