“Silêncio” de Didier Comès
Gritos mudos
Por vezes, a ausência de som pode ser sinónimo de maior agitação e revolta do que expressões mais próximas do grito e do ruído. Essa é a filosofia de Silêncio, de Didier Comès (Devir, 2025), uma obra-prima a preto e branco onde cada traço é respiração, cada vinheta pausa e cada sombra carrega o peso do que fica por dizer.
Publicada originalmente em 1980, esta novela gráfica, distinguida com o Prémio Especial do Júri em Angoulême do ano seguinte e considerada um marco da banda desenhada franco-belga, é tanto um grito contido como uma meditação sobre a inocência e a crueldade humanas.
O protagonista, um rapaz órfão e mudo chamado Silêncio, habitante das Ardenas, é o eixo de uma narrativa que parece, em simultâneo, saudar o realismo mágico e a fábula rural que mete o dedo das feridas abertas pela ditadura das diferenças sociais. Comès desenha/escreve de um lugar distante, de um mundo pequeno e brutal, onde a superstição é lei, a diferença uma condenação e a verdade blindada pelo silêncio. Já a aldeia de Beausonge, palco desta desventura, é menos um lugar e mais um microcosmo moral, onde convivem poder, medo e ignorância, três fantasmas que moldam a tragédia do protagonista.
Também por isso, a força narrativa nasce do que não se diz. Não há monólogos interiores nem discursos moralistas. Há gestos, expressões, a lentidão dos dias, a dureza da terra, palcos que torna Silêncio num ser explorado, humilhado, usado, mas que permanece, contra tudo e todos, obstinadamente bom.

É nesse contraste entre pureza e violência que o livro ganha uma dimensão universal, com Comès a ter arte e engenho para não cair no facilitismo de tornar o protagonista em mártir, apostando todas as fichas na criação de um efeito-espelho onde vemos e reconhecemos a ingenuidade de quem ainda acredita que o mundo é justo, mas também o horror de perceber que, afinal, não o é.
O traço a preto e branco de Comès é, ele próprio, uma forma de linguagem, em que as sombras revelam em vez de ocultar. Nessa dinâmica, reconhecemos uma lógica cinematográfica, principalmente na forma como se enquadram os corpos, os campos, as casas. Tudo é rigorosamente composto, como se cada vinheta fosse uma fotografia de uma memória perdida. Por outro lado, a ausência de cor é também um aliado na construção de uma ideia de intensificar o drama, tornando-o contraste entre luz e trevas e metáfora visual da alma humana.
Mas, há também neste livro uma dimensão poética e política, não fosse Silêncio uma história sobre exclusão, poder e até superstição. Isso porque o silêncio do protagonista não é apenas físico, sendo o símbolo de todos os que são silenciados, dentro e fora da aldeia.
A imaginação de Comès edifica um universo que navega entre num mar chão que, por vezes, é agitado por vagas (des)ordenadas, com ritmos dolentes que levam à contemplação, como se o tempo tivesse parado para nos obrigar a olhar, a entender a luz que pode nascer do lado mais escuro da alma.
There are no comments
Add yoursTem de iniciar a sessão para publicar um comentário.

Artigos Relacionados