“Nem todas as árvores morrem de pé” de Luísa Sobral
Ervas daninhas
No prefácio deste livro, Luísa Sobral, sua autora, explica como nasceu a ideia de o escrever: «Em maio de 2021, recebi uma mensagem de WhatsApp de uma amiga que dizia: “esta história é incrível”; na mensagem seguinte vinha uma ligação para uma página de notícias de Vila Real… Li o artigo e nessa mesma noite tive de o transformar numa canção [“Maria Feliz”]». No entanto, a história que era «grande demais para ser canção, acabou por se transformar em livro».
Nesse livro cabem várias vidas, mas especialmente duas, de duas mulheres que têm muito a dizer e a sofrer em comum: Emmi e M. A primeira nasceu um pouco antes de Hitler ascender ao poder numa Alemanha conspurcada por uma crise que leva as pessoas ao desespero de acreditar num homem que pouco de humano tinha, perdeu o pai na guerra, teve uma adolescência complicada, tendo começado a trabalhar muito cedo para ajudar a família.
Sedenta de carinho, quer, à força, encher o coração de algo parecido ao amor, mas um amor diferente daquele oferecido pela sua irmã. Fracassa à primeira tentativa, mas, à segunda, apaixona-se por Markus, ou Mischa, um homem natural de Berlim Leste, e deixa-se levar pelo embalo de um primeiro encontro e um rol de cartas de um amor confesso. Ainda que a contragosto da mãe, casa e muda-se com o marido para Berlim. Na bagagem seguem a paixão e a sua irmã, a única que sempre a apoiou incondicionalmente. Mas o tempo tudo muda, a conjuntura faz crescer um muro que divide vidas, políticas, esperanças. Com ele diz-se adeus a uma parte da vida, que fica completamente destruída depois da receção de uma carta anónima que faz ruir todos os alicerces.
Do outro lado da “barricada” está M., uma menina que adora a Natureza e que nasce já com um país dividido, mas também com o desapego e “ausência” da mãe. Essa sombra aumenta com o mudar do calendário e tem no pai o seu herói. Mas viver numa sociedade que distorce a realidade também molda o coração, e M. só começa a perceber a realidade quando houve o relato irado de uma rapariga que lhe põe, literalmente, o mundo ao contrário. Na ressaca, a fuga para o Ocidente torna-se sinónimo de liberdade, de renascer.
Enquanto Emmi e M. desvendam e desbravam o seu caminho, que nos faz percorrer um trajeto que começa na Alemanha, mas faz escala em Itália até chegar a Portugal, ao leitor é oferecido uma espécie de guia de viagem, seja isso uma reflexão, um pequeno poema que pode ser pretérito para uma canção, um desenho de uma planta que fica no topo de um herbário. Essas interjeições funcionam como a passagem de um capítulo para outro, de um pedaço de vida para outro.

A delicadeza com que Luísa Sobral constrói Nem todas as árvores morrem de pé (D. Quixote, 2025), um magnífico romance de estreia com singelos capítulos que se leem num fôlego, deixa-nos rendidos, faz-nos querer ser invadidos e descobrir a vida cruzada de duas mulheres presas às piores décadas da Alemanha e unidas pela desilusão escancarada por aquele que mais amam, pelos sonhos que se desmoronam, por um corpo descarnado que nasceu disfuncional.
Emmi e M. são seres humanos que tentam criar condições perfeitas, raízes em lugares imperfeitos e áridos, uma “habilidade” apenas grata ao ser humano, mas que uma vida marcada pelo desamor, pelo abuso e manipulação, pela subserviência que alguns acham inata à condição de mulher, faz com que lhes seja diagnosticado o medo como uma doença crónica que fere almas incapazes de cicatrizar. A culpa é de um vírus que transforma o amor em ódio, que se ramifica sob a forma de cólera, de vingança por vingança, onde a coragem desabrocha do silêncio provocado pelas violações e agressões, físicas ou lidas em cartas de amor em formato flashback que nada mais são do que ervas daninhas que destroem o solo.
Mas, neste romance há também lugar para a esperança de um dia abraçar o verdadeiro amor, não importa o número da tentativa, estando isso à distância de um reencontro com um amigo de longa data, uma irmã, um raio de sol numa praia, o aconchego de uma paisagem sublinhada pelo verde, o desejo de ajudar os outros a conseguir ter aquilo que não tivemos, a receção do carinho de estranhos que se tornam a nossa família.
A poesia com que Luísa Sobral escreve tudo isto (ainda que a “curadoria” de alguém como Maria do Rosário Pedreira seja um fator decisivo…) é algo único e para saborear devagar, tal o sabor e o prazer que advém da leitura. E que depois de lido, torna-nos órfãos de um “lugar” que ficará para sempre guardado no coração e na estante, não importa o volume da tristeza, do abandono, das injustiças, de vidas que se perdem ou outras que se ganham na eternidade.
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