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Camera Obscura – Lisboa Menina e Moça

Como trazer a cidade que se avista da janela para dentro do quarto? Ou da sala? Lisa Moura propõe uma resposta

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Isto acontece pegando nos fundamentos da fotografia ou, mais especificamente, o princípio da Camera Obscura (cujo nome baptiza o projecto), “uma técnica de óptica que consiste no encerramento de todas as fontes de luz em espaços e da consequente projecção dos elementos exteriores nas suas paredes”, nas palavras da própria Lisa Moura. A partir do nascimento da ideia, em Abril de 2011, Lisa tem andado a visitar casas (particulares e não só) por Lisboa e projectando nas paredes o que se vê pela janela. Todo este processo (cerca de 22 experiências) foi documentado em fotografias, cuja selecção se encontra agora em exibição no Museu da Cidade.

A Rua de Baixo esteve à conversa com a Lisa.

Esta história da “camera obscura” é um pouco voltar às origens da fotografia, com o respectivo invólucro. Ao passear pelas fotos fica o desejo de estar dentro destes ambientes representados, de onde só restam as tuas imagens. Considerarias a possibilidade de trazer o espectador para dentro deles, isto é, de reproduzir a experiência in loco e fora das fotos?

Sem dúvida! Aliás, toda a ideia de me convidar para casa das pessoas serviu precisamente para mostrar a “experiência Camera Obscura” ao vivo e a cores! Digamos que era a minha forma de retribuir o convite e a oportunidade de “ver mais”!

No contexto de exposição isso já não é assim tão fácil…

Isto porque, apesar do sistema ser extremamente simples, a exposição permanente da experiência ao vivo implicaria outro tipo de exigências estruturais que dependeriam muito do espaço, da vista disponível, sem contar com as questões lumínicas (horas do dia, etc.) mais difíceis de controlar.

 

 Fotografia de Amanda Baeza.

Ainda que não nos seja possível vislumbrar esta experiência a acontecer na exposição, é possível observar um conjunto de pequenas caixas que reproduzem, em escala menor, o efeito.

Após a experimentação de Lisboa, ponderas prolongar a técnica (se é que ainda não o fizeste) a outros locais, ou consideras que esta série encerrou, de alguma forma, a potencialidade deste formato?

Eu acho que a potencialidade deste formato é praticamente inesgotável… Basta uma pessoa pensar que o conhecimento da camera obscura é já milenar e que mesmo assim desperta ainda imensa surpresa e espanto.

Eu já tenho planos para o próximo passo (ainda não o revelo, por ser algo ainda muito na base de ideias embrionárias), mas acho que o desafio está mesmo na abordagem que se faz partindo desta técnica.

No meu caso, a minha abordagem tem sido muito o potencial de “socialização” da Camera Obscura, isto é, o facto de ir a casa das pessoas depois de estas me convidarem, de lhes poder mostrar ao vivo e ver as suas reacções face ao fenómeno a que estão a assistir é absolutamente compensador e fantástico. E depois, somando a isso, poder retribuir-lhes ainda com as fotos que tiro da experiência e conseguir mais uma vez provocar essas reacções de espanto e satisfação é algo que me fascina inesgotavelmente.

Nesta fase da “Lisboa, Menina e Moça” o desafio era na mesma medida social, pois encarei Lisboa igualmente como uma pessoa: uma pessoa, quer pela sua fisionomia (ruas, vistas, etc.), quer pela sua personalidade (pessoas que nela vivem ou que dela fazem parte).

 

Enquanto visão social, o projecto acaba por servir várias vertentes: também e muito especialmente a fotografia.

A fotografia surge primeiro enquanto documentação deste projecto ou surge por si própria?

Admito que não sei bem… Julgo que neste caso a fotografia surge naturalmente porque me é algo muito próprio.

Costumo dizer que não sou fotógrafa, mas sou inegavelmente uma apaixonada por fotografia.

Possivelmente, se fosse uma pessoa mais ligada à ilustração, teria depois um “resultado final” destas experiências completamente diferente, mas no meu caso, o facto de tirar as fotos às experiências nunca foi algo sobre o qual sequer me questionei: fotografava e pronto!

Entretanto julgo que as fotos ganharam relevância por si próprias…

Vou atentando a reacção de pessoas que ainda não tiveram a oportunidade de ver a Camera Obscura ao vivo e que atribuem algum mérito às fotos por si só. São situações curiosas e no meu caso absolutamente imprevisíveis. Acho que a vantagem da visibilidade que o projecto foi tendo é precisamente esse contacto directo com as pessoas e da necessidade intrínseca destas se manifestarem em relação ao projecto.

 

 

As fotografias apresentam um jogo constante entre o invertido e o direito. Não seria de suspeitar que a fotografia mais direita tenha, na verdade, sido tirada “de pernas para o ar”. Existe intencionalidade nessa contradição ou “cada um vê o que quer ver”?

Sim, realmente há um jogo constante entre o invertido e o direito, mas não considero este jogo contraditório entre si. Isto porque eles vivem em simultâneo e nem por isso colocam em questão um em relação ao outro.

É a tal coisa, as fotografias são todas fruto de alguma espontaneidade e intuição da minha parte e como tal não tenho adoptado um critério rigoroso na sua selecção nem na sua “apresentação invertida ou direita”. É claro que não o faço ao acaso, mas no fundo trata-se um pouco daquela primeira reacção à fotografia e igualmente ao laço afectivo que com ela estabeleci.

E por isso também acho importante as pessoas atentarem, não só à parede na qual as fotos estão expostas, como também à publicação onde estas estão impressas, pois esta já permite esse jogo directo de rodar imagem para um lado e para o outro da forma que acharem melhor para a compreenderem. Nesse sentido, cada um tem a oportunidade de “ver o que quer ver”, tendo sempre em atenção a forma inicial não impositiva e categórica de como eu vejo.

 

 

À luz da arrastada situação política actual (e em particular, a mutação do ministério da Cultura em secretariado), terás considerações a fazer face às possibilidades de crescimento artistíco no nosso País?

Bem, esta questão é complicada. Isto porque não me considero afectada enquanto “artista”, porque não me considero como tal, mas como apreciadora de cultura.

Creio que, no fundo, a cultura e a arte são expressões independentes e autónomas capazes de florescer, obviamente de diferentes formas, em qualquer circunstância política, económica ou financeira.

No entanto, julgo que estes factores contextuais influem sobretudo na sua comunicação ao “público”. Isto porque julgo que a arte não se deverá sentir debilitada no seu florescimento pelos eventuais cortes orçamentais, mas sim na sua transmissão ao público que não possui as estruturas para dela usufruir.

Um artista será sempre um artista e o impulso criativo nunca lhe é “cortado”, mas um artista não vive sem público e se a este lhe é cortada a estabilidade financeira e as estruturas de acesso à arte, então encontramo-nos realmente perante uma situação inglória…

 

Para ver no Museu da Cidade (ao Campo Grande) até 31 de Outubro



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