“Showa – Uma história do Japão (1926–1939)” de Shigeru Mizuki
Mangá contra o esquecimento
Perante uma conjuntura em que a sombra dos regimes totalitários, acompanhados pela desinformação e os extremismos, assola o globo e ameaça resgatar a liberdade conquistada após décadas, séculos de luta, chega às livrarias Showa – Uma história do Japão (1926–1939) (Devir, 2025), do nipónico Shigeru Mizuki (1922-2015), um testemunho poderoso, visualmente impactante e de grande valor jornalístico, que cruza cultura, história e memória.
Trata-se do primeiro volume de uma tetralogia que, segundo a editora, “revisita, em formato mangá, um dos períodos mais conturbados e determinantes da história moderna do Japão”, cujo traço da autoria de Mizuki, veterano da Segunda Guerra Mundial e mestre do mangá, “oferece um olhar crítico e profundamente humano sobre a ascensão do militarismo japonês” ao combinar “rigor histórico com uma narrativa pessoal envolvente”.
Maioritariamente a preto e branco (a exceção colorida são as primeiras páginas, assim como as do meio), este livro foi publicado originalmente entre no final da década de 1980, sendo considerado uma das obras gráficas mais ambiciosas e inquietantes do século XX. E, mais do que contar a história do Japão entre 1926 e 1989, período que ficou conhecido como Era Showa e que coincide com o reinado do imperador Hirohito, Mizuki propõe, ao longo dos quatro volumes desta coleção, uma releitura crítica e profundamente pessoal da memória nacional.

Combinando cenários realistas e minuciosamente documentados (os detalhes são maravilhosos!) com personagens caricaturais, quase infantis, o autor de obras clássicas do mangá como, por exemplo, Hakaba Kitarō, faz nascer um contraste gráfico entre o indivíduo reduzido à sua impotência e as grandiosas e omnipotentes forças históricas. E será assim que ao longo das mais de 500 paginas de Showa – Uma história do Japão (1926–1939) o leitor é conduzido por alguns dos momentos mais sombrios da história japonesa, e em particular neste volume da militarização pré-guerra ao trauma nuclear de Hiroshima e Nagasaki.
Mas, falamos de um livro que vai além de ser um simples registo cronológico. Para tal, Mizuki coloca-se no centro da narrativa, ele próprio, mutilado na frente do Pacífico e um sobrevivente à guerra. Pois, a sua história é a do seu país, tal como também a de milhares de cidadãos comuns levados, muitas vezes à força, pelos ventos ideológicos do nacionalismo.

A força dos 15 capítulos de Showa – Uma história do Japão (1926–1939) está também intimamente associada aos habituais elementos das narrativas de Mizuki, ou seja, a sátira, a ironia, o humor ácido e o absurdo, que, juntos, funcionam como mecanismos de denúncia. Por outro lado, está também representado o culto da obediência, o imperialismo sem crítica, a glorificação do sacrifício, como que faces de uma mesmo moeda, e que são alvo do olhar, do desenho “desencantado” do autor. E quando esse desencanto assume a forma de mangá, a obra torna-se um instrumento de consciência histórica e uma luta contra o esquecimento.
A melhor forma que Mizuki encontrou para sublinhar essa luta foi intercalar episódios do quotidiano com análises políticas e comentários históricos, oferecendo uma narrativa com grande complexidade emocional, híbrida, vibrante e vigorosa, e uma estética ímpar, que obriga a pensar o passado como uma responsabilidade coletiva.
A honestidade com que o faz, torna a obra de Mizuki como merecedora de uma relevância renovada. E isso não apenas pelo que conta, mas pela forma como o faz: com sinceridade, dor, e, acima de tudo, humanidade, mediante um traço que diverte e incomoda, informa e marca.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados