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A cultura em rede

Entrevista exclusiva com Ana Coelho, directora executiva da Artemrede.

Criada em 2005 com o objectivo de formar públicos e promover o desenvolvimento cultural dos municípios de Lisboa e Vale do Tejo, a Artemrede tem sido capaz de fomentar o trabalho em rede e os seus associados têm beneficiado das economias de escala proporcionadas pela possibilidade de um espectáculo rodar vários Teatros.

Foi recentemente divulgado o plano Estratégico da Artemrede para os próximos 6 anos onde está previsto um alargamento da rede, bem como uma aposta num serviço educativo paralelo ao normal trabalho da associação, chegando assim a todos os públicos, desde as crianças aos mais adultos.

Estivemos à conversa com Ana Coelho, directora executiva desta Associação sem fins lucrativos que salientou o carácter “aliciante” deste projecto e a cooperação existente entre municípios e entre presidentes camarários em prol do projecto.

Descubram a Artemrede.

RDB – Como surgiu este projecto na tua vida?

Ana Coelho – O projecto é anterior ao meu aparecimento na Artemrede. Em 2003 e 2004 a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo investiu  muito dinheiro a recuperar uma série de equipamentos culturais e ficaram preocupados com o “pós”, porque investiu-se muito dinheiro em betão e depois é preciso habitar os espaços. Foi então encomendado um estudo para perceber com se podia dar vida a estes equipamentos sendo que alguns deles foram recuperados após 20, 30 anos de estarem fechados, em vilas e cidades que durante todos esses anos não tiveram qualquer alternativa infra-estrutural de apresentação de espectáculos de arte. O estudo apontou para a criação de uma estrutura que veio a ser a Artemrede, criada em Janeiro de 2005, sendo que eu só apareci na Associação um ano depois, em resposta a um anúncio.

É um projecto que tem como financiamento principal fundos provenientes do Ministério da Cultura (MC)?

Do MC não directamente (até podia ser), mas sim do Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território (MAOT), porque este é um projecto de base territorial. O dinheiro para a reconstrução destes equipamentos foi disponibilizado pelo MAOT e portanto foi sempre com eles que se manteve uma maior ligação.

Indirectamente temos beneficiado do apoio que o MC tem dado a muitas companhias com quem temos trabalhado. Sem esse apoio seria impossível apresentarem os orçamentos que apresentam e muitas delas provavelmente não conseguiam estar em actividade.

Existe uma expectativa que venha a ser desenvolvida uma relação mais próxima. Através do CREN foi criada uma linha de financiamento para programação em rede que não está dependente apenas no MAOT mas sim da parceria dos dois Ministérios.

Eu entendo que as politicas culturais a nível local têm de ser complementares relativamente às que o Estado desenvolve e os agentes privados também têm um papel complementar relativo a tudo isto. O importante é que esteja tudo muito bem definido e eventualmente por vezes poderá não estar. O MC tem o seu trabalho, as autarquias têm desenvolvido as suas políticas culturais e não me parece que se tenham atrapalhado. Talvez seja mais difícil em cidades grandes como Lisboa e Porto do que em sítios mais pequenos.

Têm aproveitado alguns fundos europeus ..

A Artemrede é uma associação privada sem fins lucrativos, as suas receitas são as cotas dos associados e temos conseguido apresentar candidaturas aos fundos comunitários para comprar e promover espectáculos que depois circulam pela rede dos Teatros. Esta foi a razão principal que teve na origem da Artemrede. A ideia era qualificar e promover o desenvolvimento da actividade cultural nestes sítios, sendo que alguns durante muito tempo não tiveram “nada” e aproveitar a experiência de outros, como por exemplo Almada – que tem uma tradição cultural imensa, enraizada e que apanha públicos diversificados – para tentar que a cultura se espalhasse para os outros que estão mais carenciados

Foi difícil arrancar com o projecto?

Foi difícil porque existe em Portugal uma grande resistência à mudança. A Artemrede no início apareceu, para alguns sítios, como uma entidade externa a tentar impor-se e foi preciso tempo e muita diplomacia de forma a perceberem que não estávamos ali para tirar o lugar a ninguém mas sim a trabalhar para o mesmo. Uma outra dificuldade foi o hábito português de trabalhar sempre de costas para o vizinho e houve necessidade em alguns sítios de eliminar algum bairrismo a nível de concelho.

