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A mirada que o MUBI escolheu para esta semana — e que vai ficar consigo durante dias

Uma menina de doze anos, uma epidemia sem nome e uma família que o deserto não consegue apagar: o vencedor de Cannes chegou ao streaming alternativo.

Em 1982, numa pequena vila mineira no deserto do norte do Chile, começa a circular o rumor de que um grupo de homens transmite uma doença misteriosa através do olhar. A Lidia tem doze anos e vive com a sua família — uma família escolhida, composta por homens que o resto da aldeia prefere ignorar. Diego Céspedes, em estreia nas longas-metragens, constrói com este material um dos filmes mais singulares e comovedores dos últimos anos. A Mirada Misteriosa do Flamingo (título original: La misteriosa mirada del flamenco) venceu o Grande Prémio do Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2025 e está disponível esta semana no MUBI Portugal — a plataforma de cinema de autor disponível em Portugal.

O que é A Mirada Misteriosa do Flamingo: a premissa

Estamos no Chile de Pinochet, numa época em que o medo tem muitas formas e muitos rostos. Numa vila perdida no deserto de Atacama, onde o pó cobre tudo e o sol bate sem piedade, um boato alastra: homens homossexuais estariam a transmitir uma doença letal através do simples acto de olhar. A doença não tem nome — ou antes, tem muitos, nenhum deles dito em voz alta. A Lidia, de doze anos, conhece esses homens de perto. São os seus vizinhos, os seus amigos, a sua família de coração. Quando a violência começa a aproximar-se, ela decide que alguém tem de procurar a verdade.

A premissa é, à partida, densa e politicamente carregada. Mas o que distingue o filme de Céspedes da crónica social convencional é o modo como recusa o didactismo. A Mirada Misteriosa do Flamingo não é um documentário sobre a crise da SIDA nem um manifesto sobre os direitos LGBTQ+. É, antes de tudo, o retrato de uma comunidade viva — com os seus rituais, as suas gargalhadas, os seus afectos exuberantes e a sua vulnerabilidade —, vista pelos olhos de uma criança que ainda não aprendeu a ter medo daquilo que a sociedade adulta teme.

A Mirada Misteriosa do Flamingo — cena do filme
A Mirada Misteriosa do Flamingo (2025), de Diego Céspedes. Disponível no MUBI Portugal a partir de 15 de Maio de 2026.

A linguagem e o estilo

Diego Céspedes opta por uma gramática visual que mistura o realismo documental da paisagem — o deserto de Atacama filmado com uma austeridade quase bressoniana — com momentos de realismo mágico que irrompem sem aviso e sem desculpa. O filme não explica quando a magia entra; simplesmente acontece, como acontece nas lendas que as crianças contam entre si. Esta oscilação deliberada entre o peso histórico e a leveza do conto é talvez a sua maior qualidade formal.

O ritmo é pausado mas nunca inerte. Céspedes filma os corpos com respeito e ternura — os gestos quotidianos da família queer que a Lidia frequenta têm um calor que contrasta violentamente com a frieza do exterior, seja o vento do deserto ou o olhar dos vizinhos. Há influências do western latinoamericano na forma como o espaço é filmado — a vastidão do deserto como palco de um confronto moral —, mas o filme recusa o género por inteiro e constrói a sua própria lógica narrativa e visual.

A Mirada Misteriosa do Flamingo — still oficial, deserto do Atacama
Still de produção de A Mirada Misteriosa do Flamingo (2025). Cortesia da distribuidora.

O que o filme tem a dizer

A alegoria da SIDA é explícita mas nunca redutora. Céspedes não precisa de nomear a doença para que a reconheçamos — e esse silêncio é em si mesmo um argumento político. Em 1982, nos anos mais sombrios da epidemia e sob uma ditadura que punha o conformismo acima de tudo o resto, o silêncio era uma forma de violência. O filme devolve voz e rosto àqueles que foram apagados.

Mas o que torna A Mirada Misteriosa do Flamingo verdadeiramente excepcional é o que diz sobre a resistência e sobre o amor. A comunidade que o filme retrata não é uma vítima passiva. Ri, dança, canta, briga, tem ciúmes e reconcilia-se. A Lidia aprende com eles não apenas a desobedecer ao medo, mas a perceber que a família não é uma questão de sangue. Neste sentido, o filme fala a uma geração inteira — e fala de algo que não caducou: a necessidade de nomear aquilo que nos querem fazer esquecer. A “mirada misteriosa” do título é tanto a do flamenco — ave de uma beleza improvável em paisagens hostis — como a do próprio preconceito: o olhar que mata sem provas.

Quem o fez e de onde vem

Diego Céspedes é um realizador chileno que chega à sua primeira longa-metragem depois de uma carreira em curtas e em trabalhos para a televisão. A Mirada Misteriosa do Flamingo é uma co-produção entre Chile, França, Bélgica, Espanha e Alemanha — um sinal claro do interesse internacional que o projecto gerou antes mesmo de chegar a Cannes. A estreia mundial aconteceu em Maio de 2025 na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, onde o filme conquistou o Grande Prémio da secção, a distinção mais importante atribuída a esse programa paralelo.

O elenco é liderado por Tamara Cortés, Matías Catalán e Paula Dinamarca, com Céspedes a trabalhar com actores não-profissionais ao lado de profissionais — e o resultado é uma naturalidade que raramente se consegue em filmes com este peso temático. No Rotten Tomatoes, o filme tem 95% de aprovação entre os críticos, com o consenso a salientar o “realismo mágico rico e personagens vividamente construídas” como instrumentos para explorar “a resistência queer, a família escolhida e o poder da empatia sobre o medo”. No Metacritic, a pontuação é de 75 em 100, com críticas genericamente favoráveis de publicações de referência como o Screen Daily, a Variety e o RogerEbert.com.

Vale as duas horas? (Pode esperar?)

Não pode. E a razão é simples: o MUBI funciona com uma lógica de disponibilidade limitada, e há filmes que desaparecem antes de lhes darmos a atenção devida. A Mirada Misteriosa do Flamingo tem 104 minutos e exige exactamente isso — atenção. Não é um filme para ver ao telefone nem para pôr a correr enquanto se janta. É o tipo de cinema que pede que o deixemos entrar.

O espectador ideal é alguém que aprecia o cinema de autor latinoamericano — de Lucrecia Martel a Jayro Bustamante —, que não tem medo de um ritmo que respira, e que se interessa tanto pela forma como pelo fundo. Mas é também um filme acessível a quem não seja habitualmente frequentador do cinema de festival: a história da Lidia tem uma clareza emocional e uma generosidade narrativa que não fecham a porta a ninguém. Está disponível no MUBI Portugal a partir de 15 de Maio de 2026 — esta semana.

A Mirada Misteriosa do Flamingo representa exactamente aquilo que o streaming alternativo tem de melhor: a possibilidade de aceder a um cinema que os circuitos comerciais ignorariam, num momento em que esse cinema ainda está vivo e em discussão. Diego Céspedes fez um filme sobre uma epidemia de há quarenta anos que fala directamente ao presente — sobre o medo do outro, sobre a perseguição das minorias, sobre a capacidade de uma comunidade resistir quando tudo à sua volta conspira para a apagar. O MUBI trouxe-o a Portugal esta semana. Não há desculpas para o deixar passar.



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