“Persépolis”, de Marjane Satrapi

“Persépolis”, de Marjane Satrapi

O Irão como nunca o vimos

Se no mundo da literatura sem bonecos há livros que é quase um crime deixar por ler ao longo da curta existência terrena – coisas tão diversas quanto “Moby Dick”, “1984” ou “Os Maias” -, na banda desenhada há pelo menos duas novelas gráficas, sonhadas em tom monocromático, que merecem lugar em qualquer biblioteca ou estante que queiram passar a imagem de algum bom gosto. Uma delas é “Maus”, de Art Spiegelman, a outra é “Persépolis” de Marjane Satrapi – esta última lançada recentemente pela Contraponto numa bela edição que reúne a história integral.

Escrito de forma apaixonada e com a intenção de apresentar o Irão fora do triângulo fundamentalismo-fanatismo-terrorismo, “Persépolis” é um romance autobiográfico que vai da infância à idade adulta, percorrendo convulsões políticas como a “revolução islâmica” ou a guerra com o Iraque.

Marjane Satrapi consegue, ao mesmo tempo que nos leva numa visita guiada pelo seu crescimento, apresentar um retrato de como o Irão evoluiu desde 1980 com a chegada da “revolução islâmica”: o encerramento das escolas bilingues e a imposição do véu, a obrigatoriedade de os casamentos se realizarem dentro da mesma classe social, as prisões ideológicas, as torturas, o encerramento das universidades, a imposição de um vestuário obrigatório para homens e mulheres, os mártires de guerra ou a proibição de ter em casa coisas como discos, cassetes, baralhos de cartas ou um vulgar tabuleiro de xadrez.

É também uma imensa viagem ao lado mais pessoal da autora, que não abdica de se expor em algumas áreas mais dadas à delicadeza. Conhecemos o seu desejo infantil de se tornar profeta – “Queria ser a justiça, o amor e fúria divina, todos num só” -, vemos a sua despedida da infância feita com o fumar de um cigarro, (como que) ouvimos as suas paixões musicais por Kim Wilde e os Iron Maiden, assistimos à sua primeira emigração para a Áustria – onde começou por viver num colégio de freiras, descobriu o gosto pelo desenho, conheceu de perto adeptos da anarquia, viveu as primeiras paixões e desilusões de amor, experimentou um visual punk, conheceu o medo ou a vergonha de se dizer iraniana, iniciou a sua carreira de traficante de droga e viveu tempos de mendicidade -, acompanhamos o difícil regresso ao Irão – onde experimentou o choque cultural num País onde tudo é proibido, tendo desafiado o sistema educacional para evoluir como desenhadora e artista – e a segunda emigração para França, desta vez de forma definitiva, numa altura em que a sua vida corria o sério risco de se extinguir.

Estamos perante um livro imenso: emocionante sem cair em pieguices, político sem entrar em ideologias baratas, histórico sem querer mostrar um espírito enciclopédico. Uma das grandes edições de 2012 na Lusitânia.

Factos

Em Angoulême, “Persépolis” venceu os prémios para autor-revelação melhor guião; venceu também o prémio Eisner para melhor novela gráfica a melhor obra estrangeira.

Em 2007 a obra foi adaptada ao Cinema e, além da nomeação para o Óscar de melhor filme de animação, conquistou o prémio do júri no festival de Cannes desse ano.



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