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STAR TREK vs STAR WARS

Duas Sagas. Dois Universos. Dois fãs. O debate que faltava!

Os Universos de “Star Trek” (ST) e de “Star Wars” (SW) são dois dos mais populares na ficção científica. Em 2009 estas duas sagas voltarão a estar nas luzes da ribalta e por isso a Rua de Baixo decidiu juntar um grande fã de SW (Alexandre Santos) e outro de ST (Pedro Timóteo) para que nos explicassem o culto à volta destas sagas e que nos provassem de uma vez por todas qual é definitivamente a melhor. O que prometia ser uma discussão acesa, provou tratar-se de uma boa conversa entre duas pessoas razoáveis, que acima de serem fãs de SW ou ST são fãs de ficção científica.

Alexandre Santos – O meu nome é Alexandre Santos, designer e professor, tenho 39 anos e comecei desde muito novo a interessar-me por séries e filmes de ficção científica. A primeira série que me lembro chamava-se “A Nave Orion”, e o ST veio a seguir. Mas quando vi o primeiro filme SW foi o início de algo que até hoje perdura, uma enorme paixão pelo Universo que o George Lucas concebeu. Não sou fanático, mas tenho todos os dvds, muitas t-shirts, várias action figures, canecas e só gosto de jogar jogos de vídeo que tenham algo a ver com SW, como por exemplo, “Lego Star Wars”. Como referi não sou fanático mas tenho uma paixão interior que me faz emocionar por vezes e devo ter visto a primeira trilogia, algumas 100 vezes.

Pedro Timóteo – Chamo-me Pedro Timóteo, 34 anos, Informático. O meu percurso, curiosamente, é um bocado ao contrário do que se seria de esperar. Descobri o SW muito antes, em 87 ou coisa parecida. ST é, para mim, uma paixão bem mais recente, já deste milénio. Gosto imenso de SW, mas para mim, pelo menos os filmes, não são ficção científica “a sério”, ST por outro lado, é mais ficção, é mesmo um futuro diferente, um possível futuro para a Humanidade. Descobri ST, incrivelmente, não por ver na televisão, mas por há uns anos, por curiosidade, ter comprado uma temporada da “Next Generation”. Sim, comecei por aí, só vi a série original mais tarde. Além de ter toda a série original, “Next Generation”, “Deep Space Nine” e a primeira temporada do “Voyager”, tenho também os 10 filmes, e um bom número de livros.

Rua de Baixo –  Pegando nas tuas palavras Pedro. O que acham quando se diz que o SW está mais ligado à ficção e o ST mais ligado à ciência e neste sentido poderemos dizer que o ST é mais educativo que SW?

AS – Bem se formos a ver, o SW é inspirado muito no filme clássico de aventuras. “Flash Gordon” foi por exemplo uma base para George Lucas e trata-se literalmente de entretenimento. Quanto ao ST a história é outra, revemos muito da série no que pode ser o futuro da Humanidade, e daí poder ser mais educativa.

PT – Eu acho que se pode dizer isso, mas ao mesmo tempo não veria isso como uma vantagem em relação ao SW, são géneros diferentes. Como o Alexandre diz, SW é puro entretenimento.

AS – Há outro factor muito diferenciador que é a presença feminina.

PT – Acho que isso há em ambos.

AS – No SW não há uma sexualidade latente, é tudo meio assexuado, e não estou a contar com a última trilogia.

PT – Bem, eu acho que até há muito romance, tanto a Leia como a mãe dela são “interesses amorosos” em cada trilogia. Em ST elas são simplesmente mais um membro da tripulação.

RDB – Antes de terminar a discussão sobre o elemento feminino se não estou em erro o primeiro beijo entre um branco e uma negra na TV foi dado no primeiro ST entre o Kirk e a Uhura.

PT – Sim, em “Plato’s Stepchildren”, da 3ª temporada da série original. Mas eles estavam sob “controlo mental”. Mesmo assim, esse episódio não passou no Sul dos EUA até décadas mais tarde.

AS – Pois para a época foi muito à frente, eram os finais dos anos 60. Mas este tipo de temáticas reflecte-se neste tipo de séries.

PT – Mas mesmo o resto, uma mulher negra na tripulação de comando, a tratar e ser tratada pelos outros como igual isso por si só já foi fora do vulgar. Aliás, quando a actriz quis abandonar a série, o Martin Luther King convenceu-a a ficar, porque era uma inspiração para milhões.

AS – Eh pah essa não sabia mas é natural o Martin Luther king ver a série, também era um visionário.

PT – Sim, aliás a Whoopi Goldberg entra na “Next Generation” porque era fã da série original.

RDB – Pensando nestes dois Universos e apesar de ambos terem filmes e séries, não acham que um foi mais concebido para TV (ST) e outro para Cinema (SW)?

PT – Sim, é verdade, o SW são principalmente os filmes, e o ST as séries.

