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TOMARA | ENTREVISTA

Favourite Ghost é o nome do álbum de estreia de Filipe C. Monteiro como artista sob o alter-ego Tomara. Ele que até então, sem sair do mundo da música, trabalhava como instrumentista, arranjador, produtor musical e ainda realizador de videoclips, aventura-se agora neste projeto muito seu, com um carácter muito pessoal e onde nos revela os seus medos. Começou como instrumentista na banda Atomic Bees ao lado daquela que mais tarde ficou conhecida como Rita Redshoes, tendo depois sido produtor de muitos músicos que conseguiram marcar e bem, o seu lugar numa nova era da música portuguesa.

Se desse para classificar o género musical com o adjetivo “cinematográfico”, este álbum seria classificado como tal. Ao ouvirmos as músicas é inevitável não viajarmos no enredo de um filme que somos livres de criar, porque consegue reunir essa capacidade de nos embalar por universos imaginários, onde a música é ar no espaço que ocupamos. No entanto, é no folk que se encontra a sua raíz musical, com influências de ritmos calmos e “frios” dos países nórdicos.

Este disco  é ainda uma aliança entre a paixão pela música e pelas conquistas que a sua família lhe trouxe, tornando-o num ponto de partida muito puro e inocente que promete trazer muitas mais alegrias. Pelo menos é nisso que queremos acreditar, agora que associamos a palavra “Tomara” diretamente com música.

Em entrevista à Rua de Baixo, Filipe C. Monteiro conta-nos algumas curiosidades sobre esta sua nova vertente e sobre como é que chegou até este trabalho.

Sei que até agora trabalhava mais como produtor. O que é que o fez querer lançar este projeto a solo?

Eu trabalho como músico já há muitos anos. Mais a sério é desde 96 (1996) com a minha primeira banda que foram os Atomic Bees, que chegamos a gravar disco em 2000. E na altura fiz um percurso importante, tocamos em quase tudo o que era festivais, o que não era muito normal naquela altura não tendo disco sequer. Aliás, naquela altura até acabaria por ser normal, hoje em dia é que seria impossível fazer isso. E depois dos Atomic terem acabado em 2001 eu continuei a tocar com a Rita, que era a vocalista da banda. Continuei a tocar nas coisas que ela ia fazendo a solo até que ela conseguiu fazer o primeiro disco como Rita Redshoes já. E aí fiz o primeiro e o segundo disco como guitarrista e andei em tour com ela esse tempo todo, até que em 2011 conheci a Márcia, e hoje em dia sou casado com ela. Quando conheci a Márcia comecei a tocar com ela e aí sim, comecei a produzir os discos dela. Portanto, o primeiro disco que eu produzi foi o da Márcia, o «Casulo», em 2013.  Mas antes de produzir discos eu já era instrumentista, já tocava guitarra e portanto, a vontade de fazer um disco a solo acho que existiu desde muito novo até. Não propriamente um disco… eu com doze anos não sonhava em fazer um disco, sonhava era em fazer canções, em ser autor e depois na experiência com os Atomic Bees, nós compunhamos os quatro em conjunto. Nessa altura, eu acho que diluí um bocadinho por todos os elementos essa capacidade de fazer canções e quando a banda acabou eu meti na cabeça que a minha forma de fazer canções era com eles, naquele formato coletivo. Eu acho que não tinha capacidade para fazer sozinho uma coisa como por exemplo, a Rita teve sempre na cabeça dela, que iria sempre continuar a fazer música. E por isso, entre esse período 2000-2011, eu tinha uma vida um bocado dupla, porque eu tocava com a Rita e foi na altura que eu comecei a realizar vídeos e por isso, nessa fase a minha vida foi assim. Eu satisfazia o meu vício pela música através das coisas que eu fazia com a Rita, satisfazia o meu gosto pelo vídeo como realizador e pós-produtor. Depois o meu encontro com a Marcia fez-me admitir p’ra mim, que não era suficiente estar só nesse plano musical, no plano de estar ao lado de alguém a ajudar ou a produzir. Acho que foi ela que me deu força nesse início em 2011 e portanto, o disco levou cinco, seis anos a ficar pronto. Não foram seis anos contínuos, tivemos dois filhos, tivemos algumas interrupções. Mas isso também serviu para eu avaliar o que estava a fazer e ganhar coragem porque, p’ra mim não é muito fácil. Eu sou tímido por natureza e não foi fácil convencer-me a mim prórpio que eu tinha estrutura para fazer um disco ou para estar a dar entrevistas… é tudo um território um bocado estranho para mim sair do estúdio, mas tenho que me ir habituando.

