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“A desconhecida do retrato” de Camille de Peretti

Klimt em versão mistério pop

O ponto de partida é factual: em 1997, o quadro Retrato de uma senhora, do pintor austríaco Gustav Klimt, foi roubado de uma galeria no norte de Itália. As suspeitas eram muitas, mas, durante anos, nunca se descobriu a real razão. Alguns apontaram responsabilidade à máfia local, outros acusaram o circuito de contrabando de arte das elites, sem grande sucesso. Até que, em 2019, o quadro reapareceu, de forma inusitada e misteriosa e em perfeito estado de conservação, nos jardins do Museu de Arte Moderna Ricci Oddi, estando, espante-se!, num saco do lixo.     

Esse novelo enigmático atraiu a escritora francesa Camille de Peretti, confessa apaixonada por pintura e intrigas onde a arte e os segredos familiares se entrelaçam, alimentando a trama que se transformaria no seu mais recente romance, A desconhecida do retrato (Dom Quixote, 2025), uma estreia nos escaparates nacionais, cuja narrativa se inicia com a referida descoberta e cresce à volta de intrigas, maternidades ausentes e saltos temporais, tendo a doce e aristocrática Viena sempre presente, secundada por cenários de terras do Tio Sam e Itália.       

Perretti “ousa” dar nome à mulher do retrato (Martha), transformando-a no epicentro de uma narrativa que se desenrola nas ruas de uma Viena na década de 1920, passa pela norte-americana Texas dos anos 1980, regressando à Manhattan da Grande Depressão, não esquecendo a Itália contemporânea. Nesse puzzle espaciotemporal vivem alguns descendentes de Martha, como Isidore ou Pearl, entre outros, que herdam fragmentos de uma história que o leitor terá de acompanhar, entender e juntar as (muitas) peças que fazem parte de um todo que exige muita atenção.       

Para que funcione, Camille de Peretti juntou ambição histórica com um bom ritmo narrativo e cujo somatório resulta em capítulos curtos e viagens no tempo, notando-se também uma sólida investigação, ingredientes que constroem um livro que apetece ler.

Esse “açúcar” é também sublinhado com traços descaradamente pop, onde não faltam referências a Jurassic Park, à Coca-Cola ou à RCA (Radio Corporation of America), e passagens que parecem retiradas de séries campeãs de audiência nos gigantes de streaming.

Se resulta sempre? Na maioria das vezes sim; noutras faz com que este livro soe um pouco pastiche, sobretudo porque, em alguns capítulos, os diálogos perdem intensidade emocional, entrando em registo melodrama. E ainda que se conserve a coesão da história, faltam-lhe alguns truques na manga, principalmente o elemento surpresa e um maior risco, evitando cair no mais previsível. 

No entanto, entre arte, recordações, silêncio e enigmas familiares, o grande trunfo de A desconhecida do retrato é a humanidade com que está escrito, onde mais do que respostas se oferece um convite para entender o que pode ter ficado por contar. E esse exercício é, no fundo, o que transforma um livro num pedaço de memória.   



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