E como funciona a angariação de novas parcerias com municípios? É um processo recíproco?

Existem as duas vertentes. Este projecto não é apenas exclusivo para municípios. Desde que a entidade seja proprietária de um equipamento cultural em condições de apresentar espectáculos de palco, pode fazer parte da Artemrede. É verdade que no momento temos 18 associados e 17 são municípios. Temos algumas entidades que vêm ter com a Artemrede e demonstram interesse em aderir. Este ano já aderiram Sesimbra e a Golegã. Temos outros que somos nós que vamos ter com eles porque do ponto de vista estratégico, pode ser interessante para criar massa critica e fazer parte da Artemrede, de tal forma que nós hoje não estamos demasiado preocupados com a existência de uma infra-estrutura por percebermos que existem municípios que têm trabalho interessante a nível cultural apesar de não terem um equipamento. Fazem coisas de rua, têm um determinado tipo de eventos e conseguem uma projecção que para a Artemrede estrategicamente poderia ser interessante acolhe-los.

Qual é a mais valia para os Municípios?

O trabalho da Artemrede é complementar e de maneira nenhuma é substituir quem programa os espaços, porque senão isto deixava de ter o cariz pedagógico e de qualificação, passando a ser apenas uma prestadora de serviços. A ideia não é essa. Em alguns sítios representamos apenas 5% e noutros sítios representamos 50% da programação anual. Existe uma vantagem muito clara que é financeira. Programando através da rede consegue-se grandes economias de escala, porque nós não programamos espectáculos a não ser que existam 4 ou 5 espaços interessados em recebe-los e isso significa que os artistas tenham uma maior atenção nas propostas de cachet, porque eles também querem circular e nós chegamos a ter espectáculos que se adequam a 8 ou 10 teatros da rede, gerando descontos muito consideráveis. Este é o lado mais visível da Artemrede. Não é necessariamente o lado que dá mais consistência ao projecto internamente. Há todo um trabalho de desenvolvimento de cultura de rede. É preciso que as pessoas se habituem a trocar ideias, conselhos e a aprender com os outros. É essa capacidade de ouvir que desencadeia a inovação e criatividade dentro da rede e é isso que tem sido mais interessante.

Quais são os critérios de selecção dos projectos que depois são apresentados aos associados da Artemrede?

Nesta fase, durante estes últimos 4 anos, só temos trabalho com artistas profissionais de forma a consolidar a rede porque trabalhar com artistas amadores exige um esforço e uma dedicação da equipa que nós neste momento não temos capacidade para o fazer.  Em relação à dimensão do projecto, nós estamos abertos a qualquer tipo de proposta, não existe de forma nenhuma projectos que à partida ficam de fora. O que muitas vezes acontece é que os programadores destes Teatros, pelo menos daqueles que já estão à muito tempo nesta área, já têm um contacto privilegiado com muitos artistas, nomeadamente no mundo da música. É devido a essa particularidade da música que não temos tido muitos espectáculos dessa área na rede. Temos procurado áreas um pouco diferentes, mais transdisciplinares. O novo circo é uma área que nos interessa bastante desenvolver porque hoje estão a ser feitos trabalhos muitos interessantes e sendo uma linguagem nova existe um maior interesse em programar este tipo de temas. Na realidade só se formam públicos se nós formos capaz de fornecer programação com regularidade …

Até porque a formação do público é um dos objectivos da Artemrede …

Existem sítios onde está o trabalho todo para fazer. As pessoas não têm hábitos culturais. Os que têm é em Lisboa. Vêm ás compras e vêm passear e acabam por ver um espectáculo. Na própria localidade não existe este hábito e é preciso desenvolvê-lo. A formação de públicos passa por uma oferta regular de forma a que as pessoas a uma certa altura já nem querem saber o que lá está, sabem que esta lá qualquer coisa e aparecem. Noutros sítios estamos a tentar fazer um trabalho através das escolas porque não existem muitos projectos educativos. Já percebemos que podemos alargar este projecto com o objectivo de alargar públicos. Começámos a trabalhar com outras faixas etárias, fora do âmbito escolar. Em Setembro vamos ter um espectáculo de um artista francês que mistura HipHop com dança contemporânea e que nos permite desenvolver trabalho junto dos adolescentes que é uma faixa mais difícil de “agarrar”, que tem os seus próprios canais de informação e que identificam o equipamento cultural como algo que não lhes interessa.

