25 anos Teatro Garagem

Uma Vida

"(...)quero voar, mesmo sem asas, quero andar, mesmo sem pernas, quero continuar vivo, mesmo morto, quero amar, mesmo que seja só um vestígio de poeira, quero sobretudo continuar a tentar compreender; quero este frenesi(...)"

“O sonho comanda a vida”.

Foi precisamente esta a frase e pensamento predominantes na minha cabeça à medida que fui sabendo mais e mais sobre o Teatro da Garagem – é uma grande verdade que o sonho comanda realmente a vida! É intemporal e foi muito bem “fotografado em palavras” o pequeno/grande sonho de António Gedeão – “Eles não sabem nem sonham… Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.”

Uma vida!

25 anos é o tempo de uma vida!

Ou talvez seja antes a vida de um tempo todo que produz e alimenta várias fontes inesgotáveis de sonhos. Sem eles, nada se quer, deseja ou realiza. É na base dessa vida muito sonhada que nasce o Teatro da Garagem e que se percorre um trajecto de concretizações e projectos culturais.

Confesso que me foi muito difícil resumir e organizar em conjuntos de palavras a essência de que é composta esta “garagem onde se fabrica teatro”, sem lhe roubar a beleza de tudo o que me foi permitido ver. Com as devidas autorizações, decidi transpor palavra por palavra a descrição real do sentimento que atravessa as várias vivências culturais que iniciaram e ainda atravessam estes 25 anos do Teatro da Garagem e, em especial de mais este devoto e orgulhoso “pai do teatro” – Carlos J. Pessoa – que não hesita em amparar e orientar criativamente todos os “seus filhos”que nascem e crescem dentro da sua casa até ao seu primeiro voo autónomo.

Poderia ter retirado apenas frases soltas aqui e ali mas, senti que não seria justo arruinar e omitir um texto tão bonito e esclarecedor sobre o teatro.

Foi esta a curiosidade sobre como se fazem 25 anos de Teatro.

Sei que a Companhia nasceu com o intuito de dar uma nova lufada de ar fresco à representação/criação mas gostaria que me dissesse como, quando e o verdadeiro “porquê” do Teatro da Garagem!?

Como? Fazendo uma inversão da perspectiva dominante do fazer teatro em Portugal; em vez de “de fora para dentro” ou seja, um teatro baseado nas correntes dominantes no espaço cultural europeu, um teatro de “dentro para fora”, partindo da nossa experiência, das vivências, dos acasos e sonhos de cada um, aqui e agora, afirmar um teatro português, de Portugal, para quem nos quiser escutar. Quando? Há 25 anos, numa garagem, no sítio de Monte-Trigo, Abóboda, Carcavelos, um lugar elevado, onde se cultivou trigo, agora povoado de habitações clandestinas (ainda, e sempre… em processo de legalização) e actividade industrial esparsa; perto da Garagem existem as ruínas romanas de Freiria, ensaiei lá muitas vezes, espreitei o passado, adivinhei futuros, estranhos e incompletos. Quando então? Ontem, agora, amanhã… Porquê? Queríamos, queria, quero, dizer que existimos, que somos gente, digna, imaginativa, capaz; quero voar, mesmo sem asas, quero andar, mesmo sem pernas, quero continuar vivo, mesmo morto, quero amar, mesmo que seja só um vestígio de poeira, quero sobretudo continuar a tentar compreender; quero este frenesi, e o Teatro da Garagem é a minha ferramenta, prolongamento natural de mim; amiúde pego nela e lanço-me ao trabalho.

Se pensarmos que 25 anos é uma vida…como se mantém essa vida por todo este tempo em actividade criativa constante?

A uma certa altura torna-se um respirar, não se pensa nisso, respira-se. Faz parte integrante das nossas rotinas e depois, também, concluímos que sempre foi assim, que sempre nos soubemos a viver desta maneira, porque a imaginação já nos sobressaltava desde muito cedo e o crescimento, a maturidade, só dirigiu, moldou, esse fulgor para uma determinada tarefa; no meu caso foi o Teatro da Garagem. Depois há a questão das circunstâncias e da sorte. A circunstãncias de encontrar ao longo dos anos as pessoas que permitiram, que ajudaram, que se empenharam e apaixonaram por este projecto de fazer teatro. E por fim a sorte, alguma sorte em momentos decisivos, quando poderíamos ter acabado enquanto companhia de teatro, e nos surgiu, ou descobrimos, uma luz ao fundo do túnel, que afinal não era um comboio…

Quais os nomes da equipa? Principais pelo menos…embora todas as ‘ formiguinhas’ sejam necessárias.. Actores/ colaboradores, etc?!

Maria João Vicente: directora da companhia, dramaturgista e actriz; Sergio Loureiro: artista plástico; Daniel Cervantes: músico; Nuno Nolasco: assistente de encenação e actor; Nuno Pinheiro: actor; João Belo: produtor. E aqueles que me aturam todos os dias e sem os quais não respiro: os meus filhos, Beatriz, Eduardo e Manuel e a minha companheira, musa e actriz favorita, Ana Palma.

