“O ATENTADO” – ZIAD DOUERI

O Atentado

Crença, a mais perigosa convicção da verdade

 “O menino tem doze anos e um coração de porcelana. Nessa idade de todas as paixões, simplesmente porque a confiança é tão grande quanto suas alegrias, pensava poder tocar a Lua, como se estivesse bem ao alcance de sua mão, certo de que bastava querer para colher toda a felicidade do mundo… E agora, ali sob meus olhos, apesar do drama que acabava de enxovalhar para sempre a lembrança desse dia, apesar dos corpos agonizando na calçada e das chamas que terminam de devorar o carro do sheik, o menino dá um salto e, os braços abertos como as asas de um gavião, lança-se através dos campos onde cada árvore é uma festa feérica… Lágrimas me atravessam a face… “Quem te disse que homem não chora não sabe o que é um homem”, confiou-me um dia meu pai, surpreendendo-me desfeito no velório do patriarca. “Não há vergonha nenhuma em chorar, meu filho. As lágrimas são o que temos de mais nobre.” Eu não queria largar a mão do avô, e meu pai ajoelhou-se à minha frente e tomou-me nos braços.

Não serve de nada ficar aqui. Os mortos estão mortos e se foram, em algum lugar purgaram suas penas. E os vivos são só fantasmas esperando sua vez… Dois maqueiros me suspendem e me atiram para uma maca. Uma ambulância chega em marcha atrás, as portas bem abertas. Braços me lançam no interior da cabine, me atiram, quase, entre outros cadáveres. Em um último sobressalto, escuto a mim mesmo num soluço… Meu Deus, se isso for um horrível pesadelo, faça com que eu desperte, já…”

O Atentado, Yasmina Khadra.

 

Yasmina Khadra é o pseudónimo do escritor argelino, Mohamed Moulessehoul, o criador desta história acerca de crenças e convicções, que após deslizar no papel pela sua pena poética e acutilante, chega agora ao cinema pela mão de Ziad Doueiri, realizador e escritor libanês já premiado com a sua obra “West Beirut” e antigo “cúmplice no crime” de Quentin Tarantino em filmes tão emblemáticos como: Pulp Fiction, Reservoir Dogs e Jackie Brown, entre outros.

Amin Jaafari (Ali Suliman), é um brilhante cirurgião nascido na Cisjordânia, que vive e trabalha em Tel Aviv com a sua também árabe mulher, Siham (Reymonde Amsellem).

Amin e Siham, são um casal extremamente bem integrado na sociedade israelita, que apesar das suas raízes palestinianas, contam com muitos amigos judeus; entre eles, membros da Agência de Segurança Nacional de Israel, o Shin Bet.

Quando a história começa, Amin está a ser agraciado com um prémio – nunca antes entregue a um não judeu – pelos seus esforços enquanto clínico de excepção.

No seu discurso de aceitação, Amin profere uma frase de inegável bom senso, que no entanto é constantemente esquecida por praticamente todas as personagens, ao longo desta história: “ Todos os judeus têm algo de árabe e nenhum árabe poderá negar que possui alguma coisa de judeu”.

No dia seguinte Amin está a trabalhar no hospital, quando se dá uma explosão extremamente violenta no centro de Tel Aviv. De imediato começam a chegar ao hospital vítimas do que aparentemente terá sido um ataque terrorista a um restaurante, as vítimas são na maioria crianças…

"O ATENTADO" -  ZIAD DOUERI

Após salvar algumas vidas e ver com tristeza partir outras tantas, Amin regressa cansado à sua casa, preparando-se para uma noite solitária, uma vez que Siham foi visitar parentes em Nazaré. No entanto e para sua surpresa encontra Adel (Karim Saleh), seu sobrinho, que veio buscar alguns pertences à casa do tio.

Feliz com a sua presença, Amin convida Adel para ficar consigo essa noite, Adel declina e segue caminho para Nablus. Amin vai-se deitar.

A meio da noite o seu telefone toca. Do outro lado da linha, o seu amigo e agente do Shin Bet, Raveed (Dvir Benedek), pede-lhe que regresse ao hospital assim que puder.

Minutos depois, Amin chega ao hospital pronto para lidar com qualquer urgência, mas nada o preparou para o que vai encontrar…

O corpo mutilado de Siham jaz gélido numa gaveta da morgue, à espera de ser identificado.

As mutilações encontradas no corpo são coerentes com as de um homem-bomba. Para o Shin Bet não restam dúvidas; Siham é uma terrorista suicida.

Amin cai aos infernos.

Não pode crer no que lhe dizem, está absolutamente convicto que Siham é inocente do hediondo crime de que a acusam.

Duas verdades se entrechocam qual Antígona dos tempos modernos.

Para Raveed e o capitão Moshe (Uri Gavriel), Siham era uma falsa laica, que escondia o seu fundamentalismo violento até do seu marido.

Para Amin, Siham era uma mulher doce sem interesses políticos ou religiosos que por alguma razão que não sabe explicar totalmente, foi parar a um restaurante em Tel Aviv ao invés de estar com o seu avô em Nazaré.

Ambos os lados possuem crenças, que os levam a convicções, que os tornam fundamentalistas e que os fazem donos da verdade.

Faz-vos lembrar algo?

A procura dessa inelutável verdade, leva Amin a procurar do outro lado da Faixa as razões para o que aconteceu com Siham.

Lá encontrará outras versões da verdade, todas elas cimentadas em crenças e convicções.

“Poderemos falar longamente a este respeito e nunca concordaremos”, é dito por uma personagem desta história. É também a base para todos os conflitos do mundo.

Não me compete aqui falar do livro que é excelente e que foca de uma maneira muito diversa da habitual, a questão Israelo-Palestiniana, mas da adaptação cinematográfica do mesmo.

Na minha opinião é uma obra belíssima, filmada com mestria e poesia, com valores de produção elevados e uma estética inebriante.

Destaco em particular, a utilização dos flashbacks, que são sem dúvida os momentos mais belos e sensuais do filme; com os seus grandes e lentos planos que colocam em destaque a beleza especial dos olhos das mulheres e homens do médio oriente.

Em termos interpretativos, falemos de Ali Sulimain e Reymonde Amsellem, especialmente o primeiro, que tem uma interpretação excelente.

Ambos conseguem ser extremamente convincentes nas palavras, nos olhares, na sua postura corporal e principalmente naquela parcela indefinível da interpretação que gosto de chamar de “essência”.

Curiosamente, apesar de já ter recebido prémios nos festivais de San Sebastian e de Istambul, “O Atentado” tem recebido críticas algo divergentes de diversas partes do globo.

Está proibido em 22 nações árabes por ter sido filmado em Israel e por não bipolarizar a questão, em termos como: “Opressor” e “Oprimido”.

Já a maioria da crítica americana e europeia tem criticado a obra escrita e cinematográfica por não “tomar partidos” e não “demonizar o terrorismo”.

Até nisso “O Atentado” acertou na mouche….

Sai com Satisfaz Plenamente!

 

Filme de Abertura: JUDAICA – 2ª MOSTRA DE CINEMA E CULTURA com Presença do Realizador Ziad Doueiri

 

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