Made @ Portugal

Charlie & The Bluescats.

Certo dia numa qualquer encruzilhada no Mississipi, Robert Johnson celebrou um pacto misteiroso com um homem desconhecido que, segundo as testemunhas, reflectia na sua sombra a silhueta do cornudo. Nesse dia nascia o blues!

A lenda pode muito bem ser adaptada a 1996, transportada para uma qualquer encruzilhada imaginária em Setúbal, onde o bluesman Carlos Pereira reuniu pela primeira vez os seus bluescats. Nasciam assim os Charlie & The Bluescats!

Pelo trilho calcado pelos grandes mestres e sob o estigma do feeling de Deus perante a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, os Charlie & The Bluescats propuseram-se desde logo a perpetuar o blues em Portugal, tendo como único objectivo a qualidade.

Muddy Waters cantou certa vez que os blues tiveram um filho que baptizaram de rock n’ roll. Apesar desta paternidade e apesar de Portugal ter uma certa relação com o rock, nunca desenvolveu grandes afinidades com o blues. Mas isso não coibiu os Charlie & The Bluescats de se afirmarem rapidamente, escalando degrau a degrau a escada do sucesso: logo nesse ano abriram os dois concertos da lenda viva BB King, de visita a Portugal e o espectáculo de Carey Bell, ex-músico de Muddy Waters; para além disto, andaram ainda em tournée pelos festivais da especialidade na Grécia. Atingiram um patamar acima quando, no ano seguinte, se apresentaram na Expo98 para mais de vinte concertos, programados pelo Pavilhão dos Estados Unidos, numa altura em que já eram presença habitual em palcos como o do Centro Cultural de Belém ou o do Casino da Figueira da Foz, ou quando, em 2000, foram a única banda nacional presente no cartaz do festival Gaia Blues.

Sem nunca cessar o ritmo dos concertos, a banda atravessou, no entanto, um período de pouca visibilidade mediática: a imprensa facilmente se vira para projectos mais recentes, muitas vezes em detrimento da qualidade.

No entanto, em 2004 ei-los de volta ao mais alto nível, desta vez com o assalto aos escaparates, com a estreia em disco, com um álbum homónimo. Este disco é apenas o quinto álbum de blues gravado em Portugal, mas pode ser o estímulo definitivo que tem faltado para que o blues se afirme no nosso país.

Para discutir a carreira dos seus Bluescats, o blues e a indústria da música nacional, a Rua de Baixo reuniu-se com o frontman Carlos Pereira, numa breve e interessante conversa.

Rua de Baixo – Quem são afinal os Charlie & The Bluescats?

Carlos Pereira – Charlie & The Bluescats são uma banda de blues o mais possível à maneira clássica, misturando Chicago, Memphis e o Texas à medida das circunstâncias e da vontade.

RdB – No blues é fácil falar-se de referências e influências. Quais são as principais que os Charlie & The Bluescats apontam?

CP – Falando por mim enquanto frontman citaria apenas as essenciais, para não me alongar: Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Little Walter, Sonny Boy Williamson II, T-Bone Walker, BB King e, acima destes, Freddie King e Albert King, sem ignorar os incontornáveis Jimi Hendrix e o Eric Clapton dos anos 60 [John Mayal & The Bluesbreakers, Cream e Derek & The Dominoes].

RdB – Em 1997 abriram o concerto do BB King nos Coliseus de Lisboa e do Porto. Como foi a experiência de pisar o mesmo palco de uma das maiores lendas vivas do blues? Tiveram oportunidade de o conhecer e de privar com ele?

CP – Para além de uma honra e um privilégio, encarei os concertos de forma profissional. Quando se quer trilhar o mesmo caminho das lendas há que seguir-lhes o exemplo. Estivemos com o mestre no fim do concerto no Coliseu do Porto. Como é seu costume deu alguns conselhos que tento seguir escrupulosamente. Cedeu-me mais tempo do que aos VIP’s que por lá pululavam, o que é bem a imagem das suas prioridades.

