“Tóquio Express” de Seichō Matsumoto
Linhas e pontos
Editado originalmente no Japão em 1958, tendo sido adaptado enquanto série televisiva e em formato filme, Tóquio Express é o romance de estreia de Seichō Matsumoto, escritor definido por muitos como o grande mestre do mistério e policial nipónico.
Recentemente incluído na série Grandes Narrativas e com selo Presença, a estreia de Matsumoto nos escaparates nacionais é uma das grandes e boas surpresas do início de 2025. Falamos daquele que é assumido pela crítica internacional com a obra-prima do autor japonês nascido em Fukuoka e um clássico do renascimento da ficção policial japonesa no pós-Segunda Guerra, uma vez que o género foi mesmo banido durante o período bélico por ter sido, espante-se!, considerado fonte de ideias potencialmente decadentes e antipatrióticas.
O início da narrativa é marcado por um acontecimento que, por princípio, parece ter um desfecho relativamente simples. Na baía de Hakata, mais concretamente numa praia abandonada ao inverno de Kashii, são encontrados dois corpos. Tudo indica que se trata de um suicídio de amantes e ao seu lado foi encontrada uma garrafa cujo líquido havia sido misturado com cianeto.
Apesar de ser um ritual infelizmente corrente na sociedade japonesa pós-Segunda Guerra, este suicídio duplo levanta várias questões para o experiente e obstinado inspetor Jutaro Torigai que se recusa a aceitar o caso como resolvido à partida e inicia uma investigação que tem como objetivo esclarecer tudo o que se passou com os supostos amantes Toki e Sayama, ela trabalhadora num restaurante; ele funcionário de um ministério envolvido num esquema de corrupção.
Na sequência da investigação inicial de Torigai, junta-se Kiichi Mihara, jovem inspetor do departamento de investigação da polícia metropolitana de Tóquio, também ele desconfiado da aparente simplicidade do suicido, pegando no caso até ao limite das suas forças e face a um esquema extraordinariamente bem pensado e complexo.

Em termos de narrativa, as investigações formam o grosso da trama, mas Matsumoto aproveita para traçar o cenário de uma sociedade japonesa claramente marcada pela dicotomia entre o seu lado mais provinciano, leia-se tradicional/feudal, que evidenciava uma clara supremacia do homem face a um congénere feminino subserviente cuja educação assim o obriga, e o modernismo em termos de ação e pensamento que chegava de Tóquio, uma cidade que abraçou a modernidade, mas cujo quotidiano foi invadido por um mal que hoje ainda ensombra a sociedade atual: a corrupção que envolve quem governa e uma complexa teia de hierarquias sociais, profissionais, e muita burocracia.
No entanto, aquilo que confere uniformidade e beleza a este livro é, acima de tudo, a riqueza da escrita simples de Matsumoto, que, num registo pausado, analítico e poeticamente contemplativo, descritivo e ingénuo, características muito gratas à cultura japonesa, edifica uma história que é muito mais do que um crime, assumindo-se como uma sequência de puzzles (quase) perfeitos, alicerçados em horários e nomes de comboios (reais ao ano de 1957), numa sequência gráfica de linhas e pontos – Mihara faz os seus apontamentos com base em esquemas que ajudam à sua investigação – que acabam por revelar uma cabala orquestrada em nome de um objetivo escondido sobre várias camadas.
Por vezes em velocidade cruzeiro e noutras à beira da tontura provocada pelo efeito montanha-russa face às constantes dúvidas que surgem na tentativa de apurar os factos, Tóquio Express prende o leitor logo nas primeiras páginas, tornando-o “vitima” de um efeito trainspotting e enredos minuciosamente hitchcockianos, e que só encontra descanso quando, nas últimas páginas do livro, Mihara, através de uma carta resumo, explica e desvenda a Torigai o enorme novelo simétrico e fascinante que está na base do duplo suicídio, e em que nenhum pormenor foi esquecido, excetuando a vontade e obsessão de quem quer descobrir a verdade.
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