Ziad Doueiri

Ziad Doueiri

À conversa com o Libanês irrequieto

Ziad Doueiri é por estes dias um dos cineastas mais polémicos na face da terra.

Tudo por causa do “Atentado”, uma adaptação cinematográfica da obra de Yasmina Khadra, pseudónimo do escritor argelino Mohamed Moulessehoul, que nas mãos de Ziad se tornou numa bomba de tal magnitude que enviou ondas de choque do Oriente ao Ocidente.

Encontrámo-lo na baixa lisboeta, para uma conversa muita aberta e animada, aproveitando a sua presença na Judaica – 2ª Mostra de Cinema e Cultura, que se realizou entre os dias 27 e 30 do passado mês de Março.

De bica na mão e sorriso fácil, Ziad Doueiri não se furtou a nenhuma pergunta nem se escondeu atrás de um discurso clean e politicamente correcto. A sua extrema simpatia só encontra paralelo mesmo, na inquietude do artista perante o atavismo típico das sociedades canónicas e preconceituosas.

Vamos então à conversa.

Ziad, será justo dizer que encontrou na obra de Khadra a história perfeita para o seu filme, ou será mais correcto afirmar que foi o livro que o encontrou?

Inegavelmente, foi o livro que me encontrou. Mas a história é algo rocambolesca.

Há algum tempo atrás fui abordado por uma empresa de produção cinematográfica norte-americana chamada Focus Features que tinha recentemente comprado os direitos do livro. Inicialmente não sabiam o que fazer com ele mas, como me explicaram, após terem assistido a dois dos meus filmes e tendo feito alguma investigação a meu respeito, decidiram contactar-me e perguntar se eu estaria interessado em participar num projecto para levar esta história ao grande ecrã.

Inicialmente não fiquei particularmente interessado, pois não conhecia o livro nem o seu autor e o assunto não me interessava particularmente. Contudo, o meu agente em Nova Iorque insistiu para que o lesse. Eu estava em Beirute nessa altura e pedi que o enviassem e, para minha surpresa, gostei mesmo do livro e ele afectou-me muitíssimo.

Fui para Nova Iorque, reuni com eles e planeámos fazer o filme.

Quando começaram a surgir problemas com os produtores?

Os problemas começaram quando acabámos o primeiro rascunho do que deveria ser o filme. Acabei por ser despedido do filme. Os produtores não queriam o meu guião; nunca soube porquê.

Chegaram a encomendar um argumento ao indivíduo que escreveu o “Último Rei da Escócia” (Peter Morgan).Queriam que eu ficasse como realizador, mas não queriam o meu argumento.

Eu aceitei esperar e prenunciar-me acerca do novo guião. Esperei nove meses por ele e, após o ter lido, recusei-o. Deixei bem claro a todos que, ou aceitavam a minha versão, ou não faria o filme.

Decidiram mais tarde não fazer o filme, nem a minha versão, nem qualquer outra e abandonaram o projecto por inteiro. Não conheço as razões para essa decisão e muito menos consegui entender o porquê de não me devolverem o meu argumento. Nos Estados Unidos a produção costuma ficar com os roteiros mesmo quando o filme não é acabado; mas se não queriam continuar o projecto, por que razão não mo devolveram?

Mais tarde, quando trouxe um produtor interessado em financiar a minha versão, ele negociou com os americanos e conseguiu, cerca de dois anos depois, os direitos para que pudéssemos filmar a minha versão. Que é a que está em exibição.

Não é raro existirem conflitos entre os cineastas e os estúdios, mas confesso que toda esta questão me aborreceu.

Parece ser evidente que para si o controle criativo é muito importante…

É no mínimo importante e é umas das vantagens de trabalhar em França. As produções europeias, por norma, permitem uma maior liberdade e controle criativo aos artistas do que as produções norte-americanas.

Não é que seja dispensável falar com a produção e com os investidores e colocá-los à margem do processo, mas nos E.U.A. podemos ser forçados a fazer o que eles querem.

Recebeu pressões dos seus investidores do Qatar e do Egipto, no que diz respeito às opções de casting ou de locais de filmagem?

Ninguém ao longo da criação deste filme exerceu qualquer tipo de pressão. O problema com os qataris apenas surgiu após o filme terminado e apenas porque eles quiseram retirar os seus nomes do filme.

Não quiseram o dinheiro de volta – já havia sido gasto – apenas não quiseram ficar associados ao filme, o que naturalmente me deixou agastado.

Deram-lhe alguma explicação?

Sim. Para eles, eu estava a oferecer uma perspectiva demasiado “israelita” da história.

Para isto fazer algum sentido temos de perceber umas quantas coisas acerca do Qatar. É um País estranho e cheio de inconsistências, que tenta mostrar-se liberal e aberto ao mundo Ocidental, um País que compra clubes de futebol franceses como o PSG ou hotéis em Londres. Mas que ao mesmo tempo financia movimentos islâmicos extremistas, como o Hezbollah e o Hamas. É um País de contradições, que faz as coisas de uma maneira peculiar.

