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VODAFONE PAREDES DE COURA 2017 (parte I)

Após alguns dias de aquecimento com uma série de concertos no centro da vila, havia chegado o dia de inaugurar o mítico recinto do festival minhoto, num dia que servia também de warm-up apenas com concertos no palco principal, baptizado com o nome do principal patrocinador do evento.
A abertura das hostilidades esteve a cargo da Escola de Rock local, uma aposta forte do município de Paredes de Coura, dirigido pelo Space Ensemble, que brindou os presentes com um rico naipe de versões de bandas que contribuíram para a história deste festival, como Arcade Fire, dEUS, Mötorhead ou PJ Harvey. Com cinco baterias em palco, um maior número de guitarras e um sem fim de gente a cantar em coro, a Escola de Rock mostrou o bom trabalho que executa e terá arrebatado mais umas dezenas de potenciais utentes que aproveitarão a excelente oportunidade que a entidade proporciona a quem sonhou ser músico ou aprender um instrumento.

Seguiam-se no cartaz The Wedding Present, que vieram interpretar na íntegra o disco com que iniciaram a sua carreira, “George Best”, que celebrará em Outubro 30 anos de existência. A banda de Leeds tinha lançado o mote durante um concerto surpresa a meio da tarde, executado no topo dos balneários da Praia Fluvial do Taboão, refrescando musicalmente os banhistas durante a hora de maior calor. No palco principal, além dos temas do referido álbum, tocaram ainda «Kennedy» retirado do trabalho “Bizarro”, sempre fiéis ao seu estilo de jangle rock, transbordando energia, ritmo e maturidade. Concerto extremamente sólido e agradável.

Quem pisou o palco para homenagear um disco inteiro foram os Mão Morta, que vieram com a intenção de representar uma mancha (no bom sentido) no cartaz do festival. Mais que mancha, diríamos mais um soco no estômago. Notou-se que o público maioritariamente pueril não estava muito preparado para as canções de “Mutantes S21”, a obra que esteve em destaque nesta actuação e que o agrupamento bracarense embandeirará pelo resto do país nos próximos tempos. E assim fomos viajando pela mão de temas como «Istambul», «Berlim», «Lisboa» ou o incontornável «Budapeste», que foram indubitavelmente enriquecidos com as ilustrações de João Martins Moura, que foram sendo projectadas em palco. Além dos temas do referido álbum, os Mão Morta trouxeram ainda para o alinhamento temas doutros trabalhos como «Até Cair», «Velocidade Escaldante» e «Bófia», com que culminaram o concerto. E, como homem da casa, Adolfo Luxúria Canibal não deixou de congratular o Festival Paredes de Coura pelo 25.º aniversário, entoando em conjunto com o público os merecidos parabéns.

Os Beak> eram os senhores que se seguiam, apresentado o seu tradicional formato de bateria, baixo e teclas/guitarra. O trio encabeçado por Geoff Barrow apresentou um registo extremamente interessante, sempre num tom lo-fi, onde destacamos precisamente os ritmos executados pelo famoso fundador dos gloriosos Portishead, que neste projecto se ocupa da percussão. Geoff que fundou igualmente a editora resposável pelos lançamentos dos Beak>, a Invada Records. As vocalizações, bastantes vezes alvo de efeitos especiais, vão sendo repartidas entre Geoff e Billy Fuller, também conhecido pelo seu trabalho como baixista de Robert Plant. A banda não deixou de registar o concerto em foto dado ter sido provavelmente a plateia mais vasta para quem tocaram. A mãe de Geoff Barrow terá ficado certamente babada.

Após o sucesso do disco “Singles” por todo o lado, não sendo Portugal excepção, estava na hora dos Future Islands trazerem até nós o sucessor “The Far Field”, que chegou aos escaparates no mês de Abril. A actuação abriu precisamente com a primeira amostra do novo disco, o poderoso «Ran», que ainda bebe na fórmula mágica que a banda de Baltimore desecantou para o álbum anterior e que funciona comprovadamente bem. A primeira parte do alinhamento seguiu a mesma bitola, até que na última metade do concerto os Future Islands desembrulharam as novas tendências que exploram em “The Far Field”, que soam igualmente interessantes, embora talvez não tão poderosas, mas que são úteis para que o público não enjoe a marca registada em “Singles”. Escusado será mencionar que Sam Herring continua o portentoso líder a que já nos habituou.

E, dado que a noite de abertura parecida destinada a debruçar-se sobre álbuns específicos, tocados por inteiro, Kate Tempest pareceu não querer fugir à regra e interpretou de gole, de uma ponta à outra, o seu estrondoso “Let Them Eat Chaos”. E faz todo o sentido que assim seja, visto que a obra editada no Outono passado foi concebido como uma narrativa urbana dos tempos actuais, e cuja mensagem sairia lesada caso fosse fragmentada ao longo do alinhamento. Manifestando-se entre o spoken word e o rap, foram debitadas as histórias das sete personagens imaginadas pela autora, que espelham e misturam todas interrogações e nuvens negras que pairam sobre a sociedade quotidiana. E não deixou de ser curiosa a dicotomia entre uma sessão de poesia urbana feita numa zona rural. No final desta poderosa actuação foi fácil encontrar diversas pessoas que não eram propriamente fãs de rap maravilhados com a prestação da poetisa londrina. Claramente um marco nesta edição do Vodafone Paredes de Coura.

