“A beleza das coisas frágeis” | Taiye Selasi

“A beleza das coisas frágeis” | Taiye Selasi

A nova diáspora africana

Nasceu em Londres, filha de uma nigeriana e um ganês, cresceu nos Estados Unidos e vive actualmente entre Roma e Nova Deli. Por sua vez, a ideia para “A Beleza das Coisas Frágeis” (Quetzal Editores, 2014) surgiu-lhe num retiro de yoga na Suécia. De sua justiça, Taiye Selasi apelidou-se “afropolitan”.

A escritora/fotógrafa de 34 anos conta com uma bagagem académica de Oxford e Yale, bem como textos publicados na Granta e Best American Short Stories. Selasi não descobriu a pólvora, mas aquilo que sabe fá-lo de forma competente, uma vigilância constante dos personagens, das suas motivações e gestos.

Com uma estrutura divida em três partes seguimos a história de uma reunião familiar, a propósito da morte e funeral de Kweku Sai, que havia regressado dos Estados Unidos para o seu Gana natal. Embora tenha participação reduzida na acção, guia as emoções e decisões dos verdadeiros protagonistas, os filhos. Quando mergulhamos nas vidas de Olu, Kehinde, Taiwo e Sadie, ao longo da segunda parte da obra, há uma implícita monotonia, como se a união das partes dispersas fosse a derradeira motivação para o rumo fortalecido da família que Kweku deixara para trás, sem segredos que os atormentem ou coisas que fiquem por dizer. Pelo caminho, chora-se muito.

“A Beleza das Coisas Frágeis” – ou “Ghana Must Go” no original – tem o trunfo de pertencer a uma era de transfiguração social norte-americana, onde minorias étnicas, com todo o mérito, ascendem e se estabelecem numa classe média robusta. Incluídos estão os filhos de imigrantes africanos voluntários, por contraste ao passado esclavagista. Embora, segundo Jamelle Bouie (num artigo para a Slate), os afro-americanos continuem mais sujeitos do que qualquer outro grupo étnico a viver em zonas empobrecidas, a obra de Selasi está longe de tiradas boys in the hood. São a nova burguesia endinheirada, com profissões liberais e salários estáveis, capaz de dar voltas ao estômago da direita conservadora americana: procuram quebrar (com força) estereótipos que persistam – e persistem.

Aquilo a que a autora tem vindo a apelar, um mundo onde as categorias literárias não sejam pautadas pela etnia ou localização geográfica (a literatura africana, por exemplo), está lado a lado com breves comentários sociais sobre ser-se negro na América de hoje. Para além da temática da perda e do “descobre-te a ti mesmo”, “A Beleza das Coisas Frágeis” sugere uma consolidação de um mundo globalizado que não sente saudade alguma da sua pesada herança colonial.



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