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“Sete Janelas com Vista para a Morte” de Miguel Miranda

Caso atómico na invicta

Se há um personagem icónico na literatura policial escrita em português é o detetive Mário França, um tripeiro reservado e com um charme próprio nascido do fluxo criativo do escritor Miguel Miranda, cujos métodos de investigação primam por uma gritante falta de ortodoxia, ou não fosse ele o autointitulado «melhor detetive do mundo».

Desta vez, e cerca de três anos depois de sua última aparição em Sem Coração, Mário França regressa ao ativo em Sete Janelas com Vista para a Morte (Marcador Editora, 2018), a quinta aventura em forma de livro deste detetive cuja trama envolve o leitor num novelo entre passado e presente e que vai colocar à prova a mestria de França e seus bizarros e improváveis pares.

Tudo começa quando o detetive é contratado por Edviges Stout, uma mulher fragilizada pela doença mas que comanda de forma autoritária o Grupo Azygus, uma dúbia instituição financeira cujos lucros se destinam, supostamente, à filantropia, mas que é assombrada pela suspeita de que alguém a quer assassinar.

Mas os trabalhos de Mário França não se ficam por aqui pois a estranha mulher quer também saber a verdadeira história do seu pai, Herald Stout, passageiro incógnito num bombardeiro inglês despenhado na praia de Vila Chã durante a Segunda Guerra Mundial.

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À medida que o detetive com escritório sedeado Muro dos Bacalhoeiros, onde os cheiros, gentes e ruídos da Ribeira são elementos imprescindíveis de uma apaixonante paisagem, se embrenha na investigação, vê-se envolvido numa série de peripécias que incluem um casal de reputados pintores e a sua relação com ilustres surrealistas portugueses, a misteriosa morte de um mestre de xadrez, uma dúbia exploração petrolífera na costa algarvia e a possibilidade de um atentado sob o fogo de artificio da noite de S. João.

Dono de uma prosa mordaz, com um ou outro toque deliciosamente académico assente numa ironia narrativa que agarra definitivamente o leitor após as primeiras páginas, Miguel Mirante traça uma critica à futilidade e vaidades próprias de uma sociedade de aparências onde tudo vale para conseguir o seu fim, nem que isso signifique matar.

Felizmente, Mário França não está sozinho nesta luta. Toda a sua trupe de ajudantes bizarros e esquizofrénicos apresenta-se em excelente forma para resolver o maior desafio da sua carreira, assim como pequenas escaramuças e misteriosos roubos no bairro. E nem mesmo a presença pouco apreciada de uma nova dupla de agentes policiais bem-intencionados e a intromissão de uma misteriosa e atraente jornalista vão atrapalhar o processo criativo do melhor detetive do mundo, um homem cujos métodos de investigação misturam o recurso à introspeção onírica, leia-se sono, um faro extremamente apurado e o recurso ao prestável Gandolino, o fiel pombo-correio agora enamorado.

O resultado é um livro que se lê num fôlego, de narrativa apaixonada e sublinhada por um refinado humor, que eleva, mais uma vez, a cidade do Porto ao exponente do lirismo, mesmo sendo palco de uma série de crimes e mortes, claro está, ou não se tratasse de uma (des)ventura de Mário França.



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