Sei que dão a conhecer o trabalho de novos autores através do Ciclo Try Better, Fail Better. Em que é que consiste propriamente? Como funciona? Têm tido muitos autores/criadores?

É a abertura do teatro a novos criadores que, para aprenderem a fazer teatro, do modo que imaginam, têm de poder ter um espaço para “tentar melhor” e “falhar melhor”, porque o erro em arte é sempre um benefício de aprendizagem. Inscrições abertas, são seleccionados os melhores projectos, depois criamos condições de produção e divulgação para que sejam apresentados publicamente em espectáculos com características profissionais, quer de apresentação, quer de recepção. Além de ajudarmos á materialização cénica também procuramos desencadear retorno crítico, escrevendo sobre os espectáculos na página electrónica do Teatro da Garagem.

Gostaria também de saber algo que considere relevante para a descrição do Teatro da Garagem e quais os vossos objectivos e próximos projectos em prol do desenvolvimento social através da cultura?

Não fazemos arte pela arte embora tenhamos a noção de que por vezes a arte, o teatro no nosso, caso, não tem uma explicação imediata, uma utilidade evidente; muitas vezes a arte é inexplicável, misteriosa e inútil. Acreditamos, contudo, que o mistério da arte, a sua beleza, advém da nossa implicação cívica, social, fortuita, por vezes, com os outros, com aqueles com que nos cruzamos ou que se cruzam connosco. Temos por isso a noção que fazemos parte de uma comunidade, os artistas em geral, em que somos actores cívicos e culturais; formiguinhas a trabalharem no intuito de um legado intangível, passado de geração em geração, que nos doa algum sentido de pertença; a cultura, enfim, aquilo que nos permite aceder à beleza, a esse sentido de pertença, de facto, creio, salva, e é, em última análise, depois da queda de todos os monumentos, inclusive o incêndio da biblioteca de Alexandria, o que permanece. Quanto aos próximos projectos ainda não estão definidos.

Imagino porquê…mas, porquê Teatro da Garagem?

Acho que já respondi mas tentemos de novo: a Garagem é o reduto do inconformismo, da resistência, do desejo de mudança, a maior parte das vezes contra nada, nem ninguém, tão só uma inquietação de viver, que nos faz escavar, escavar em busca de um osso antigo. A Garagem é talvez o cemitério, o bunker, a igreja clandestina, o lugar amorfo onde todas as formas se tornam possíveis. A Garagem é a minha casa.
Foi nesta “casa” que decorreu entre os dias 13 de Novembro e 7 de Dezembro de 2014 o Teatro Twitter de Carlos J. Pessoa e que assinalou os 25 anos de existência do Teatro da Garagem.

25 anos Teatro Garagem - Twitter

“Uma conversa de crianças… com a boca da verdade:
– Teatro Twitter?! O que é??
– São uns passarinhos que andam por todo o lado e que falam sobre o mundo das pessoas!
– Os passarinhos falam???
– Falam sim! Quando lhes dão liberdade…
– Ahh… que giro!!! E eu também posso falar com eles?
– Sim… se os souberes ouvir…!”

25 anos Teatro Garagem

É quase tão difícil ver o mundo através dos olhos inocentes e sonhadores dos nossos filhos ainda crianças como vestir-lhes as roupas… mas podemos tentar – não será difícil usar pelo menos algumas peças exteriores. Seremos nós capazes de lhes copiar alguns dos sonhos?

Teatro Twitter poderá ser o reflexo de uma sociedade apressada e confusa, vista através de uma cascata de sentimentos e vivências mais ou menos transparentes, que se apresentam todos os dias na nossa frente e em que basta um simples toque físico, imaginário ou emocional para mudar de assunto à mesma velocidade de avanço ou retrocesso com que escolhemos um qualquer destino a seguir.
A diferença será o facto de não podermos ser nós a escolher o tema do assunto nem o tempo ou velocidade investidos no mesmo. A semelhança reside na facilidade com que nos identificamos e nos deixamos levar pelo emocional que mais nos convém no momento.

Teatro Twitter é uma outra forma de fazer e ver teatro e que através de breves tweets, conjuga a brevidade do texto e das emoções com todas as novas tecnologias em forma de complemento e suporte ao trabalho do actor.

Investir na aprendizagem constante da arte é sempre um passo em frente e um benefício acrescido.

Fiquem atentos portanto, aos originais e “próximos tweets” do Teatro da Garagem!

Opinião:

São muitos os actores que dão vida a estes passarinhos em forma de tweets.

Percebi também que são muitos os colaboradores devotos e empenhados para que tudo se alinhe, conjugue e funcione todos os dias em prol da cultura, do crescimento pessoal e evolução social também.

Fiquei muito feliz por ver alguém que já há muito foi criança, a subir e descer as escadas e que, apesar de alguma dificuldade motora, continua a voar com a alma leve de um pássaro, quando passa por nós, nos vê como um igual e nos diz um sincero “Obrigado”!

Quando lhe sorri não estava apenas a ceder-lhe a passagem. Estava também a dizer-lhe “obrigada” apenas por o ver ali no teatro e me servir de exemplo.

O tweet mais importante que trouxe dentro do meu “telemóvel” foi: quando for grande quero ser como ele e passear-me pelo teatro!!!



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