Disse que também era realizador de vídeos portanto, realizou também os vídeos da «Coffee and Toast» e da «For no Reason»?

A «For no Reason» não. Essa foi a Joana Linda que realizou. A «Coffee and Toast» fiz só porque o vídeo já estava idealizado na minha cabeça antes de isto estar acabado e quando chegou a altura de fazer o vídeo já não fazia sentido dar o vídeo a outra pessoa. A minha ideia era dar os vídeos a outras pessoas porque estou um bocado cansado do processo solitário do disco: eu gravei os instrumentos todos, cantei, produzi… foi um coisa demasiado solitária, mas teve que ser assim. Eu não tinha grande hipótese porque, ao longo destes cinco anos foi sempre tão duvidoso que eu ia chegar ao resultado do disco que eu acho que não tinha coragem de envolver outras pessoas. É estares a envolver alguém num compromisso que tu não sabes se vais cumprir e então acabei por desenvolver o disco sozinho. Agora que o disco está feito a minha vontade é abrir a janela e deixar que outras pessoas mexam nas coisas. Por isso o segundo vídeo já foi a Joana Linda que realizou. Eu realizei muitos videoclips para outros, para a Rita Redshoes, para a Márcia, para o António Zambujo, para o Paulo Furtado. Eu trabalhei alguns anos em publicidade como pós-produção, mas despedi-me dessa empresa porque prometi a mim mesmo que ia trabalhar naquilo que gosto, nem que eu tivesse que ter vinte empregos, e acho que foi a melhor coisa que eu fiz. Eu hoje em dia posso ficar feliz por trabalhar quase exclusivamente só com música.

E o que é que o inspira essencialmente quando faz produção de vídeos? No caso do «Coffee and Toast» o que é que o levou a criar aquela imagem?

É engraçado porque as coisas são um bocado aleatórias até um certo ponto. Por exemplo, a imagem que serve de base ao «Coffee and Toast», a imagem da estrada, aquilo foi filmado em 2008 ou 2009. Portanto, já há quase dez anos, num regresso do concerto da Rita eu tinha acabado de comprar a câmara e vínhamos da carrinha. E aquilo é um bocado hipnótico porque era muito tarde e não havia luz. Se não me engano aquilo foi no Algarve, em Lagoa, e eu achei a imagem incrível. Fazia-me lembrar muito o ambiente do David Lynch, de quem eu gosto muito, e então saquei da câmara porque achei que um dia podia querer usar essas imagens para alguma coisa. E quando surgiu o vídeo da «Coffee and Toast» eu tive vários problemas para enfrentar porque uma das coisas é a voz, que está muito presente e a canção é um bocado narrativa e eu não queria que o vídeo fosse narrativo. E eu não podia fugir muito a esta coisa de me ter presente no vídeo, então arranjei ali uma maneira de eu estar meio na sombra porque, ainda tinha muito pudor em dar a cara. Por isso ficou um vídeo um bocado mais conceptual por timidez também.

Mas é interessante, porque o de «For no Reason» acaba por ir na mesma linha estética.

