«A Providência e a Guitarra»: João Nicolau filma a teimosia de criar
O quarto filme do realizador português é uma comédia barroca e musicada sobre artistas errantes — e sobre o que significa recusar render-se ao mundo que os cerca.
Abriu o Festival Internacional de Cinema de Roterdão em janeiro de 2026 e regressou a casa com o prémio de Melhor Realizador no IndieLisboa. Chega agora às salas portuguesas A Providência e a Guitarra, o quarto longa-metragem de João Nicolau, um dos cineastas mais singulares da geração contemporânea portuguesa. Baseado numa história breve de Robert Louis Stevenson, o filme reúne Pedro Inês, Clara Riedenstein, Jenna Thiam e Américo Silva, além do músico Salvador Sobral, em estreia absoluta como ator de cinema. É uma obra sobre artistas, sobre a sobrevivência da arte, sobre aquilo que nos faz continuar. Estreia a 14 de maio, com sessões em Lisboa no Cinema Medeia Nimas, Cinema Ideal e Cinema Fernando Lopes.
O ponto de partida: artistas errantes num mundo ordenado de mais
León e Elvira Berthelini são dois artistas de variedades itinerantes que percorrem as estradas de uma França do século XIX a ganhar a vida como podem — com canções, representação e uma guitarra que nunca sai de cena. Em Covarronca, uma pequena vila enregelada, tentam obter autorização do comissário de polícia local para dar uma atuação. O comissário recusa. E recusa de novo. E o filme começa aqui, nesta fricção aparentemente banal entre a pulsão criativa e a burocracia do poder.
João Nicolau parte de um conto relativamente obscuro de Stevenson para construir qualquer coisa de muito mais ambicioso: uma reflexão sobre a condição do artista em qualquer época, disfarçada de comédia de costumes oitocentista. O cineasta já demonstrou, em filmes anteriores como Rapace (2013) e John From (2015), uma capacidade rara para transformar materiais literários ou genológicos em objetos completamente seus — cheios de música, de tempo suspenso, de uma leveza que esconde profundidade. A Providência e a Guitarra é, talvez, o filme em que essa operação é mais assumidamente declarada.
Numa noite de expulsão forçada, León e Elvira encontram Stubbs, um jovem estudante de Cambridge que anda à deriva, e encontram abrigo na casa de um pintor em conflito com a mulher. A hospitalidade é paga em moeda artística: com canções, com presença, com a certeza de que há algo no mundo que nenhuma autoridade consegue legislar completamente. Baseado livremente numa novela de Robert Louis Stevenson sobre o destino pícaro de dois músicos errantes, o argumento de João Nicolau e Mariana Ricardo adiciona uma dimensão temporal que transforma o conto numa estrutura mais complexa.
A linguagem do filme: o barroco como resistência
O que define imediatamente A Providência e a Guitarra é a sua textura formal — barroca, deliberada, construída com uma consciência estética que recusa qualquer naturalismo fácil. A fotografia organiza-se em quadros que parecem saídos de uma gravura; o ritmo é teatral, quase operático. Mas seria erro confundir artificialidade com frieza: o filme pulsa, e a sua musicalidade não está apenas nas canções originais que pontuam a narrativa com arranjos simples ditados pela presença constante da guitarra — está na própria linguagem, no modo como as falas se dobram e desdobram, na cadência que Nicolau impõe a cada cena.
O realizador opta por um dispositivo narrativo que duplica o tempo: o século XIX alterna com incursões contemporâneas onde os mesmos artistas — ou as suas encarnações modernas — lidam com seguros sociais, carreiras musicais e a precariedade de fazer música num mundo digitalizado. Esta dupla temporalidade não é apenas um efeito formal: é uma declaração de princípios. A luta de León e Elvira em Covarronca é a mesma de qualquer artista hoje. O inimigo mudou de rosto, mas a lógica é idêntica.
Alguns críticos internacionais — nomeadamente a publicação Screen Anarchy, que acompanhou a estreia em Roterdão — notaram que as passagens contemporâneas ficam aquém do vigor das cenas oitocentistas, como se o filme soubesse interrogar melhor o passado do que o presente. É uma observação justa, mas parcial: a tensão entre os dois planos temporais é, ela própria, produtiva. O que fica em suspenso também diz alguma coisa. O júri do IndieLisboa sublinhou precisamente a “construção narrativa audaciosa e distintiva” do filme ao atribuir o prémio de Melhor Realizador a Nicolau.
