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Tambores na Noite

Ele perdeu-se. Será que volta? Em palco até dia 26 de Abril no Teatro Nacional S. João.

Da autoria de Bertolt Brecht, Tambores na Noite retrata o regresso de um soldado alemão perdido no Norte de África, à sua Alemanha Natal, invadida pela Revolução Esparquista no final da Primeira Guerra Mundial. Tempos de mudança onde, afinal, o retornado mantém as suas antigas ambições de burgês. Encenação de Nuno Carinhas, em cena no teatro Nacional S. João (TNSJ) no Porto até 26 de Abril.

Em tempo de crise , como é este que supostamente vivemos, surgem sempre  vozes contestárias. E, coincidência ou não, o dramaturgo alemão Brecht, símbolo do teatro épico e estreitamente ligado à ideologia comunista, é encenado um pouco por todo o nosso país. Exemplo disso, e fazendo uma descarada e necessitada publicidade à cultura em Portugal, é a  “Mãe”, no Grande Auditório do TEMPO em Portimão, e a representação de “Tambores na Noite”, no TNSJ na cidade invicta.

E é exactamente deste último que queremos falar. Mas antes de tudo, e dando uma pequena introdução, podemos começar por dizer que quando Brecht escreveu esta peça, em início de carreira, estava necessitado de dinheiro. Isto para avisar já os mais românticos que a intenção nunca foi tornar esta peça num marco político – o que acabou eventualmente por acontecer – mas sim numa história de amor para encher as cadeiras dos teatros.

Mas vamos olvidar estes pormenores: Brecht é soberbo e está em grande no TNSJ, numa primeira encenação de Nuno Carinhas como Director Artístico deste teatro. A história: um jovem chamado Andreas Kragler (Paulo Freixinho – um actor a não perder de vista!) regressa das cinzas da Guerra disposto a ter de volta tudo a que estava habituado. Depara-se com uma Alemanha em estado de revolução vermelha, onde é cada um por si e muito poucos pelos outros. As lutas entre as classes operárias e burguesas estão ao rubro, numa busca alemã pelo equilíbrio pós Primeira Guerra Mundial. É com este pano de fundo e tambores à mistura -um dos pilares da peça- que encontramos este jovem, mas nada inocente soldado, em busca da sua noiva, Anna Balicke, filha de uma família burguesa enriquecida com a guerra.

Anna, representada pela actriz Sara Carinhas, vive em permanente dilema, entre a espera do seu adorado e espiritual noivo, ou a cedência aos tempos modernos e o casamento com o antigo operário e agora total burgês Friedrich Murk (Pedro Almendra), com quem aliás, mantém uma relação completamente “moderna” e física.

É em clima de retorno e de escuridão que esta acção se desenrola: a oposição à mudança, a hipocrisia da guerra, os mais fracos e oprimidos contra os Senhores alemães que, afinal, continuam a dominar a escala social. Brecht critica e mostra os conflitos sociais da época, sem esquecer a história romântica pelo meio!

Claro que uma boa peça de teatro constrói-se também com outros elementos, como o elenco – onde se destacam nomes como Emília Silvestre e Jorge Mota, pais zelosos da noiva Anna Balicke – e um grande cuidado com o cenário e o design de som, este último em destaque pela sua qualidade.

“Tambores na Noite” pode não ser a obra mais conhecida de Bertolt Brecht, mas a Rua de Baixo recomenda uma visita ao Teatro Nacional S. João e ver uma grande encenação com um grande elenco, em palco até dia 26 de Abril.



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