Sim, mas no «For no Reason» já estou mais exposto e a minha ideia de pedir à Joana para fazer o vídeo foi mesmo para delegar o vídeo a alguém que não me desse a possibilidade de eu me esconder. Quando a Joana me sugeriu fazermos o vídeo no mar eu achei que a ideia fazia muito sentido. Não seria o vídeo que eu faria, e ainda bem, porque o «For no Reason» para mim é uma canção muito particular no disco porque tem uma história muito concreta para mim e se eu fosse fazer o vídeo, não sei se iria conseguir fugir a essa história. Podia trancar a canção no porquê dela existir. Por isso, quando a Joana me falou de o fazermos na praia estranhei, porque não sou propriamente um desportista, mas depois ela explicou-me melhor o que queria fazer e eu alinhei nisso, não lhe pus nenhum entrave. A única coisa que lhe disse foi que se fosse preciso cair na água ‘tava na boa, arranjei uma guitarra que já estava estragada. Há muita gente que quase me quer bater porque acham que eu destruí uma guitarra, mas aquela guitarra na verdade já não funcionava. Fiquei contente por ter essa confiança porque até aqui eu era muito desconfiado, por mim próprio, e por isso pôr nas mãos de outra pessoa ajuda-me a não ter medo.

Agora que está a começar esta carreira a solo pretende continuar o trabalho como produtor ou vai fazer uma pausa?

Não, continuo sempre. A questão do projeto Tomara para mim é uma coisa para o resto da vida, seja sob a forma de Tomara ou sob outra forma qualquer. Fazer música vai sempre fazer parte de mim e agora que desencalhei esta barreira de ter dúvidas, se conseguia ou não fazer, neste momento já estou mais seguro em relação a isso. Mas eu não abdico de maneira nenhuma do prazer que me dá tocar com a Márcia, produzir não sei. Por exemplo, a Márcia vai começar a trabalhar num disco novo e eu acho que vai ser ela a produzir porque, enquanto casal pode parecer idílico esta coisa de trabalharmos todos juntos, mas tem um lado perverso ou contraproducente que é, de repente estamos ambos envolvidos em qualquer coisa e depois em casa é difícil separar o trabalho da vida em casa com os filhos. Por isso, eu acho que desta vez, nos discos dela, vou preferir estar como instrumentista e ajudá-la a chegar onde ela quer, mas vou deixar que seja ela a produzir. Agora voltando um bocadinho atrás, uma das razões que me deu mesmo vontade de querer fazer o disco foi ter produzido o «Casulo» dela e temos sentido que, aquilo que eu depositei no disco dela enquanto produtor tinha muita vontade de querer criar também. É como se eu tivesse a usar as telas dela para pintar por cima do que ela tinha criado e isso depois cria um projeto um bocado misto em que não se define muito bem qual é o universo de cada um. Naquele disco faz sentido, chama-se “Casulo” porque foi um disco muito caseiro, entre mim e ela e tem muito a ver com o nascimento da nossa primeira filha. Agora com o projeto Tomara é mais fácil dividirmos as coisas. Cada um está feliz e realizado a fazer as suas coisas e quando colaboramos juntos já não há essa ânsia de descarregarmos criatividade.

E porquê o nome “Tomara”? Porque não Filipe C. Monteiro?

Filipe C. Monteiro nunca seria, nem Cunha Monteiro. P’ra já porque é o contribuinte e o gajo da segurança social… P’ra mim é mesmo cidadão. Eu acho que se misturar as duas coisas, na minha cabeça, é uma promiscuidade brutal. É um nome que eu estou habituado a ouvir não desta forma. E também porque é o nome com que eu me habituei a assinar os vídeos como realizador e na cabeça funciona um bocado assim: eu acabo por associar as palavras a determinados universos. E mesmo porque Filipe C. Monteiro nunca seria um nome sonante, também tem a ver com isso. Se eu tivesse um nome altamente sonante se calhar essa questão não se punha, mas desde o princípio que eu achei que queria dar um nome ao projeto que não propriamente o meu. Talvez por eu achar que a minha música não é uma música de cantautor em que se esteja focado na pessoa que canta como a Rita Redshoes ou a Márcia, ou Samuel Úria. São projetos de autor-cantor, mas porque está muito ligado à questão da voz e no meu disco eu acho que a voz não tem esse papel, porque eu não sou um cantor nem quero ser no sentido de explorar a minha voz. Acho que o veículo das minhas canções são sobretudo as instrumentações.

Sim, até porque algumas músicas são apenas instrumentais.

