«Fogo do Vento» e as memórias que um touro negro não consegue calar
A estreia de Marta Mateus é um gesto cinematográfico raro: um filme que prefere escutar o tempo a narrá-lo
Marta Mateus — realizadora formada em filosofia, teatro e música, deliberadamente não em cinema — apresenta a sua primeira longa-metragem nas salas portuguesas a 21 de maio de 2026, quase dois anos depois da estreia mundial no Festival de Locarno, onde concorreu ao Leopardo de Ouro. Fogo do Vento, rodado ao longo de quatro anos no Alentejo com atores não profissionais do concelho de Estremoz, chegou antes a Nova Iorque, Harvard, Buenos Aires e Seul do que ao público português. Distinguido pela The New Yorker como um dos vinte melhores filmes de 2025, premiado em Gijón, Atenas e nos Caminhos do Cinema Português, o filme estreia no Cinema Ideal e no Cinema Nimas, em Lisboa — os palcos certos para um objeto desta envergadura.
O ponto de partida: uma vindima e um touro negro
É tempo de vindima no Alentejo. Os trabalhadores colhem uvas sob um sol inclemente, movendo-se com o ritmo lento e preciso de quem faz este gesto há gerações. Soraia, uma jovem do grupo, corta-se — e o seu sangue mistura-se com o vinho que flui para os cestos. É este o momento inaugural de Fogo do Vento: uma ferida pequena, quase imperceptível, mas carregada de simbolismo. O corpo que sangra, a terra que bebe, o tempo que não distingue uns dos outros.
A irrupção do perigo vem de um touro negro que se solta e começa a vaguear pelos campos. Os trabalhadores refugiam-se nas copas dos sobreiros — árvores antigas, pacientes, que parecem ter estado ali desde sempre à espera desta função de abrigo. É nesse espaço suspenso, entre a ameaça abaixo e o céu acima, que o filme encontra o seu verdadeiro território: um lugar fora do tempo comum onde emergem histórias que a pressa do quotidiano costuma calar. Histórias de guerra e de ditadura, de exílio e de amor, da guerra colonial, do Estado Novo, da Primeira Guerra Mundial — um arquivo oral de memória coletiva portuguesa que Marta Mateus recolheu ao longo de quatro anos de rodagem.
O dispositivo é simples e rigoroso. O filme dura 72 minutos. Não há subterfúgios narrativos, não há dramaturgia convencional. Há uma comunidade em espera, e há o que essa espera produz: palavras, canções, memórias ditas em voz baixa como se fossem rezas ou segredos de família. Fogo do Vento parte de uma premissa que poderia ser a de um conto popular — a noite que revela o que o dia esconde — e transforma-a num ensaio cinematográfico sobre o modo como a história se inscreve nos corpos das pessoas comuns.

A linguagem do filme: pintura, escuta e tempo suspenso
Marta Mateus estudou filosofia, teatro e música antes de pegar numa câmara. Esta escolha — nunca estudar cinema para não deixar que ninguém lhe dissesse como devia fazê-lo — transparece em cada plano de Fogo do Vento. A câmara quase não se move. Os enquadramentos têm a composição ponderada de uma pintura: cada elemento no lugar certo, cada fonte de luz trabalhada com a paciência de quem sabe que a luz natural não espera por ninguém. A realizadora e o seu co-diretor de fotografia Vítor Carvalho voltaram repetidamente aos mesmos sítios ao longo de quatro anos, à procura de uma verdade em cada fotograma.
O ritmo do filme é o ritmo da tradição oral: lento, ritmado, quase cantado. As personagens falam como se as palavras tivessem peso físico, como se cada frase precisasse de ser colocada cuidadosamente no ar antes de poder ser recebida. Esta é uma escolha política tanto quanto estética: num mundo saturado de imagens instantâneas e narrativas aceleradas, Mateus propõe a lentidão como acto de resistência. O filme é montado por Claire Atherton — a mesma editora que trabalhou durante décadas com Chantal Akerman — e essa herança sente-se na precisão cirúrgica com que cada corte é posicionado, sem nunca interromper o fluxo meditativo da obra.
O resultado é um cinema que se parece mais com uma experiência sensorial do que com uma narrativa. Fogo do Vento não conta uma história no sentido convencional; cria uma atmosfera, um campo de ressonâncias onde o espectador é convidado a trazer a sua própria memória. É um cinema exigente, sim, mas também generoso — como só são os filmes que se fizeram com tempo e com verdade.