Na realidade, eles até gostaram do filme. Mas o que me disseram foi que este filme abria janelas com as quais nesse momento não estavam em condições de lidar. O filme não poderia ser exibido no Qatar e só lhes traria problemas; essa era a razão do seu abandono do projecto.

Perguntei-lhes de que forma poderia um filme trazer problemas ao Qatar? E a resposta veio directamente de um gabinete ministerial. Disse o representante o seguinte:

“Nós estamos envolvidos na revolução Síria, na Egípcia, na Tunisina e não nos podemos envolver nisto agora”.

Tudo isto deixou claro para mim que existe no Qatar um movimento interno oposicionista da Família Real, já que o filme foi financiado com o dinheiro da Família Real do Qatar.

Em algum momento, enquanto fazia o filme, foi-lhe possível antever as dificuldades e polémicas que viriam a surgir?

Eu sabia que provavelmente o governo Libanês se iria tentar opor ao filme, porque eu sabia estar a violar a lei Libanesa que proíbe, desde 1958, que um Libanês pise o solo de Israel, seja para viver ou para trabalhar. Viajei para Israel com o meu passaporte norte-americano mas sou muito conhecido no Líbano e “eles” sabiam que eu estava lá. Eu próprio admiti publicamente a minha presença em Tel Aviv, quando o filme foi terminado.

Eu sabia as que dificuldades estavam para vir, mas sou um artista e é suposto um artista questionar a sociedade e os seus costumes; é assim que vivemos. Mas do que teria gostado, era que o meu filme fosse apreciado pelo seu valor intrínseco, apenas isso. Claramente não consegui fugir à polémica e aos boicotes orquestrados por pessoas que viram no facto de trabalhar com judeus uma traição!

Os sionistas são o Darth Vader do Médio Oriente para estas pessoas e nada existe de pior do que trabalhar com eles!

Mas o mais curioso é que a maioria da imprensa e pessoas que me atacaram, e continuam a atacar, não são conservadoras de direita, mas sim liberais de esquerda. Pessoas que se acham muito democráticas e abertas.

Alguns consideram que “O Ataque” é um filme que não demoniza o terrorismo e por isso é pró-palestiniano. Outros consideram que defende a imagem dos israelitas, outros ainda acusam-no de total neutralidade, o que é também um pecado capital.

"O ATENTADO" - ZIAD DOUERI

Podemos considerar que “O Ataque” é um filme incómodo?

Sem dúvida.

Recentemente tomei conhecimento duma realidade inquietante que pode servir como um exemplo. Existe actualmente um movimento muito forte anti-Israel e, após a concretização do filme, apercebi-me de que um comité de boicote com muito poder foi formado em Londres com o objectivo de bloquear obras de autores judeus ou relacionadas com a cultura judaica.

Este movimento é liderado pelo cineasta Ken Loach a quem escrevi, dando-lhe a perceber os riscos de um movimento que estava a afectar, e muito, a divulgação de um filme no Médio Oriente. Coisa que ele como cineasta não deveria permitir, quanto mais incentivar. Ele respondeu-me através de uma carta no mínimo ambígua em que dizia que o movimento não boicotava os artistas, mas apenas as obras patrocinadas pelo governo israelita.

Mas o que aconteceu foi que o filme foi boicotado no mundo árabe e isso incomodou-me e continua a incomodar, porque perdemos mercado. O filme teria provavelmente recuperado todo o dinheiro gasto na produção apenas no Líbano.

Como acha que teria sido a receptividade por parte dos libaneses ao seu filme?

Acredito que a receptividade ao filme seria mista; talvez metade gostasse e a outra não. Mas na realidade não posso dizer como seria, uma vez que o filme não teve a oportunidade de ser visto no mundo árabe, à excepção de Marrocos e o Dubai, no festival. O que sei é que muitos árabes se opuseram ao meu filme sem o ter visto… por causa dos judeus que nele entraram. Esse é um tabu, que também já foi meu.

Se tivessem falado comigo há 20 anos atrás, e me perguntassem se eu me sentaria na mesma mesa que um judeu, eu diria… jamais! Só que eu evolui, coisa que nem todos são capazes de o fazer.

É algo extremamente difícil de fazer, quebrar um preconceito. É muito mais fácil fazer cair uma ditadura do que mudar uma percepção. A revolução síria dura já há 3 anos; vai terminar mais cedo ou mais tarde, mas mudar as convicções das pessoas levará muito mais tempo.

Quando penso que os meus pais, que são pessoas de mente muito aberta, liberais mesmo, que assistiram às maiores atrocidades cometidas por Bashar al–Assad, e que foram maiores que as cometidas pelos sionistas ao longo dos tempos, acreditam que tudo aquilo que está a acontecer de mal na Síria é responsabilidade dos israelitas… Eu disse-lhes que eles nada tinham a ver com isso, que isso só estava na sua cabeça, mas como disse é muito difícil mudar um preconceito.

Eu passei a maior parte da minha vida a tentar ultrapassar a hostilidade que tinha para com os judeus. Eu odiava os sacanas! Vivi de muito perto os massacres de Sabra e Chatila, os meus pais estiveram envolvidos na revolução palestiniana.

