“Violência” | Slavoj Zizek

“Violência” | Slavoj Zizek

Diz-me como quem pensas e dir-te-ei quem és

Consideram-no iconoclasta. Sente-se confortável no papel de filósofo que aproxima a erudição académica à cultura popular, munido de um aguçado sentido de humor. É como se fosse uma espécie de estrela rock entre os ensaístas. Slavoj Zizek possui uma mente labiríntica que encontra múltiplas formas de se expressar, seja através da psicanálise ou do seu trabalho como crítico cultural. A sua influência ultrapassa as fronteiras eslovenas, embora continue a residir e a fazer grande parte da sua investigação em Liubliana.

Violência ” (Relógio d’Água, 2013) é um ensaio que carrega o peso da palavra-chave contida no título. Não tem outra escolha senão ser “à margem” face ao tema-monolito. É algo característico do académico esclarecido, saber que o universo não cabe em 200 páginas e, ainda assim, procurar mapeá-lo.

A tónica de “Violência” é ditada por uma musicalidade que ilumina o leitor: se em adagio ma non tropo e molto espressivo vemos exposta a dualidade hipócrita dos “novos comunistas liberais” que encabeçam as grandes empresas de Silicon Valley, em andamento presto temos uma abordagem à disputa israelo-palestiniana, suportada pelo primitivo direito histórico («estamos perante um falso conflito, de um conflito que tolda e mistifica a verdadeira linha da frente»).

Zizek não procura subverter Marx. Trata-se de um confronto entre a democratização global, onde se cria a ilusão de autonomia individual e a utopia pós-marxista de um uniformizar da condição do ser social. Daí que não passem impunes as discrepâncias que cria o capitalismo selvagem da nossa era (somos os 99%). Porém, em “Violência”, presenciamos um esforço intelectual de teorização e desconstrução da ideologia, não se tratando apenas de uma série de elogios à esquerda e um menosprezar óbvio da direita.

Consideremos tudo, não só as aparências benévolas do capitalismo, nem somente o mais sangrento motim alimentado por ódio racial. Nem o simbólico amor se escapa às manifestações de violência. O que nos resta é incerto: até o «não fazer nada é a coisa mais violenta que temos a fazer».



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