Exatamente. O disco começou por ser instrumental. Durante dois anos foi só instrumental. Foi sobretudo um refúgio que eu arranjei para não entrar em pânico a achar que estava a fazer um disco a solo. Pensei “vou fazer umas bandas sonoras, depois faço uns vídeos para estas bandas sonoras e faço assim um objeto misto”. Depois com o tempo foram aparecendo as canções e já não conseguia voltar atrás e tive que descobrir a minha voz e foi um processo um bocado demorado.

Mas bandas sonoras porquê? As músicas chegaram a fazer parte de algum filme…

Não, não. As coisas que eu mais gosto de fazer é instrumentais a imaginar que estou a musicar um filme, embora o filme não exista. E várias têm dito em relação ao disco que é muito cinematográfico e não há volta a dar. E por isso tenho vontade de agarrar nas coisas que fiz musicalmente e ir buscar imagens para elas. Provavelmente ao vivo, não sei se vou conseguir ceder à tentação de não ter vídeo porque faz sentido ter imagens no concerto a acompanhar as músicas.

E porquê o nome «Favourite Ghost»?

Em relação ao “Tomara” deixa-me só dizer que é uma das palavras que eu mais gosto na língua portuguesa e foi a Márcia que batizou o projeto. Foi ela que sugeriu o nome também por saber que eu gostava da palavra e por ser uma palavra que eu acho que me assenta bem no porquê de eu fazer música e no porquê deste disco. A palavra ‘tomara’ significa desejo, esperança em que alguma coisa aconteça. Que exista uma mudança qualquer para melhor e por isso eu sabia que era uma palavra com o qual eu iria conviver bem. Depois o nome do disco «Favourite Ghost» que acaba por ser o tema de uma das canções. Portanto, eu dei o nome ao disco a seguir à canção. O «Favourite Ghost» foi uma canção que eu fiz para a minha filha, a Carolina, não é uma canção de embalar embora eu cante para ela à noite para ela adormecer. Já há uns dois anos que ela me pede para cantar a canção e ela vai percebendo a letra, já lhe traduzi e não é uma letra fácil de explicar a uma criança de cinco anos, mas é aquela canção que eu fico contente de ter feito para ela e dá-me um certo prazer saber que daqui a quinze anos ela pode ir ouvir o disco do pai e saber que o pai teve a coragem de escrever uma canção, de a registar e que aquilo é p’ra ela. E são coisas muito caras as que eu digo. Uma parte é um recado para ela, outra parte é um recado para os dois. Eu relaciono o “favourite ghost” com os medos e com a forma como nós os encaramos. E eu acho que durante muito tempo houve alguns medos que eu tinha, que me definiram como pessoa durante muitos anos, que eu optei por não lhes dar muita atenção, nomeadamente esta necessidade de fazer música. Eu acreditei durante alguns anos que podia ser feliz só a tocar, sem compor e que isso era suficiente para eu ser feliz e não. Tive de vencer esse medo para conseguir gravar o disco e por isso eu chamo “Favourite Ghost” a esses medos porque a melhor forma de os combater é pacificar um bocadinho a relação que temos com eles e acarinhá-los, porque acho que é a maneira mais fácil de tu puderes conviver. Acho que é escolhermos o nosso medo favorito e ter algum carinho por ele porque ele é importante e se não olharmos para ele, ele fica cada vez maior e aí é mais complicado. E eu dou esse recado à minha filha porque assusta-me muito pensar que ela se vai dececionar. É das coisas que mais angústia me dá como pai é ter a certeza que ela vai passar por desilusões. Tu queres que o mundo seja perfeito mesmo sabendo que isso não seria bom… por isso eu gostava que ela tivesse força para não se magoar muito e percebi que isso podia dar o nome ao disco. Isso é o tema central do disco, de várias formas diferentes, mas fala muito sobre essa sublimação do medo.

E porquê compor em inglês?