Foram vocês que procuraram este projecto?

Sim. Tentamos ir com alguma frequência visitar alguns festivais no estrangeiro. É importante fomentar o confronto com projectos internacionais.

Qual é o processo que um projecto artístico necessita de desencadear e quais os critérios para serem aceites?

Normalmente é nesta altura (Maio, Junho) que pedimos projectos para o ano seguinte, de forma a começar a perceber o que existe e o que faz sentido ser apresentado. Por norma recebemos nesta altura cerca de 600 projectos por área. Depois existe uma pré-selecção que é feita em função daquilo que nós sabemos que são os interesses dos Teatros associados e também para garantir que o leque de oferta é bastante abrangente. Desta pré-selecção resultam um conjunto de propostas que integram um catálogo, posteriormente apresentado aos associados que depois escolhem o que querem. Após isso existe um momento em que nos sentamos todos e entramos em negociação, até porque temos um orçamento para cumprir. No ano passado tínhamos 88 propostas e foram seleccionadas 18 para circular na rede.

Tem havido um crescimento acentuado da cultura fora dos grandes centros urbanos. O CAE em Portalegre e o Vila Flor em Guimarães são dois bons exemplos. O que se passou para isto acontecer?

Houve um grande aumento do financiamento da cultura através dos municípios. Em 1996 eram 200 milhões de euros de investimento para a totalidade dos municípios do continente e em 2006 eram 500 milhões. As autarquias entendem que têm um papel a desempenhar a nível da cultura e encaram como serviço público. Sem dúvida que melhorámos muito e demos um salto muito grande nos últimos dez anos, o período “pós-expo”. Existem fenómenos muito curiosos, equipamentos que se vão afirmando em determinado tipo de área; Portalegre e Braga mais ligados à música, a Guarda e Viseu mais ligados ao Teatro e Dança, Guimarães também tem-se afirmado como uma alternativa ao Porto, desde que o Rivoli está nas mãos do Lá Féria

A Artemrede está centrada na zona de Lisboa. Existem planos para expandir para outras zonas ou o objectivo está cumprido?

Inicialmente sim, mas agora já não. Fizemos o novo plano estratégico (até 2015) e prevemos um alargamento já fora desta região até porque houve uma revisão administrativa no pais por causa dos fundos comunitários e hoje concelhos que pertenciam a Lisboa e Vale do Tejo “vão buscar dinheiro” ao Alentejo ou ao Centro e isso permite-nos pensar que fazia sentido expandir a rede. Traçou-se um horizonte de crescimento sustentável até 2015 conseguiríamos encaixar mais 7 associados e chegar aos 25 sem que a estrutura implodisse, porque o custo de funcionamento tem que ser muito reduzido relativamente ao custo total do projecto e neste momento esse custo anda na ordem dos 17% o que é bastante bom. Os outros 83% do orçamento são todos convertidos em serviços para os associados. Crescer demais podia colocar em risco esta relação e isso não nos interessa. Mas 25 não é um número “fechado” porque de repente entrarem só municípios com pouca população pode-nos interessar aumentar o número de associados de forma a encaixar municípios com mais população.

Já foi “negada” a entrada de municípios na rede? Isto pode acontecer?

Pode e sempre pôde acontecer tanto que no início o convite para integrar a Artemrede só foi feito a municípios que tinham equipamento a funcionar ou quase a ser inaugurado ou reinaugurado. Hoje já estamos a ver caso a caso. Mas sim pode acontecer. Pode não interessar à Artemrede.

Já se encontram disponíveis números da actividade da Artemrede em 2008?

Diminuímos o número de apresentações porque começamos a desenvolver o projecto educativo mas aumentamos o número de público. Com o mesmo orçamento temos que canalizar o dinheiro para estes dois âmbitos. Foi curioso que aumentámos em mais de 10% o número de público, que era a meta que tínhamos no plano estratégico. Mas a leitura destes números é muito relativa porque a entrada de um novo associado aumenta o número de espectáculos.

