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“Olá Estranho”, de Katherine Center

Quando a vida nos dá limões

Tendo como ponto de partida as palavras da própria autora, “Os romances, as comédias românticas, as histórias de amor felizes” ao contrário de qualquer outra história, não nos dão medo, mas sim esperança.

O segredo? Esse deve-se a uma estrutura previsível, ao reconhecer dos passos que conduzem ao tão desejado final feliz. Sentimentos esses, que nos deixam uma sensação de bem-estar, de relaxamento, de ilusão positiva.

E é essa fórmula que a escritora usa, e muito bem, nos seus romances.

Katherine Center sabe como dar-nos o doce, mas sem nunca esquecer o amargo do processo, as dificuldades tão reais, que levam ao crescimento das personagens, à sua clara evolução, e ao seu encontro ou reencontro um com o outro, ou consigo mesmo.

Os traumas, tristezas e desilusões são habilmente mesclados com as loucuras, gargalhadas e uma agradável dose de doçura.

Não é, portanto, surpreendente, que Olá Estranho, de Katherine Center (Singular, 2025), seja uma deliciosa comédia romântica, maravilhosamente caótica, recheada a sentimentos e situações tão reais que levam o leitor a conseguir identificar-se com algumas delas.

Os sentimentos de perda, revolta, incompreensão, negligência e profunda saudade são tecidos com momentos cómicos, que colocam um sorriso tonto na cara, que levam as mãos à testa ao mesmo tempo que notamos os detalhes que tão claramente escapam à protagonista, que além da cegueira facial, parece ser muito, muito despistada em geral.

Como o seu foco é outro, pessoas que a rodeiam na vida diária passam despercebidas, ações benévolas em direção a si, soam como caridade que se recusa a aceitar ou simplesmente apaga da memória, até que tudo muda.

Por vezes a vida tem uma forma estranha de nos fazer reformular como vemos a vida, os outros e até a nós mesmos, e é por este longo, duro e complicado processo que Sadie, a protagonista, vai passar, até que “renasce”.

Ver o mundo de forma diferente ajuda-nos a ver não só o que as outras pessoas não conseguem – mas o que nós próprios não conseguiríamos ver se não tivéssemos tanta sorte. Permite-nos criar as nossas próprias regras. Pintar fora das nossas próprias linhas. Permite-nos outra forma de olhar o mundo.

Sadie Montgomery é uma artista, mais concretamente uma retratista que num instante está a comemorar a sua grande oportunidade profissional, e no segundo seguinte é atropelada pela cruel realidade, quando lhe é diagnosticada cegueira facial adquirida, consequência de uma cirurgia ao cérebro.

Uma situação dramática, profundamente frustrante e desesperante, potencialmente temporária, mas que pode, infelizmente, tornar-se permanente.

A sua nova realidade é composta por um sem fim de rostos desconexos, indefinidos como ‘puzzles’ com peças por montar, o que para uma retratista soa como o fim do mundo.

Mas eis que o que Sadie pensava ser o fim de tudo o que conhecia e amava como seu, se transforma numa nova oportunidade. Uma oportunidade de se reinventar, de se redescobrir e à arte que tanto ama.

Aliadas ao seu mais recente trauma, chegam em catadupa as revoltas do passado e as tristezas, ansiedades do presente. Com os sentimentos e sensações alterados e bem latentes, Sadie vai ter que gerir a sua nova realidade como artista que sofre de cegueira facial, à já de si difícil e extremamente dolorosa situação familiar, aos problemas de saúde do seu cão Peanut e a inesperada entrada triunfal e algo confusa do amor e atração, quando não consegue ver o rosto dos homens pelo quais se apaixonou.

Pessoas, para ela, tão distintas, mas que possuem características, que na ausência de um rosto, a atraem por completo; porém, a situação vai revelar-se ainda mais manhosa do que pensava.

Sem nitidez literal e emocional, navegar estas ondas agitadas da vida, vai demonstrar ser exatamente o que ela precisava, mas nem imaginava.

O que fazer quando não consegue ver claramente? Tem de confiar nos olhos do coração.

Olá Estranho, é mais uma obra de Katherine Center, focada em pessoas feridas, que tentam reerguer-se aos trambolhões, mas que pouco a pouco, se vão erguendo, reconstruindo as suas vidas, pedaço a pedaço, peça a peça, até se tornarem o melhor de si mesmas, ao mesmo tempo que abraçam um “mundo desconhecido”, que adquirem uma nova visão dos outros, da vida e de si mesmos.



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