A História do Rock em Portugal

Uma viagem pelas 5 décadas de rock'n'roll em portugal - da british invasion, à censura do estado novo, até ao advento do mp3 e do myspace.

O rock morreu. Viva o rock!

Já lhe vaticinaram o fim mais do que uma vez e até já o cantaram. Mas sempre que uma voz diz que o rock morreu, outras dez se levantam para a contrapor. Foi assim no princípio deste milénio, com os Strokes e os White Stripes a encabeçarem a última vaga rock que atingiu a indústria internacional.

Oficialmente, o rock nasceu em 1954, quando Elvis Presley gravou “That’s Alright Mama” nos míticos Sun Studios. No entanto, desde o meio da década anterior que o rock já vinha emergindo da subcultura afro-americana, do piano-boogie de Little Richards às big-bands de Glenn Miller. No entanto, todos conhecem o Rei Elvis como o pai do rock’n’roll.

Em Portugal, é Rui Veloso o convencionalmente apelidado pai do rock português, devido ao seu álbum de 1980, “Ar de Rock”, que iniciou o boom do novo rock nacional que pontuou no nosso país durante essa década. Contudo, se atentarmos bem na expressão “novo rock português”, conclui-se implicitamente que houve um “velho rock português”. Quando foi isso? E quem foram os principais intervenientes? Talvez esteja lançada uma pista forte quando ouvimos José Cid afirmar que é ele a mãe do rock português.

Os Nuggets portugueses

Em 1972, o director da Elektra Records, Jac Holzman, compilou no mesmo álbum o que de melhor se fez na música rock norte-americana dos finais dos anos 60. O resultado foi a colecção “Nuggets” (de seu título completo “Nuggets: Original Artyfacts From the First Psychedelic Era”), um dos documentos essenciais da história rock e, inclusive, eleito pela Rolling Stone como um dos 200 discos essenciais de todo o sempre.

Esta compilação percursora influenciou uma série de outras, mais ou menos semelhantes, como a série “Peblees”, a “Rubbles”, ou a “Back From The Graves”, que, por sua vez, influenciaram a evolução natural do rock (alguém mencionou o punk?). Agora, chegou a altura da versão nacional – “Portuguese Nuggets”, uma compilação dupla que reúne o que de melhor se fez em Portugal nos anos 60, na área do rock’n’roll, da surf-music e do ye-ye.

O rock português dos anos 60 ou o rock em Portugal nos anos 60?

Significa então isto que, ao contrário do que muita gente pensa, já havia uma forte tradição rock em Portugal nos anos 60. E que tipo de rock era esse?

É GG Alin (nome fictício), um dos responsáveis por esse projecto inovador que poderá (deverá) tornar-se num dos documentos fundamentais da música nacional – o “Portuguese Nuggets” –, que nos dá essa resposta. Tal como um pouco por toda o Ocidente, também em Portugal se vivia a euforia do r&b branco, a cultura mod e a british invasion. Por isso, “o rock português era quase uma cópia do que se fazia lá fora, com a excepção de que não tinha a força ou a produção dos outros”. Além disso, “em Portugal, para as bandas tocarem ao vivo, tinha de ser em bailes. E por isso tinha-se de fazer covers de músicas tradicionais, mas em versões surf, por exemplo”. Era o caso do Conjunto Mistério ou Os Tártaros, que aparecem na colectânea a interpretarem versões surf dos temas populares «Alecrim» e «Rosa Arredonda A Saia», respectivamente.

Seria então o rock português dos anos 60 ou o rock em Portugal nos anos 60? GG Alin prefere “a segunda, sem dúvida, porque não há nada que o distinga do de lá de fora, excepto o que já referi”.

Havia então uma tentativa de reinterpretar os ídolos de então – «Roll Over Beethoven» pelos Kings, ou «Fire», pelos Pop Five Music Incorporated, são alguns dos covers que podemos recuperar no “Portuguese Nuggets”. No entanto, o panorama rock nacional também gerou “algumas propostas muito inovadoras”, como nos recorda Arístedes Duarte, coleccionador afincado e responsável pelo blogue Rock Em Portugal e pelo livro “Memórias do Rock Português”. E ele cita os exemplos intemporais do Quarteto 1111 e da Filarmónica Fraude. Posto isto, a frase de que o José Cid é a mãe do rock português faz mais sentido.

