“Se os Gatos Falassem”, de Piergiorgio Pulixi
Um crime (quase) perfeito
Se os Gatos Falassem, segue o sucesso do primeiro livro de Piorgiorgio Pulixi, também ele publicado pela Clube do Autor, A Livraria dos Gatos Pretos.
Mas existe uma grande diferença entre ambos os livros, já que Se os Gatos Falassem está despido da violência e estereótipos noir presentes na Livraria dos Gatos Pretos, sendo uma versão plena de ironia e sarcasmo, num ambiente mais leve de suspense e mistério, típico de autores como Agatha Christie, autora, várias vezes, mencionada ao longo do enredo, com menções a diferentes policiais, entre os quais, Scarpetta, Death on Demand e Morte no Nilo.
As silhuetas eram negras como o pecado do qual tinham sido testemunhas
Os gatos, Miss Marple e Poirot, são um ponto fulcral na investigação, tal como o título indicia. Marzio Montecristo, o eterno Grinch livreiro, tenta manter um nível de autenticidade vs evolução e trends livrólicas na sua livraria Les Chats Noirs, lutando contra as mesmas com unhas e dentes, e com os seus muitos, e já habituais, comentários a roçar o ofensivo, através das suas verdades “sem papas na língua”.
A sua paciência continua inexistente, a ligação cérebro-boca é o seu maior desafio, sendo algo que deixa Patrícia, a sua colaboradora na livraria, à beira de um ataque de nervos, que confere à mesma, a vontade de arremessar, ocasionalmente e com extrema pontaria, um pesado tomo verso o seu teimoso e mordaz patrão.
Desde os eventos do último livro, Miss Marple e Poirot tornaram-se estrelas no Instagram; estrelas, essas, que mantêm um olhar crítico para com Montecristo, quais filósofos (igualmente) sarcásticos. Observadores silenciosos, são eles quem tudo vê e quem tudo (e todos), julga.
A livraria já viu melhores dias. A competição no mundo editorial é difícil, o nicho escolhido mostrou ser demasiado específico, sendo, como tal, necessário abrir horizontes, para salvar as finanças e manter a livraria aberta.

Além dessa nuvem negra comercial, uma grata amiga está numa situação de saúde precária, o que não ajuda ao humor, já de si, negro e tumultuoso de Montecristo.
Eis que surge uma hipótese, uma luz ao fundo do túnel, para evitar que tudo afunde qual Titanic. Montecristo terá uma proposta importante e basicamente irrecusável, para se manter à tona, e ele não está nada contente com essa alternativa.
Terá que vender os livros de um autor que ele amplamente critica e em nada aprecia, durante dois dias, num navio chamado Mise en Abyme. Detalhe esse que salta à vista de um leitor de Agatha Christie, pelas inevitáveis comparações às suas obras no decurso do enredo.
O crime é elaborado meticulosamente, tendo em conta todos os fatores conhecidos de antemão, mas, tal como na vida, nada é perfeito, e o mínimo deslize pode levar à sua ruína.
Conseguirá Montecristo salvar a livraria e descobrir o assassino? E afinal, o que aconteceria se os gatos falassem?
A noite estava silenciosa no Mise en Abyme. Naquela noite, porém, havia alguém que não dormia.
Numa escrita fluída, o que ajuda a ler o livro num ápice, Se os Gatos Falassem é um livro que mistura o charme felino, conferindo-lhe pensamentos complexos de forma algo verossímil, a um enredo popular, o do crime do quarto fechado, aliado a uma boa dose de emoções, cinismo e crítica social.
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