Uma vertente mais invisível é a ajuda à economia local que a Artemrede tem proporcionado …

Eu acho que é um assunto que se fala pouco e penso que tem sido importante. Não sei se todas as pessoas estão cientes deste aspecto. Claro que ao trazermos uma companhia, seja nacional ou estrangeira, obriga a que ela fique três dias numa cidade. Deixa-se dinheiro no hotel, deixa-se dinheiro nos restaurantes, as pessoas consomem nas lojas e claro que também existem benefícios impossíveis de medir. Por exemplo, no ano passado quando fizemos a Festa das Marionetas, descobrimos pessoas de Torres Vedras no Cartaxo porque tinham perdido o espectáculo em Torres Vedras e percebemos que estava a existir circulação de públicos.

Existe um público fiel aos espectáculos da Artemrede?

Não sei se nós conseguimos medir isso. A ideia era chegar a essa “confiança” mas tendemos sempre a não sobrevalorizar a Artemrede em detrimento dos seus associados e se um espectador diz que “no teatro da minha terra passam coisas fantásticas”, então óptimo, quer dizer que a nossa missão está a ter resultados. Mas é obvio que temos expectativas que as pessoas liguem as duas coisas.

A importância da cultura da fixação das populações. Será este mais um triunfo “invisível” da Artemrede?

Nós podemos saber isso pontualmente, conversando com as pessoas que vão aparecendo nos espectáculos. Não existe nenhum estudo sobre isso. Eu acredito que a actividade cultural influência muito a fixação das culturas, ou não, nos sítios e por isso eu acho que a Artemrede tem um trabalho muito importante porque pode contribuir para essa fixação. Realmente hoje temos pessoas com muita facilidade de mobilidade e se não existem infra-estruturas que permitam essa fixação, as pessoas facilmente pegam nas bagagens e vão viver para outro sítio. O facto de haver uma actividade cultural qualificante nas cidades faz com que elas sejam mais interessantes, que a qualidade de vida das pessoas melhore. Não sei é se nós a nível da cultura estamos a conseguir passar esta mensagem. Temos reflectindo muito sobre estes temas. Muitas vezes estamos a promover o espectáculo e esquecemos um bocadinho o acréscimo que traz.

Até porque uma programação regular numa determinada cidade é também importante para a socialização dos seus habitantes …

Todos os estudos de público que existem em Portugal e no estrangeiro mostram que a maior parte das pessoas vai assistir a um espectáculo não pelo espectáculo mas sim pelo convívio com amigos ou família. Muitas vezes nós colocamos a tónica principal no espectáculo e esquecemo-nos deste lado convivial e festivo. Devíamos tentar encontrar estratégias para valorizar este aspecto e para marcá-lo mais de forma a trazer ainda mais pessoas.

O conceito da Artemrede também existe no estrangeiro?

Quando se elaborou o estudo inicial foram analisados casos lá fora e existem algumas redes. Não são exactamente como a Artemrede. A “nossa” é produto da realidade portuguesa mas foi idealizada tendo como base as experiências lá fora. Em Itália existe uma rede parecida, mas não é tanto a programação mas sim ao nível do material técnico. Essa é uma necessidade que nós não sentimos. Os franceses já trabalham em rede há muitos anos mas centralizadas em termos de programação, ou seja, não são os programadores dos teatros que escolhem os espectáculos mas a rede tem uma direcção artística que escolhe. Em Portugal a direcção artística é partilhada por todos os associados.

Durante estes anos qual foi a maior surpresa a nível de adesão de público?

A minha grande surpresa foi descobrir que havia actividade cultural fora de Lisboa e Porto, muito enraizada e com muita vontade de fazer coisas. Existem pessoas fantásticas que com más condições e com péssimos ordenados e sem previsão de fazer uma carreira dedicam-se de corpo e alma aos projectos. A nível de espectáculos, tivemos um que a mim causou uma surpresa muito grande a nível de público. Era um duo austríaco que tocava com instrumentos de vidro diversas composições clássicas. Tivemos centenas de pessoas nas salas. As pessoas tinham curiosidade de ver uma coisa diferente. Pensávamos que era um espectáculo que ia passar despercebido e foi exactamente o oposto.



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