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Woundscapes

Exposição que inaugurou a 11 de Maio, no Pavilhão Preto do Museu da Cidade de Lisboa, e que poderá ser visitada até 8 de Julho

De segunda a sexta-feira, durante 5 anos, o Campo Grande fez parte do meu quotidiano. Conhecia o jardim, os cafés, universidades, reprografias e o museu da Cidade fazia parte deste meu universo “de campo”. Regressei a este espaço/tempo da minha vida. Na realidade, e por troca de datas, na semana anterior também lá estive. Foi delicioso passear-me no meio do arvoredo, fazer a alameda dos bustos delicadamente trabalhados, dar a volta ao lago das tartarugas, descobrir pavões no meio da vegetação como se fossem parte integrante da mesma, sentir a brisa que, em dias de 30º, ao sol, corre fresca à sombra, enquanto se ouvem curiosos sons que as aves de cauda extravagante produzem. O Pavilhão Preto do Museu da Cidade.

Woundscapes é o resultado de uma investigação antropológica promovida pelo CRIA – Centro em Rede de Investigação em Antropologia, que abdica de uma linguagem académica e se dirige a nós sob a forma de exposição artística dividida em cinco secções: Naked body, bare life [Corpos despidos, vida nua]; Healing Market [Mercado da cura]; Umbanda and Candomblé [Umbanda e Candomblé]; Refugees [Refugiados]; Creativity Happens at the Margins [Criatividade nas Margens].

Letícia Barreto, alegre, clandestina, comunicativa, criativa, elegante, empreendedora, extrovertida, flavelada, ilegal, linda, latina, imigrante, é uma brasileira em Portugal. O misto de emoções que vive, ligadas ao percurso migratório e à marginalidade social a que está sujeita, é aqui representado brilhantemente. A forma como joga com metáforas para traduzir estereótipos e nos coloca, a nós espectadores, na pele do imigrante, através de um espelho e uma palavra, é extremamente interessante. Estimulante é também o trabalho de Ângela Alegria e Vítor Barros. A primeira utiliza o seu corpo como biocartografia. A auto-inscrição como meio de aflorar, marca que na realidade sempre pertenceram à história do corpo.

 

Vítor Barros, por seu lado, revela-nos diferentes pessoas, relatos muito concretos, reais ou imaginados, onde a patologia incentiva o percurso individual que nos remonta para uma trajectória de “exclusão e integração”, onde a lógica deverá ser a da eficácia independentemente da sua coerência. Assim, inicia-se o percurso pelo mercado da cura, Umbanda e Candomblé, onde o branco é dominante, o mar e arranjos florais. Em oposição, um enorme mural recheado de signos e símbolos aos quais associamos diferentes culturas e religiões.

Extraordinária é também a criatividade com que as pessoas aqui evocadas lidam com dificuldades e possibilidades limitadas, vivem a cidade, o local onde se inserem e inspiram. GHETO SIX, trabalho desenvolvido por Lorenzo Bornaro na Amadora, é exemplo disso. O artista recolhe diversos materiais pertencentes ao bairro em estudo e, de forma colorida, explora os mesmo recorrendo a técnicas de stencil passando uma mensagem forte e crítica face à sociedade civil.

 

Do mesmo artista ainda temos “A Rua”, projecto fotográfico desenvolvido na ilha do Mindelo, Cabo Verde. Uma série de fotografias que exibe miúdos de dez anos que escolheram a rua como endereço postal e deixaram as famílias e um tecto por uma vida livre de horários e obrigações. Tiradas pelos próprios meninos, as imagens revelam-nos o mundo deles. É algo muito simples e puro.

Chiara Pusseti, Coordenadora Científica do projecto, revelou-nos que a própria já se enamorou de todos os trabalhos expostos. E eu, de uma forma bastante distinta, partilho a sensação. Venha visitar a exposição que estará até dia oito de Julho de 2012 no Pavilhão Preto do Museu da Cidade de Lisboa.



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