“Corpos” de Si Spencer, com ilustrações de Dean Ormston, Phil Winslade, Meghan Hetrick, Tula Lotay e Lee Loughridge (colorista)

Viagem gráfica que desafia o tempo em nome da verdade

A premissa é desafiante e ambiciosa: quatro corpos, quatro cortinas temporais, uma mesma cidade: a sempre misteriosa Londres. É através desta proposta intrigante, esteticamente ousada e provocadora, que o malogrado britânico Si Spencer, um dos nomes maiores da criação de argumentos para banda desenhada e televisão, associado a alguns títulos da editora Vertigo/DC Comics, como Hellblazer, Books of Magick e The Vinyl Underground, apresenta Corpos (Devir, 2025), uma novela gráfica que cruza política, subcultura e misticismo urbano, por via de um estilo assertivamente crítico

Para chegar a bom porto, Spencer contou com a arte de ilustradores de referência, como o são Dean Ormston, Phil Winslade, Meghan Hetrick e Tula Lotay, mas também com o colorista Lee Loughridge, que conferiu coerência artística a este maravilhoso livro que tem sido aclamado não apenas pelos leitores como também pela crítica, tendo-se tornado um dos projetos narrativos mais desafiantes da BD contemporânea, que lhe valeu inclusivamente o privilégio de ter sido adaptado ao formato televisivo pela mão da Netflix.

O formato da narrativa prima pela originalidade, sendo que a trama evolui em  quatro períodos históricos distintos –1890, 1940, 2014 e 2050 – e, em cada um deles, o ponto de partida é semelhante: um cadáver, sem identidade, mas com características idênticas, aparece no mesmo local.

Essa viagem temporal implica também a presença de diferentes protagonistas, ainda que a procura seja a resolução deste enigma, estando todos associados ao mesmo. Falamos de, por exemplo, o mais clássico inspetor vitoriano Edmond Hillinghead; o jovem anarquista Charles Whiteman, que deambula por época da Segunda Guerra; Shahara Hasan, uma polícia muçulmana que respira o ano de 2014; e Maplewood, uma investigadora num futuro distópico, cuja memória foi (quase) apagada. É assim, guiado pela mão deste quarteto, que o leitor se deixa embrenhar, em paralelo, em quatro narrativas intercaladas, que, paulatinamente, vão revelando conexões perturbadoras.

Mas mais do que o argumento engenhoso, o que distingue este livro da maioria das novelas gráficas é a sua ousada construção visual. Isto porque cada linha temporal é ilustrada por um artista diferente, criando uma experiência multifacetada, seja isso sinónimo de uma Londres vitoriana sombria, criada por Ormston, o futuro ácido de Lotay, as ambiências noir de Winslade ou o traço (mais) realista de Hetrick. Para sublinhar essa miríade gráfica, surgem as cores subtis de Loughridge, harmonizando todo o conjunto.

Pelo caminho, e enquanto a narrativa cresce, Spencer reflete sobre temas que teimam em manter a contemporaneidade, como a repressão sexual, a homofobia e/ou a identidade de género, a corrupção, a manipulação histórica, a crítica social e as fake news, a vigilância e manipulação do passado, a fragilidade das instituições e a persistência do poder oculto, a(s) distopia(s) e o caos crónico que daí pode advir, e o misticismo associado ao mistério do corpo, muitas vezes nu e com símbolos enigmáticos.

Também por isso, além de ser um thriller policial, esta obra é uma crítica feroz às estruturas de poder, ao preconceito sistémico, e à forma como a História tende a repetir os seus erros, assumindo-se a cidade de Londres como uma (quase) personagem, um palco simbólico dessa repetição e trauma coletivo.

Este cruzamento entre arte, argumento, memória e mistério, exige-nos, a cada folhear, atenção e concentração máxima, tal a complexidade narrativa, dando origem a um desafio que dá acesso a uma extraordinária recompensa que é o facto de estarmos perante uma das narrativas gráficas mais geniais dos últimos anos, em que as suas “camadas” desafiam convenções, nunca caindo na ambição de oferecer respostas óbvias, mas antes propondo uma profunda reflexão sobre identidade(s), sentido de tempo e noção de justiça, por mais subjetivo que tal possa ser.

Como bónus, somos ainda presenteados com “capas”, assinadas por várias autores, que introduzem cada capítulo, e, nas páginas finais, mais uma surpresa: desenhos e esboços de personagens da autoria dos quatro ilustradores.  



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