AS – Sim, o SW como série não funciona muito bem, acompanho as séries animadas recentes, baseadas nas “Clone Wars” e aquilo é interessante, mas para além de ser curto, não me seduz tanto. Quanto ao ST os filmes nunca paguei para os ver no cinema e embora os consiga ver no canal Hollywood vezes sem conta, só consigo pensar neles como série e há uns um pouco decadentes com o elenco da série original.

PT – Sim, sem dúvida, o 5º, 7º e 9º filmes deixam um bocado a desejar, aliás, por isso é que se fala da “maldição dos filmes ímpares”. Mas o 2º, 6º e 8º são fantásticos. Já agora, Alexandre, não achas que a trilogia nova de SW é um bocado mais infantil do que a original? Ou é porque nós estamos mais velhos?

AS – Não gosto muito destes 3 últimos. Os efeitos estão bons, mas a história e a escolha do elenco…

PT – Eu por acaso gostei bastante do Episódio 3, acho que redime um bocado os anteriores. Mas o Ep. 1… Bem, na altura decepcionei-me mesmo bastante. Por um lado, foi bom voltar a ver Jedis depois de mais de uma década, e a coreografia dos combates está excelente.

AS – Pois, o Ep. 3 é que reflecte mais o espírito original da saga. Quanto ao ST há uma série que não gosto o “Deep Space Nine”, para mim não é ST, é uma série de referências comuns ao universo trekkie.

PT – Eu percebo, perde um bocado do optimismo das 2 séries anteriores, é mais negra, mais política, a federação é bem menos idealizada e idealista. Mas, ao mesmo tempo, como série, é capaz de ser a minha preferida. Se bem que acho que o “Babylon 5” é bem melhor. É curioso, realmente, o que me atrai mais no ST em geral é o que a minha série preferida dos ST tem menos, o optimismo, o futuro melhor, a evolução (não biológica, mas social) da Humanidade.

AS – E as armas? Tens que reconhecer que as do ST deixam algo a desejar, os phaser parecem pistolas de brincar, para os parâmetros actuais e os sabres laser são qualquer coisa de excepcional.

PT – Começou nos anos 60, temos de dar desconto. Por outro lado, os primeiros Palm Pilots eram completamente inspirados nos comunicadores da série original, logo até foram progressivos. Sobre os sabres de luz, sem dúvida nunca discordaria disso.

RDB – Qual a vossa opinião sobre quem é o público-alvo de cada um?

PT – Eu diria que SW é para todas as idades, se bem que, mais uma vez, considero o Ep. 1 mais orientado para crianças e o 3 para adultos, e ST é de adolescentes para cima. Repare-se, já agora, que ser para todas as idades não implica que seja infantil.

AS – Quanto ao ST já tentaram chamar público mais abrangente com algumas séries recentes mas definitivamente aquilo é pós-adolescência e não é para todos.

RDB – Falando agora do futuro, para o ano vai sair um novo filme do ST, realizado por J.J. Abrams um fã fervoroso deste Universo. No entanto, na sua opinião é preciso trazer mais SW para o ST, algo que ele tentou fazer para este filme. Querem comentar?

PT – Bem, não tenho seguido de perto, mas por tudo o que já vi, incluindo o teaser, aquilo parece é querer trazer mais “Buffy” do que outra coisa, o que pode não ser mau. Parece-me ter mais a ver com as relações entre os personagens, do que ficção propriamente dita, um bocado como a “Buffy”, que tem muito pouco a ver com vampiros.

AS – Pelo trailer e pelo que tenho visto e ouvido parece bem consistente, mas sem dúvida mais SW. Tem um princípio meio “Easy Rider” e escolheram muito bem o Sylar da série “Heroes” para minha personagem favorita do ST, o Mr. Spock.

RDB – Passando agora para as novidades de SW, além da série de animação que se encontra a passar, qual a vossa opinião sobre a série em “acção real” prometida por Lucas e agendada para 2009 que se desenrola entre o Ep. 3 e o Ep 4?

PT – Aí estou desactualizado, nem sabia que ia haver tal série.

AS – A série animada vê-se bem mas não sei se o estilo e o traço de animação é o mais interessante a nível visual mas aí são as questões estéticas. Quanto ao restante, os pormenores são muitos difusos. Já li que queriam fazer episódios muito longos ou séries de 400 episódios para durar 2/3 anos, mas a temática agrada-me, personagens “menores” do SW tipo Chewie, R2D2, Boba Fett, Wookies.

PT – Já agora, li recentemente que o Lucas tem planos para lançar novamente os SW no cinema mas em três dimensões. Ele não consegue deixar os filmes antigos quietos.

AS – Pois o Lucas só gosta de coisas diferentes.

PT – Pois, quer dizer, por um lado não desgosto da ideia, talvez por ser informático, também acho que o software devia sempre ser melhorado, e até já pensei que se devia fazer o mesmo em relação à música, onde tal quase nunca acontece. Por outro lado, como estava a dizer, algumas das alterações são realmente forçadas por os actores terem filmado “aquelas” cenas e não outras, e por estarem demasiado velhos (ou mortos) para as voltar a filmar. Por exemplo, o Han a falar com o Jabba no início do Ep. 4 é completamente artificial e o Greedo a disparar primeiro foi daquelas coisas que estragam completamente a evolução do Han como personagem.