O compor em inglês é mais comfortável para mim, não há outra razão. Se isto fosse à dez anos atrás eu dar-te-ia essa resposta “é mais comfortável, não quero saber do português e a raíz da minha música é mais americana e anglo-saxónica”. De 2011 para cá a minha casa encheu-se de música portuguesa: a Márcia ao meu lado, o Samuel Úria é meu padrinho de casamento, o Miguel Araújo de quem eu gosto muito, o António Zambujo que eu adoro, a Luísa Sobral que é nossa amiga, os Deolinda que me deram a conhecer a Márcia, eu conheci-a num concerto dos Deolinda… E não só por eles serem meus amigos, mas por serem pessoas que de repente reintroduziram a música portuguesa na minha geração. Portanto, eu hoje relaciono-me com a música portuguesa com orgulho e tenho um verdadeiro prazer em ouvir música em português que era coisa que eu não tinha. Tinha nos grandes ícones da música portugesa: o Sérgio Godinho, o Jorge Palma. Mas entre essas pessoas e os dias de hoje não houve muita gente que me cativasse a querer cantar em português. Quando eu comecei a fazer o disco essa questão pôs-se mesmo. Antes de eu começar a cantar as canções eu pensei em fazer um disco em português porque para mim até me fazia mais sentido porque eu acho que tu comunicas de uma maneira mais forte com as pessoas que te são próximas. E hoje em dia aquela ideia de fazeres um disco e ele ser ouvido no mundo inteiro, isso é muito bonito e a globalização ajuda a isso. Mas eu cada vez mais sinto que estamos no mundo mais quero estar em casa e com os meus e eu acho que a música em português tem essa capacidade de criar uma ligação muito mais forte com as pessoas que ouvem. Simplesmente, quando as canções apareceram, apareceram em inglês… frases soltas, palavras, melodias. Porque essa é a forma como eu estou habituado a relacionar-me com a música enquanto autor. Eu cheguei a pensar em pedir ao Samuel Úria, não para cantar uma música para mim, mas para escrever.

Porque ele também trabalha como compositor.

Exatamente. “Tens aqui a canção, fazes uma letra e depois cantas ou eu canto”. Mas de repente chegou uma altura em que era complicado porque, eu sou tímido e tinha muito receio que o Samuel aceitasse e ele chegou a dizer que sim, até. Mas eu na altura tive dificuldade em distinguir se aquilo era amizade ou vontade de participar no projeto. Porque eu sei que nenhum deles me diria que não, a quem que fosse que eu pedisse, porque eles são muito meus amigos e então acabei por ficar isolado desse processo. De repente, as músicas começaram a ganhar letras, eram coisas muito pessoais e eu percebi que estava a conseguir escrever coisas que me eram muito importantes e deixou de fazer sentido pedir a alguém para escrever, porque aquilo estava a ficar demasiado pessoal. As coisas foram progredindo e isso foi ficando fora do baralho, mas no futuro é uma coisa que eu não ponho fora de questão, nem pensar. A questão de colaborar com outras pessoas é como eu vejo o projeto, muito mais do que uma coisa solitária.

Mas deu-me a sensação que uma das músicas tinha uma voz feminina.

É a Márcia. O Gonçalo Frota no Ípsilon, no final da peça, ele descreve bem a entrada da Márcia no disco porque a entrada dela é mesmo muito discreta e foi de propósito. Eu podia perfeitamente assumir um dueto, mas presença dela não se deve à vontade de ter um convidado no disco. Ela canta numa canção que é muito importante para mim porque atravessa a fase antes do disco e depois, é uma canção com mais de dez anos. Ao princípio quando eu falava da canção era uma espécie de lamento por uma coisa que eu não tinha. Eu falo da casa que era uma coisa que eu desejava ter, uma pessoa ao meu lado com quem partilhar a minha vida e ter filhos e uma casa, que fosse confortável em todos os sentidos. E essa canção nasceu num momento de lamento porque a minha vida era um bocado solitária porque eu trabalhava muito e tinha pouco tempo para viver e quando eu estou a gravar o disco, passados dez anos, estou a gravar a mesma canção como se fosse uma canção de reconhecimento pelo que eu e a Márcia conseguimos ter juntos hoje em dia. Por isso é que eu a convidei para cantar comigo e acrescentei-lhe a segunda estrofe que não existia. E o Gonçalo Frota deduziu que eu cheguei aqui, mas que não foi sozinho e a Márcia tem um papel fundamental na existência deste trabalho. Por isso eu acho que a presença dela não tinha que ser escancarada, está justa.