As personagens e o que carregam
Pedro Inês e Clara Riedenstein constroem León e Elvira não como um casal romântico convencional, mas como uma aliança — uma força de resistência com dois corpos. Há afeto, há cumplicidade, há o tipo de entendimento tácito que só existe entre pessoas que partilham há muito tempo não apenas a cama mas o projeto de uma vida. Riedenstein, em particular, traz ao filme uma presença física e vocal de rara precisão: a Elvira que ela habita é simultaneamente frágil e inabalável, capaz de dobrar sem partir.
Salvador Sobral — cujo nome no cartaz tem naturalmente atraído atenção — surge não como estrela convidada mas como elemento integrante do universo sonoro do filme. A sua presença é medida, contida, quase espectral; em cena, é mais instrumento do que personagem, o que é, no contexto desta obra, um elogio. Isac Graça, no papel de Stubbs, o jovem estudante inglês à deriva, oferece um contraponto cómico e melancólico que funciona como câmara de ressonância: o que fazemos quando não sabemos o que queremos?
Os restantes membros do elenco — Jenna Thiam, Américo Silva — habitam com naturalidade um mundo de convenções sociais que o filme trata com distância afectuosa, recusando tanto o pastiche condescendente como a reverência excessiva. É um conjunto que funciona como ensemble, sem estrelas a dominar, o que é em si mesmo uma escolha política.

O que o filme diz (e o que cala)
No coração de A Providência e a Guitarra está uma pergunta que o cinema raramente faz com esta candura: porque é que as pessoas continuam a fazer arte quando o mundo lhes diz que não? A resposta de Nicolau não é sentimental nem edificante — é mais próxima de um encolher de ombros iluminado, de um “porque não há outra coisa a fazer” que é, em si, uma afirmação radical.
O filme fala de resistência, mas recusa o heroísmo. León e Elvira não são mártires: são sobreviventes. Sabem ceder, sabem manobrar, sabem sorrir quando é preciso. A sua arte não os transcende — é simplesmente aquilo que são, aquilo que fazem, como outros respiram ou dormem. Esta desdramatização da vocação artística é uma das escolhas mais inteligentes do filme, e uma das que o distingue de tantas outras obras sobre o mesmo tema, de Todos Dizem I Love You de Woody Allen à trilogia Before de Richard Linklater.
O que o filme cala — e talvez aí resida a sua limitação mais honesta — é uma resposta clara ao presente. As cenas contemporâneas funcionam como espelho mas não como diagnóstico. Nicolau parece mais confortável a interrogar o passado do que a julgar o agora. Mas essa recusa de conclusão também é uma posição: nem sempre é possível, nem sempre é necessário, resolver o que está em aberto. No panorama do cinema independente e de autor que chega esta semana às estreias em Portugal, esta ambiguidade produtiva distingue o filme da maioria.
Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
A Providência e a Guitarra é, sem hesitação, cinema para quem não tem medo de se deixar levar por um ritmo diferente do habitual — de aceitar que um filme pode ser ao mesmo tempo leve e exigente, divertido e denso, popular e radicalmente autoral. É cinema para quem gosta de Éric Rohmer e de Jacques Rivette, mas também para quem aprecia um bom número musical sem ter de o justificar academicamente.
Para os que seguem o cinema português contemporâneo, trata-se de uma obra maior numa filmografia já consistente. Para quem descobre João Nicolau agora — talvez atraído pelo nome de Salvador Sobral —, é uma porta de entrada generosa para um universo que vale a pena explorar. Vencedor em Roterdão, premiado no IndieLisboa e distinguido no festival italiano de Bellaria, este é um filme que fez o percurso que os bons filmes fazem antes de chegarem às salas.
Em Lisboa, A Providência e a Guitarra está em exibição no Cinema Medeia Nimas — que terá também uma sessão especial a 20 de maio, às 19h00, com o realizador e os atores Pedro Inês e Clara Riedenstein, moderada pela atriz Catarina Wallenstein —, bem como no Cinema Ideal e no Cinema Fernando Lopes. No Porto, pode ser visto no Cinema Trindade. É o tipo de estreia para a qual vale a pena sair de casa numa quinta-feira de maio.
A Providência e a Guitarra é uma crítica de cinema independente que chega às salas em boa hora: num momento em que o mainstream cinematográfico se fecha cada vez mais sobre si próprio, este filme lembra que há outras formas de contar o mundo — e que essas formas continuam a ter lugar nas salas de cinema de autor de Lisboa e Porto.
João Nicolau filma a teimosia de criar. E nós, espectadores, ficamos-lhe gratos por isso.
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