Acha que foi fácil para mim ir filmar para Israel?

Eu sentei-me na mesma mesa que o Shimon Peres e não foi fácil; apetecia-me matá-lo. Por causa do meu passado, das minhas memórias. Foi um trabalho muito intenso para me reconciliar com o meu ódio, que era imenso.

Consegue imaginar esta história, escrita e realizada por alguém de um País distante desta realidade?

Sim, acredito que sim.

Já viu o filme “Downfall”? Nele o realizador consegue abordar uma personagem tão terrível como a de Hitler de uma forma ambivalente, o que nos ajuda a perceber que tudo é relativo e ultrapassa nacionalidades ou opiniões. Apesar de não querer comparar filmes muito diferentes, passei por uma questão muito semelhante.

Quanto escrevi o roteiro tive de ter em conta nuances muito complexas enquanto tentava mostrar duas perspectivas antagónicas ao mesmo tempo, o que é muito difícil. Por isso comecei a pensar em outros filmes que conseguissem fazer essa abordagem de forma eficiente. Não encontrei nenhum. A ambivalência necessária para construir essa história tive de a encontrar em mim mesmo.

Sou uma pessoa extremista, por vezes radical. Sou parecido com minha mãe nesse ponto, somos quase terroristas na forma como abordamos as questões. Chegamos a ser violentos – não fisicamente – mas violentos nas nossas opiniões. Tive de trabalhar a minha natureza interior ao longo deste filme, porque ao mesmo tempo em que sou radical sou também ambíguo. Sou-o em relação ao amor, ao casamento, a muitas coisas, no fundo. É importante dizer, no entanto, que apesar de eu ter a minha mente aberta para outras perspectivas isso não quer dizer que não tenha já a capacidade de odiar.

Eu odeio.

Sei que sou capaz de matar, e isso esteve para acontecer por mais que uma vez na minha vida.

Mas algo mudou em mim após ter feito este filme. Estou diferente. Não fiquei a achar que os israelitas são os heróis da história. Considero que fazem muita porcaria… mesmo muita. Mas não me permito acreditar que eles são o Darth Vader do Universo. Existem muitos a lixar as coisas pelo mundo fora…

Acabei este filme há um ano e meio mas as ondas de choque dele ainda me atingem. Nada na minha vida me afectou tanto como isto. Por isso, o próximo filme que vou fazer vai ser semelhante a este.

E esse filme será filmado em Beirute?

Sim. Se tudo correr bem e for possível, o meu próximo filme será rodado em Beirute.

Que tipo de filme vai ser?

Será um filme muito mais ligeiro. É um drama, mas com um final feliz, pois foi assim que as coisas aconteceram. Contudo, por causa da polémica gerada por este filme, este será uma espécie de continuação do “Atentado”, apesar de nada ter a ver com ele. Mas é uma resposta pessoal a tudo o que aconteceu.

Toda a minha raiva será colocada neste projecto. Terão a possibilidade de comprovar a minha evolução neste filme.

É um guião de sua autoria?

É baseado num acidente que tive quando estava em Beirute e a partir dele escrevi o guião. Estou em negociações com a “ARTE” para o financiamento do filme. Espero que tudo corra bem.

Apesar de tudo, “O Atentado” abriu-me muitas portas.

Que teriam provavelmente ficado escancaradas se o filme tivesse ido aos Óscares…

Sem dúvida. Ainda tentei conseguir a aprovação para o submeter, mas o Ministério da Cultura do Líbano informou-me de que não submeteria a concurso um filme supostamente libanês, cheio de actores israelitas. Foi portanto colocado de parte.

No futuro também lhes darei o “troco”…

Ziad, quais são os realizadores que ao longo da sua carreira mais o influenciaram?

Adoro o Lumet e vejo os seus filmes por vezes de forma compulsiva. O meu próximo filme terá muito dele em termos narrativos. Mas a minha maior influência é sem dúvida o realizador de obras de arte como “Baraka”, “Chronos” e “Koyaanisqatsi”: Ron Frickle!

Acho que inconscientemente tento copiá-lo em todos os meus filmes, mas nunca consigo.

Ele é inimitável.

Para encerrarmos a nossa conversa, uma questão para o futuro: Acha que daqui a uns anos as pessoas olharão para trás e verão uma polémica só possível numa época como aquela em que vivemos?

Acreditarei sempre que, em geral, as mentalidades vão evoluindo com o tempo. As sociedades frequentemente passam por épocas de trevas para depois avançarem para uma condição melhor.

A maior parte das pessoas participa nesses ciclos de avanço. Contudo, por vezes acredito que algumas pessoas nunca avançarão ou pelo menos demorarão muito tempo a lá chegar. Penso que a religião é a principal razão para isso. Os efeitos negativos da religião são muito mais longos e nefastos que os das questões seculares. As pessoas afastam responsabilidades e atribuem-nas todas aos poderes divinos. E não se pode contrariar o que vem do alto…

É mais difícil avançar quando consideramos que a responsabilidade não é nossa.



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