Na Quinta-feira, dia 17, era o dia em que o festival tinha o primeiro dia realmente em cheio, já com ambos os palcos em ebulição, incluindo os after-hours. A abrir o dia e, consequentemente, a estrear o palco Vodafone.fm estiveram os Sunflower Bean, que fizeram girar nessa direcção quem já se encontrava pelo recinto. O trio nova-iorquino apresentou algumas canções novas, a maioria no seu registo clássico de rock pungente q.b., onde pontifica a voz sempre firme de Julia Cumming, mesmo quando o registo varia.

Depois da passagem pelo palco secundário, os You Can’t Win, Charlie Brown foram promovidos ao palco principal, seis anos volvidos. Lograram assim cumprir o sonho que alimentaram desde os 15 anos, altura em que frequentaram Paredes de Coura na condição de festivaleiros. Dado termos o prazer de rever regularmente este supergrupo, não há muito mais a dizer acerca da insuspeita qualidade que sempre debitam, por isso aproveitamos esta ocasião para sublinhar o excelso trabalho de bateria de Tomás Sousa, que ainda por cima nunca perde uma oportunidade para participar nas segundas vozes. Irrepreensíveis.

Rumando de volta ao palco Vodafone.FM assistimos à prestação dos Nothing, que já tinha estado em acção na sessão surpresa do dia, que desta feita decorreu em plena zona de campismo do festival. O quarteto de Filadélfia navega pelas águas do college rock, post-grunge e até do shoegaze, sem que no entanto atinja grande qualidade em qualquer uma delas. A postura e a sonoridade que retemos no final é de uma qualquer banda de garagem, que não acrescenta nada de novo, nem tão pouco soa propriamente agradável.

E foi precisamente tudo o contrário que presenciaríamos no palco Vodafone logo em seguida. Os Car Seat Headrest eram uma das bandas mais aguardadas do cartaz, após terem assinado uma performance super badalada no Porto Primavera Sound do ano transacto. Willy Toledo e seus muchachos apresentam toda uma palete de sabores indie-rock de primeira água, conseguindo soar sempre refrescante sem cair em clichés, baralhando e voltando a dar matérias dadas. «Maud Gone» soa a um magnífico exercício de trip-rock, revisitam-se os blues reproduzindo «I Don’t Mind» de James Brown (no único momento em que Willy e a guitarra se separam) e redefine-se o punk em «Unforgiving Girl», enquanto cimentam-se como grandes hinos «Drunk Drivers/Killer Whales» ou «Vincent», com que abriram a prestação. Um concerto para a galeria dos melhores deste ano, algo que até era expectável à partida.

No palco secundário tocavam já os Timber Timbre, como que tentando trazer alguma maturidade ao segundo dia do festival, dado que em seguida o palco Vodafone traria outro jovem compositor como King Krule. O quarteto canadiano parece elaborar bandas-sonoras para saloons frequentados por cowboys pseudo-intelectuais, onde se dançam valsas vagarosas. Com disco novo na bagagem, os Timber Timbre abriram o concerto precisamente com o tema-título «Sincerely, Future Pollution», não deixando obviamente de fora temas como «Hot Dreams». Uma prestação com bastante nível a pedir um regresso em sala pequena.

O cabeça de cartaz deste segundo dia em Paredes de Coura era Nick Murphy, que tenta neste momento dar um novo rumo à sua carreira após os tempos iniciais sob a designação de Chet Faker. O início do concerto apresentou um teor marcadamente electro, patenteado por exemplo pela nova roupagem atribuída a «Gold». A participação do guitarrista Marcus Marr coincidiu com a fracção mais desinteressante da noite, com «The Trouble With Us» a remeter-nos para alguns nomes que actualmente preenchem o evento musical que decorre anualmente na Zambujeira do Mar. Sensivelmente a meio do concerto, Nick Murphy muda de paradigma e traz-nos temas do recente EP “Missing Link”, a sua primeira edição em nome próprio, que no entanto não soaram tão bem em palco como na versão de estúdio. Até ao final destacam-se os momentos Chet Fakerianos, numa boa interpretação de «Talk is Cheap» enriquecida com saxofone e, no momento mágico que foi a versão curta, apenas ao piano de «Stop me (Stop You)», com que cerrou a sua presença. Foi uma prestação meio mutante de Nick Murphy, algo justificável dado o momento da carreira do música australiano, que necessita de afagar a barba e pensar na direcção a seguir, essencialmente na vertente ao vivo.



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