RDB – Já deu para ver que ambos gostam destes dois Universos, mas uma vez que o Pedro prefere ST e o Alexandre SW, que tal debaterem um pouco porque preferem um ao outro?

PT – É um bocado como eu acho que disse logo no início: SW é entretenimento puro, mas ST é o que eu espero, em grande parte, que seja o futuro da Humanidade, um futuro que me faz ter algum optimismo, apesar de obviamente eu não o ir ver em vida. Imagino que um dia a Humanidade possa ser assim: sem pobreza, sem preconceitos (racismo, sexismo, homofobia, etc), e dando muito mais valor à descoberta, à exploração, e a resolver problemas sem ser necessariamente de forma violenta.

AS – Bem, por questões um pouco mais na ordem da emoção, inspiração, sempre gostei de naves, de heróis e anti-heróis, maus às vezes. Vejo a 1ª trilogia de SW como um todo, e claro que tem defeitos mas continuo a vê-la com o mesmo fervor e descubro sempre pormenores novos. E no ST com o tempo o meu interesse e de muitos esmoreceu por séries não tão bem conseguidas.

PT – Apesar de gostar imenso do SW como filmes de acção e aventura, há lá coisas com as quais não concordo a outros níveis, como certas partes da filosofia dos Jedi, o facto de o Lucas claramente não acreditar na democracia, e a ideia de que se é “especial” principalmente por razões hereditárias.

AS – Os Jedi são seres superiores e pronto nunca  questionei as razões. Interessa-me mais a parte emocional da coisa. Os maus se se tornam maus é porque o poder corrompe e na 2ª trilogia vês isso no Anakin.

PT – OK, é uma forma válida de ver as coisas. Mas não é uma questão de poder só; ninguém dirá que o Yoda não é dos seres mais poderosos do Universo, e no entanto… A evolução do Anakin, para mim, tem muito pouco a ver com a “Força”, e mais com o facto de ele ser um puto mimado que não teve pai e cresceu com a mãe a dizer-lhe que ele era “especial”. Qualquer um nessas circunstâncias ficaria mau, com ou sem a “Força”.

AS – Isso é mesmo psicologia mas já que falas a figura paternal ou a ausência dela provoca isso.

PT – Em relação a factores mais concretos sobre o ST, adoro o facto de a maior parte dos episódios das séries, além do desenvolvimento do personagem e, no caso de “Deep Space Nine”, o desenvolvimento do enredo serem problemas para resolver, problemas morais, intelectuais, etc..

AS – Eh pah isso às vezes é mesmo uma seca e dá-me sono, eu gosto do bom enredo mas condimentado com acção e não aqueles cortes de edição, suspense, etc..

RDB – Se pudessem escolher, o que gostavam que fosse feito no futuro em relação a estas duas sagas? Por exemplo, o George Lucas sempre disse que eram originalmente 9 filmes gostavam de ver um Ep. 7, 8 e 9? E em relação ao ST? Novas séries ou apostar mais em filmes?

PT – Por acaso, ainda ontem vi na Wikipédia que o Lucas continua a dizer, quando lhe perguntam, que nunca fará episódios depois do “Return of the Jedi”, o que é pena. Mas há sempre aquela trilogia do Timothy Zahn, a única coisa que li de SW até hoje, e adorei. Gostava que a história tivesse continuado, mas devia ter sido há décadas, com os actores ainda relativamente jovens e isso nunca vai acontecer.

AS – Se é para ser como os últimos esqueçam, nisso sou fundamentalista, reuniões de bandas e afins não é o meu género.

PT – Quanto a ST, mais uma vez, olho para trás e vejo imensas oportunidades perdidas que nunca vão existir. Espero que o novo filme seja um sucesso, mas espero também que um dia existam novas séries, de qualidade. Aqui talvez seja uma questão de “conforto” da minha parte, mas ainda prefiro a época da “Next Generation”; ”Deep Space Nine”; “Voyager” e não me importava de ver mais uma série passada nessa época. Outra hipótese era andar para a frente mas aí corre-se outro risco que acho que o fantástico jogo “Sid Meier’s Alpha Centauri” exemplificou bem, que é a tecnologia evoluir tanto que os próprios paradigmas do que é “tecnologia”, “Humanidade” e “realidade” mudam, tornando a coisa MUITO mais geeky.

AS – Quanto a mim o SW só mais aventura e batalhas no espaço e sítios remotos nisso sou básico. Acção = reacção.

RDB – Mas imaginando que as coisas eram feitas com qualidade o que gostavas de ver Alexandre? Filmes que avançam no Universo SW ou por exemplo filmes sobre tempos passados?

AS – Futuro sem dúvida, do passado só flashbacks.

RDB – E em relação ao ST, algum sonho também?

AS – Não, está tudo.



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