O pai do rock português

Rui Veloso é ou não o pai do rock português? “Esse é o maior mito criado no rock português.” – responde Arístedes Duarte – “O Rui Veloso, com todo o seu mérito, que ninguém lhe retira, não pode ser o pai do rock português. Eu próprio vi muitos concertos de rock português, antes de aparecer o Rui Veloso. Se alguém se pode considerar o pai, esse é o José Cid”. Com efeito, ainda antes do Quarteto 1111, José Cid era um dos membros dos Babies, uma banda de versões de Chuck Berry a Fats Domino e um dos primeiros conjuntos rock nacionais.

GG Alin, por sua vez, prefere referir “três pessoas fundamentais no rock dos anos 50: Victor Gomes, Joaquim Costa, e Zeca do Rock”.

Victor Gomes foi, quiçá, o mais carismático ícone do rock’n’roll português. Depois de ter ganho fama e glória em Angola, Victor Gomes veio para Portugal em 1963, onde se juntou aos Gatos Negros, colectivo da Trafaria, que durante cerca de dois anos cantou o rock de raízes americanas na língua de Camões.

Os Gatos Negros foram um fugaz caso de sucesso inusitado, ao chegarem ao ponto de encherem a Praça do Saldanha, numa altura em que qualquer ajuntamento com mais de cinco pessoas era estritamente proibido. A imagem rebelde de Victor Gomes arrebatava os corações femininos e os rapazes queriam ser como ele – uma espécie de James Dean português. Mais tarde experimentaria também o cinema, com “A Canção Da Saudade”.

A Joaquim Costa, carinhosamente apelidado como o Elvis de Campolide, é normalmente atribuído o primeiro disco rock em Portugal. Foi em 1959 e foi uma tiragem limitada a… duas(!) unidades. Joaquim Costa diz que “Bill Haley mudou a sua vida” e apostou tudo na música. E durante vários anos “foi o maior”, mesmo sem nunca ter aprendido inglês.

Os mais velhos são capazes de se lembrarem ainda da sua última actuação – foi no “Passeio dos Alegres”, famoso programa televisivo apresentado por Júlio Isidro, por onde desfilaram alguns dos maiores nomes da música portuguesa.

Por fim, José das Dores, vulgo Zeca do Rock, o primeiro roqueiro português a vingar no estrangeiro. A viver no Brasil, Zeca do Rock foi o primeiro a gravar um disco rock naquele país. E logo um disco duplo, em, 1961, muito antes dos Beatles – considerados os percursores dos álbuns duplos. É nesse disco que surge pela primeira vez «Sansão Foi Enganado», que segundo Arístedes Duarte, “foi o autor do primeiro ‘yeah’ gritado por um português num disco”. A sua carreira apenas pecou por curta, uma vez que foi interrompida pelo incorporamento militar.

Então se são estes os pais do rock português, porquê o mito Rui Veloso? Principalmente, por falta de um património tangível que não deixasse a memória desvanecer-se. GG Alin explica-nos que a principal razão é também “porque nunca se levou a cultura juvenil a sério”. Para isso basta atentarmos à quantidade de discos de fado que são editados, em comparação com o número de discos rock. E depois também nunca houveram muitos álbuns gravados, por “razões económicas. Não havia dinheiro para comprar instrumentos, não havia investimento das editoras e, logo, não haviam muitos discos”. E depois, claro, havia a censura.

“A juventude pode ser alegre sem ser irreverente” – o Estado Novo e o rock

Nos anos 60, podia-se ler num cartaz afixado no Teatro Monumental, local onde haviam concursos de ye-ye, a seguinte frase “A juventude pode ser alegre sem ser irreverente”. Era o sinal óbvio das privações que a música sofria naquela altura em Portugal.

