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“Tetro” Ford Coppola

Família, Talento e Bom Gosto.

“Buenos Aires. Bennie reencontra Tetro, o irmão mais velho, que jurou nunca mais ver a família. Outrora um brilhante poeta, Tetro está distante e amargo. Rejeitou o nome e deixou de escrever. Na casa em La Boca, Bennie descobre textos antigos do irmão. Neles estão guardados os segredos daquela família arruinada por rivalidades.”

A última vez que vimos o senhor Coppola foi no Verão de 2007 a dar a cara por uma conceituada marca de luxo. Ao lado da sua também talentosa filha, ambos foram fotografados por Annie Liebovitz numa bela paisagem nas redondezas de Buenos Aires. O mote dessa campanha publicitária foi “A Arte de Viajar”. Família, Talento e Bom Gosto é a leitura possível de tal imagem.

Dificilmente poderíamos imaginar que fosse possível exprimir tal imagem numa película de 97 minutos. Mas assim foi. Em 2009 chega-nos Tetro, um filme bem mais pessoal para o autor, sobre uma prestigiada família de talentos e a sua história que nos vai sendo desvendada. A acção centra-se em Tetro (Vicent Gallo numa grande e inesperada interpretação), que é descrito pela sua companheira Miranda (Maribel Verdú) como “um génio sem sucessos”. Num doloroso processo de auto-conhecimento, de cura, Angie vai-se resolvendo com o passado à medida que vai sendo espicaçado pelo irmão mais novo Bennie. Este foi ao seu encontro a La Boca, um bairro em Buenos Aires, onde o irmão se “refugiou” da família e, sobretudo, da tirania do pai, durante dez anos. A acção desenrola-se em torno do confronto dos dois irmãos, entre o talento esquecido e mal resolvido de um e a jovial e ingénua esperança no mundo do outro.

Quase todo o filme é a preto e branco, o que por si só já dá uma carga pesada e densa a toda a trama. O espectador está conectado com um ambiente cinzento e está sempre à espera de assistir a alguma cena mais intensa. Ficamos programados para a tragédia desde o início até que a cena seguinte supera a anterior e assim sucessivamente num crescendo. É aí que reside uma grande mais-valia do filme. A capacidade de nos surpreender a cada cena que passa, de nos manter presos ao écran durante duas horas e desejar que o filme não termine nunca, graças à complexidade da história e a riqueza dos personagens. Tetro torna-se uma experiência completa. Essa inteligente capacidade, diga-se, é de mestre.

Em muitos momentos achamos estar a assistir a um filme de Almodôvar – é falado em espanhol, tem referências teatrais tal como emHabla com ela ou La ley del deseo, também retrata a homossexualidade e até entra a Carmen Maura! Não há qualquer registo de que o filme seja um tributo ao realizador espanhol até porque o próprio Coppola admite ser o filme mais pessoal, (mas não totalmente autobiográfico). É de mestre. É de mestre parecer obra de um outro mestre e mesmo assim manter o seu cunho pessoal, o cuidado com o guarda roupa, com a fotografia e a construção do enredo. De sabermos que é Coppola porque é Coppola. Francis Ford Coppola.

Para quem não sabia que havia vida na Patagónia, as imagens mostradas convencem o espectador da beleza deste lugar no fim do mundo. Para além disso, ver os personagens com o guarda-roupa tão bem escolhido, completa a cereja no topo do bolo. Família, Talento e Bom Gosto.



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