As personagens e o que carregam
O elenco de Fogo do Vento é composto maioritariamente por não atores: trabalhadores rurais do Alentejo, membros da comunidade cigana de Estremoz, familiares da própria realizadora. Entre eles paira a memória do bisavô de Marta Mateus, João de Encarnação, um jovem soldado da Primeira Guerra Mundial cuja presença atravessa o filme como uma sombra benigna. Não há personagens construídas à maneira dramática convencional; há pessoas que trazem consigo a espessura das suas vidas reais, e é precisamente essa espessura que o filme filma.
Soraia Prudêncio, a jovem que se corta no início, funciona como figura de passagem — não tanto protagonista quanto mediadora entre o mundo dos vivos e o arquivo dos que já lá estão. Maria Catarina Sapata, outra das figuras centrais, mostra fotografias da guerra colonial em África ao grupo reunido nas copas das árvores: imagens do passado que chegam ao presente com toda a sua carga de violência e luto. É um momento de cinema raro, em que a ficção e o documento se fundem sem que nenhum dos dois saia diminuído pelo encontro.
Muitos destes rostos já tinham aparecido em Farpões Baldios, curta-metragem anterior de Marta Mateus. Fogo do Vento é o seu alargamento: o mesmo universo, o mesmo método de trabalho baseado na confiança mútua e na paciência acumulada, mas agora com espaço para que as histórias se desenvolvam e se relacionem. O que emerge não é uma performance, mas uma partilha — e a diferença entre as duas coisas é, neste caso, tudo.
O que o filme diz (e o que cala)
Num momento em que as imagens de guerra inundam os ecrãs e as redes sociais — fragmentadas, descontextualizadas, usadas como munição retórica — Marta Mateus propõe um contra-movimento. Fogo do Vento é um filme sobre memória histórica que recusa a espetacularização da violência. As guerras estão presentes — a Grande Guerra, a ditadura de Salazar, a guerra colonial em África que marcou de forma irreversível a identidade portuguesa do século XX — mas surgem sempre mediadas pela voz humana, pelo corpo que viveu ou que herdou esse peso. A história aqui não é cenário; é substância que impregna a carne das personagens.
O filme foi co-produzido pela Clarão Companhia, fundada por Marta Mateus e Pedro Costa — o cineasta português cujo trabalho nas Fontainhas e em Cabo Verde redefiniu o que o cinema de autor português pode ser quando se trata de dar voz às margens. Essa herança é visível: em Fogo do Vento reconhecemos o mesmo compromisso ético com os sujeitos filmados, a mesma recusa de os transformar em objetos de curiosidade ou de compaixão condescendente. O filme filma-os como co-autores da sua própria história, e isso muda tudo na relação que estabelecemos com eles enquanto espectadores.
O título vem do elemento que atravessa o filme de ponta a ponta: o calor, a brasa, o vento quente que anuncia a vaga de calor do Alentejo no verão. Mas é também a metáfora que organiza a visão de Mateus sobre o cinema: um fogo que não se apaga porque é feito de memória coletiva e não de matéria consumsível. A realizadora quis pensar sobre como a imagem da guerra se tornou banal — e que o cinema tem de ser um agente de disrupção desse fluxo, aliado da humanidade que normalmente não nos preocupamos a olhar. Fogo do Vento é esse agente: silencioso, paciente e profundamente político.

Para quem é este filme — e onde vê-lo em Portugal
Seria desonesto fingir que Fogo do Vento é um filme para toda a gente. Exige disponibilidade: para o silêncio, para a lentidão, para um tipo de atenção que o cinema comercial contemporâneo raramente nos pede. Mas para quem se entregar à sua lógica, o filme oferece uma experiência que dificilmente se esquece — a sensação de ter estado presente num ritual, de ter ouvido vozes que normalmente o cinema não deixa falar, de ter percebido algo sobre o Alentejo e sobre Portugal que nenhum documentário de turismo alguma vez conseguirá transmitir.
Para o espectador que procura cinema independente e de autor internacional, esta é uma oportunidade única de ver em sala um objeto que já passou por Harvard e pelo New York Film Festival antes de chegar a Lisboa. Para o espectador português que ainda não o viu, é uma oportunidade de encontrar o país filmado de dentro, sem distância nem nostalgia folclorista, mas com toda a matéria áspera e luminosa que o Alentejo contém.
Em Lisboa, Fogo do Vento é uma das estreias Portugal desta semana mais relevantes para o circuito independente: o Cinema Ideal acolheu a sessão de estreia a 21 de maio às 21h00 com a realizadora e a equipa. O Cinema Nimas recebe sessões especiais a 24 de maio (com João Constâncio) e 27 de maio (com Anabela Mota Ribeiro, Safir Eizner e a realizadora). No Porto, o Cinema Trindade acolheu uma sessão a 22 de maio com Anabela Mota Ribeiro e o fotógrafo André Cepeda. Há ainda sessões em Évora, Sines e Coimbra ao longo de maio e junho — um circuito que é, em si mesmo, um ato de afirmação da cultura cinematográfica independente em Portugal.
Conclusão
Há filmes que chegam ao ecrã como objetos acabados e há filmes que chegam como processos vivos, ainda a respirar. Fogo do Vento é definitivamente do segundo tipo. Marta Mateus construiu ao longo de quatro anos algo que resiste à categorização fácil: não é exactamente um documentário, nem exactamente uma ficção, nem exactamente um ensaio — é as três coisas em simultâneo, ligadas pela terra vermelha do Alentejo e pelas vozes das pessoas que a habitam. Num momento em que o cinema mundial debate o peso do espetáculo contra a leveza da experiência, este Fogo do Vento aponta para uma terceira via: o cinema como escuta, como arquivo afetivo, como forma de estar no mundo que recusa a velocidade e aposta no tempo longo da memória. Que esta estreia nacional, tão tardia quanto necessária, encontre o público que merece.
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