Politicamente, vivia-se uma situação complicada. A censura atacava fortemente o conteúdo das letras, transformando o conteúdo das canções rock em algo ingenuamente inocente. As dificuldades económicas eram cada vez maiores e depois veio a guerra colonial, que obrigou os jovens a partirem. Por isso, a partir dos anos 60, a música de intervenção ganhou predominância no panorama musical nacional.

Só quando a ditadura caiu é que as águas voltaram a agitar-se. Estava-se no início dos anos 80 e rebentava o novo rock nacional, com Rui Veloso a dar o pontapé de saída. Vivia-se uma época de liberdade, uma nova invasão cultural britânica (e desta vez americana) e uma vontade de se fazer e experimentar coisas novas. GG Alin lembra ainda “uma coisa importante, que foi o aparecimento de editoras mais pequenas e depois das edições de autor, algo que era impossível antes”. Por isso, o rock nacional cresceu e deu importantes frutos: os Taxi, os GNR, os UHF… Tudo projectos que hoje são recordados como o nascimento da música pop-rock contemporânea.

Quer isto dizer que entre o final da década de 60 e o início da de 80, não houve rock em Portugal? “Isso é mais outro mito” responde Arístedes Duarte “Durante os anos 70 o rock português continuou a existir e com grandes grupos. Lembro só os Ananga-Ranga, Tantra, Aqui D’El Rock, Arte & Ofício, Go Graal Blues Band, etc. Os próprios UHF e os Xutos começaram nos anos 70. E mais, os anos 70 foram a época em que quem frequentava os concertos gostava mesmo de música, ao contrário de hoje, em que a mediatização do fenómeno transformou tudo em mainstream. A seguir ao 25 de Abril houve um afrouxamento do rock português, mas mesmo no PREC ele existiu. Aliás, foi em pleno PREC que os Genesis actuaram em Portugal, o que demonstra que ninguém esqueceu o rock”.

É a história do rock português que está muito mal contada, concorda Arístedes Duarte. Talvez aqui neste ponto o seu livro, “Memórias do Rock Português”, possa vir a ser um contributo importante para repor algumas verdades.

Acorda! – O presente e o futuro

Actualmente, o rock está bem de saúde e recomenda-se. É certo que a Internet e o advento do mp3 veio alargar a projecção das bandas e o aumento de informação junto do público, mas nunca a situação foi tão favorável às bandas como hoje em dia.

Existe uma oferta e uma procura em proporções semelhantes, mas sobretudo existem condições como nunca houve: vários sítios para tocar, de média e grandes dimensões, apesar da maioria deles se situarem nas grandes cidades, como Lisboa e o Porto; a existência de uma imprensa imparcial e abrangente, principalmente na Internet; o cada vez maior número de concertos a acontecer no nosso país, inclusive dos grandes nomes internacionais; e, principalmente, o interessa das editoras, sobretudo das independentes.

A prova deste movimento é a recém-lançada colectânea “Acorda! – Nova Música Portuguesa em MP3”, um disco que reúne 60(!) dos mais interessantes projectos nacionais da actualidade. A selecção foi feita por Henrique Amaro, em colaboração com a Cobra Discos e o patrocínio da Creative, e tem a distribuição assegurada pela Compact Records. O disco tem ainda a particularidade de os temas serem gravados em formato mp3. Um sinal dos tempos…

Por isso, a música rock vive um período fértil e promissor no nosso país, depois de nos anos 90 a história se ter limitado a alguns projectos, como os Tédio Boys ou as Les Baton Rouge, que apesar de terem alcançado a internacionalização, não conseguiram vingar no mercado interno (e que, actualmente, com a abrangência de informação, são vistos como uma espécie de lendas do passado recente do rock português).

Influenciado pelas tendências internacionais, o rock português tem-se desenvolvido em todas as direcções e o caso recente do sucesso internacional dos Wraygunn é a prova de que o rock está, como nunca, no caminho certo. E é por isso que colectâneas como a “Portuguese Nuggets” ou a “Acorda!” fazem todo o sentido numa altura como esta – porque não devemos engolir, sem antes mastigar.



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