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“Something is Killing the Children” de James Tynion IV, Werther Dell’Edera e Miquel Muerto

Caçadora de monstros

Editado originalmente em 2019 e reunindo os capítulos #1 e #5 da coleção, Something Is Killing the Children – Volume I (Devir, 2025), com enredo de James Tynion Iv, desenhos de Werther Dell’Edera e colorido por Miquel Muerto, chegou recentemente aos escaparates e promete deliciar os fãs de banda desenhada assente numa história de terror, que, neste caso, tem a particularidade de retratar uma comunidade que se desfaz ao sabor do medo, do silêncio e de uma culpa que ninguém quer assumir.

A narrativa centra-se em Wisconsin, pequena cidade americana onde as crianças começam a desaparecer ou a aparecer mortas de formas tão violentas que ninguém se atreve a descrever em voz alta. A polícia tropeça em desculpas, os pais tentam manter a dignidade enquanto desabam e os sobreviventes, os poucos que viram alguma coisa, são tratados como fantasistas traumatizados.

É no centro deste turbilhão que surge Erica Slaughter, figura que parece saída de um cruzamento entre um western moderno e um mito urbano, e dona de um perfil que combina calma, traços lacónicos, e cujos olhos estão sempre a medir o perigo, deixando aos cidadãos entre a desconfiança e a esperança.

Um dos grandes trunfos deste primeiro volume é como James Tynion IV constrói o enredo com um equilíbrio raro entre mistério, violência e humanidade, revelando um doce vagar em explicar como funciona o mundo oculto por trás desta história, característica que empresta ao livro um sabor quase televisivo, como se estivéssemos a entrar num universo maior, onde cada resposta abre perguntas novas.

E, ao contrário de muita ficção que se perde nessa estratégia, em Something Is Killing the Children – Volume I sentimos que as perguntas importam: o que são estes monstros? Porque só algumas crianças conseguem vê-los? Que papel realmente desempenha a organização de que Erica faz parte? E, sobretudo, o que acontece a uma comunidade quando o medo passa a fazer parte do quotidiano?

Visualmente, o livro, cozinhado em tons escuros, vive de Werther Dell’Edera, que transforma cada recanto desta cidade numa zona de ameaça. O traço é nervoso, seco, quase à beira do grotesco e as composições vão alternando entre silêncios desconfortáveis e explosões de brutalidade.

A contextualizar tudo isso estão as cores de Miquel Muerto, misturando verdes, vermelhos e amarelos que, juntos, trabalharam para edificar um cenário de um terror mais sensorial do que espetacular. É nessa estética quase “muda”, mas nunca gratuita, que brota a intenção na forma como a arte respira.

Além disso, o enredo mantém-nos presos não pela complexidade, mas pela forma como mistura mistério, trauma e ação, sendo Erica Slaughter uma protagonista magnética e que “carrega” o livro só pela sua presença, onde cada gesto dá a perceber que há mais nela do que a pose de caçadora.

Esta edição da Devir, tal como tem sido seu apanágio, é extraordinária no sentido de preservar o peso visual da obra, transformando o trabalho da equipa artística em cenas onde o desconforto convive com a vontade de saber mais, algo que só um bom livro consegue provocar. E isso faz com que o terror funcione emocionalmente, não só pelo grotesco, mas porque a história dá a perceber que os monstros só são assustadores quando espelham o que já está condenado no mundo real.



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