E como é que define o género de música deste Favourite Ghost?

Ah… (risos) Eu odeio quando me pedem classificações.

Encontra-se um pouco na onda do folk e do indie…

Sim, sim. A raíz folk está presente, pelo menos neste disco, e eu acho que está muito presente em mim. Não que eu ouça exclusivamente folk, nem pensar. Eu ouço coisas muito diversificadas e gosto de coisas que não têm nada a ver com folk. Mas a verdade é quando me sento a tocar e a compor essa veia acaba por falar mais alto e por isso, eu acho que há uma corrente folk que atravessa o disco todo, não há exceções. Talvez o «For no Reason» seja a canção menos folk e mesmo assim se eu a tocar em acústica não fica muito distante. Mas mesmo o «Coffe and Toast» que tem algumas orquestrações… eu agora tive de fazer alguns acústicos e aquilo é uma música folk. Depois os arranjos levam-na para outro sítio e isso agrada-me: agarrar na matriz que me faz fazer música e depois explorar. Lá está, como arranjador. Eu continuo a sentir-me mais um produtor-arranjador do que propriamente um cantor. Eu acho que tem essa veia folk e indie, se quiseres, que o trespassa de uma ponta à outra, mas depois tem outras influências. Tem um ar frio que eu relaciono muito com o som da Islândia, da música que vem da Islândia desde os Sigur Rós à Björk, que são bandas que eu ouvia muito e alguma coisa ficou em relação aos ambientes, ao espaço. Tem mais a ver com isso, o espaço que a canção ocupa: as canções podem ter uma guitarra apenas, mas o espaço que a música ocupa é enorme. E isso traduz muito aquilo que eu sou enquanto autor. Quando eu faço música não me sinto especial, eu sou uma coisa muito pequenina que está ali no meio dela e do que eu estou a criar. Eu espero sempre que a música seja muito maior do que eu. E se calhar tenho essa tendência para gostar que a música tenha espaço à volta e o lado cinematográfico também, acaba por vir daí. As canções têm ambientes que às vezes têm mais a ver com sons ou com ecos, que te levam a espaços e daí levam-te às imagens.

Já há alguma data para o lançamento físico do albúm?

Foi dia 22. Só que o disco só pode ser encomendado através do meu bandcamp e já comecei a receber encomendas do disco, daqui a bocado tenho de ir aos correios para enviar alguns. Depois os discos hão de estar à venda nos concertos, o digital pode ser comprado em quase todo o lado, iTunes, Amazon, etc. Não sei se mais tarde haverá uma distribuição física em loja porque foi uma questão que eu não fui pensando muito. E como também é edição de autor eu faço o que eu quiser (risos) e isso dá-me algum prazer. Eu não tenho que pedir autorização a ninguém e gosto dessa liberdade, pelo menos nesta fase dá-me prazer. Depois em termos de apresentações ao vivo, já formei uma banda, tenho que ter amigos à volta e amigos que me vão ajudar não só a levar isto para palco, mas a ir para palco. Vai saber bem estar acompanhado e vou-me proteger um bocadinho desse pânico e desse medo em dar agora este passo, que também é difícil, que é passar o disco para o palco. Embora seja um sítio onde eu quero estar com este trabalho. Nunca me passou pela cabeça não tocar ao vivo, a menos que seja uma experiência mesmo horrível para mim e eu não consiga lidar com isso. Mas ainda não há datas marcadas. Quer dizer há uma, só que eu não posso dizer, porque é suposto ser segredo, mas daqui a uma ou duas semanas já vão começar a aparecer coisas. Eu não tenho muita pressa em ir para palco. Pode ser uma má estratégia porque lancei o disco agora e pode haver alguma curiosidade com o projeto e as pessoas se calhar gostariam de o confirmar ao vivo, mas não vou fazer isso porque iria implicar muita rapidez e eu não quero fazer isso. Levei cinco anos a fazer o disco, posso demorar dois meses a levá-lo para os palcos. Eu quero é chegar ao palco com a mesma segurança com que pus o disco à venda.



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