Aferim!

Aferim!

Pode a ignorância ser um sistema crónico?

A Competição Internacional do IndieLisboa sabia desde o início que tinha aqui um forte candidato ao prémio e assim foi.

Aferim! (“Bravo!” em português) é um filme no qual somos conduzidos através da linguagem provocadora de Radu Jude até a uma Roménia do século XIX, mais concretamente até 1835. Num contexto que historicamente lembramos como marcadamente adverso, pautado por uma assumida e liberalizada escravidão que se fazia sentir numa Europa vazia de fronteiras, limites e territórios, encontramos Constandin (Teodor Corban) a quem, na companhia do seu filho, cabe a missão de capturar um escravo cigano em fuga.

Aqui tem início uma história que se constrói num tom fabulado que nos leva a atravessar um faroeste vestido em tons de preto e branco e que, através de uma estrutura simples e sem pretensões de maiores voos, vai cruzar tantos e tão diferentes povos, nações e culturas, numa viagem absolutamente primorosa pela excelente recriação história e direção artística que a pautam.  A utilização do preto e branco em tudo contribui para que assistamos a uma falsa uniformização da sociedade, seus lugares e personagens, que incessantemente se vê confrontada com uma sublime ironia impressa em todos os diálogos e situações que os acolhem.

Neste que é um filme onde nenhum detalhe parece ter sido deixado ao acaso, que nunca ouse o espetador duvidar que a crítica não está aqui para poupar ninguém. Se, por um lado, não temos nada por que nos orgulhar – muito menos rir – deste tema, a subtileza com que a narrativa nos vai roubando gargalhadas enquanto denuncia a nossa própria resignação face aos preconceitos absurdos da história de ontem e de hoje é de uma genialidade incrível. O humor é rei e senhor, mas nem por isso deixa de descortinar e evidenciar a crueldade e mesquinhez latente em todas as estruturas e hierarquias sociais, independentemente da complexidade da época histórica em que se inserem.

Depressa nos esquecemos que no início a história se apresentou como uma missão de resgate de um escravo e, em verdade, as gargalhadas que vamos soltando não mais são que de uma pura cumplicidade e consentimento diante de uma perversidade de um sistema ao qual, presumivelmente, não deveríamos ser impassíveis. Afinal, a ignorância pode bem ser um sintoma crónico e o espetador deixa-se rir de uma odisseia que, sem se aperceber, trespassou já história de uma ponta a outra: desde o séc. XIX aos dias de hoje.

“Vivemos como podemos, não como queremos”, ouviu-se num diálogo, e alguém na sala do cinema soltou uma gargalhada.



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