“Um dia na vida de Ivan Denissovítch” | Aleksandr Soljenítsin

“Um dia na vida de Ivan Denissovítch” | Aleksandr Soljenítsin

A história de um dia feliz numa vida miserável

Em 1962, uma janela de esperança parecia abrir-se timidamente na União Soviética. Após um parecer oficial de Nikita Kruschev, era publicado na União Soviética o primeiro romance onde a narrativa se situava num campo de prisioneiros políticos – um Gulak -, ilustrando a terrível repressão estalinista.

“Um dia na vida de Ivan Denissovítch” até nem seria grande novidade na altura. Dostoievski, por exemplo, havia retratado em “Recordações da Casa dos Mortos” alguns dos temas que habitam o livro de Aleksandr Soljenitsin: a injustiça das condenações, a crueldade, a fome, a luta pela sobrevivência. O que teria então este livro para iniciar o trilho que conduziu Soljenitsin ao Prémio Nobel?

Ivan Denissovítch Chúkov, a personagem central, é um simples camponês, avesso a qualquer espírito revolucionário. O seu “crime” foi o de escapar da prisão alemã e regressar à frente russa, que lhe valeu a acusação de espionagem. Recusar a acusação resultaria em morte, mesmo que os actos de espionagem nunca tivessem sido concretizados.

No campo impera a lei da selva, que começa mesmo antes de o sol se levantar. Entre outros, Denissovítch tem como companheiros um capitão da marinha soviético – preso por receber uma prenda de um congénere britânico -, um crente baptista – preso por ser baptista – e até um espião verdadeiro – um moldavo que trabalhou para os alemães. Impera o engano, a batota, mas sempre dentro das bem estabelecidas regras do jogo. Quem não as respeitar mata qualquer hipótese de sobrevivência num mundo onde, viver um dia mais, ganha o alcance de uma grande conquista.

Aleksandr Soljenítsin conta-nos a história de um dia feliz numa vida miserável. Porém, quando a felicidade máxima se resume a conseguir um prato extra de sopa aguada ao jantar, descobrir um pedaço de metal que se pode transformar numa pequena faca ou comprar um pouco de tabaco, dá-se a transmutação da narrativa da voz da personagem para a cabeça do leitor. Para Ivan, esta é uma história com final feliz, podendo adormecer com um sorriso nos lábios; para o leitor, trata-se de abraçar a insónia e penetrar no lado gelado da imaginação.

Nota (retirada do livro):

A figura de Ivan Deníssovitch foi composta a partir do soldado Chúkov, um companheiro de combate do autor na guerra soviético-alemã (mas que não esteve nos campos), e enriquecida com a experiência dos prisioneiros e do próprio autor quando trabalhou como pedreiro no campo especial. Todas as outras personagens são reais, recolhidas da vida no campo, e as suas biografias são autênticas.



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