RdB – Como é que uma banda que em pouco mais de dois anos tem um percurso vertiginoso – partilhando o mesmo palco com BB King ou Carey Bell, ou percorrendo a Grécia em tour, por exemplo – entre num hiato tão longo de quase quatro anos?

CP – Não houve um hiato em termos de concertos. Simplesmente andámos a tocar em sítios menos conhecidos e/ou promovidos. Por outro lado, o desaparecer aparente da cena musical também teve a ver com a total ausência de interesse por parte da imprensa portuguesa. Os concertos foram até referenciados no Telejornal da RTP sem qualquer menção de que estavam músicos portugueses a abrir.

RdB –  É a cena musical nacional que protege as bandas quando estão lá em cima e as dilacera quando estão mais em baixo, ou não tem nada a ver?

CP – Acho que não tem nada a ver. O acompanhamento da comunicação social é, no mínimo, errático e inconsequente. Vejo promoções a vários artistas, em diversos programas e noticiários e pergunto-me: porquê estes e não outros? Alguns artistas praticamente desconhecidos e/ou com projectos em áreas marginais recebem, subitamente, tempo de antena e não se sabe porquê. Não acho mal que se dê relevância a projectos marginais, antes pelo contrário, mas porquê tudo para uns e nada para outros? Parece-me que não existe uma estratégia nem uma sistematização da divulgação e que tudo se passa no domínio das pressões e/ou conhecimentos e conveniências do momento.

Quanto à cena musical estrita ela não protege ninguém. Quem tem poder dentro do negócio é que protege os seus interesses.

RdB – Os Charlie &The Bluescats acabaram de lançar o primeiro álbum, numa altura em que o alinhamento da banda também sofreu alterações. É um estímulo para uma nova fase da carreira da banda? Quais são os objectivos a curto prazo, de momento?

CP – Não houveram alterações de fundo. De todos os músicos que gravaram o disco apenas um não está de momento. Quanto aos objectivos, eles passam essencialmente por concertos. Em Portugal esse problema não está resolvido. Não há praticamente ninguém interessado em agenciar um projecto destes ou, pelo menos, eu não conheço praticamente ninguém. Para fora seria útil trabalhar com alguém que conhecesse o mercado mas, ainda assim, tenho obtido resultados. Vamos estar no próximo dia 4 de Agosto no VI Festival de Blues de Castilla e Léon em Béjar, Salamanca, e outras datas estão já a ser agendadas. Para o fim do ano atacaremos o resto da Europa.

RdB – Charlie & The Bluescats é apenas o quinto álbum de blues a ser gravado em Portugal. O que é que se passa com o blues no nosso país?

CP – Não se passa nada. O “sistema” não reconhece, em geral, a importância do blues. É considerado um género menor, apenas digno de ser abordado por um ou outro dos nossos artistas VIP’s. Ao contrário, os espanhóis investem seriamente no negócio e já exportam. Estamos a dormir ou pior, como sempre.

RdB – O blues nacional é vítima do panorama musical nacional, ou a pouca expressão do blues no nosso país condiciona outras abordagens? Qual é a solução para este problema?

CP – A primeira premissa é verdadeira, a segunda não. O problema é um pouco dos músicos que têm tendência para não ser profissionais e especializados no que fazem. Mas é muito mais dos operadores do mercado que o têm fechado a sete chaves, só dando acesso a A ou a B em condições frequentemente incompreensíveis, fazendo tudo pela metade. E não é só no blues. É geral. Pela parte que me toca não tenho falta de público entusiasta e numeroso.

RdB – Quando se fala de blues em Portugal, normalmente recorre-se ao nome do Rui Veloso ou dos Go Graal Blues Band. Actualmente, o blues nacional é sinónimo dos Nobody Bizness ou do The Legendary Tigerman. Que lhe parece isto?

CP – Independentemente dos projectos não houve realmente uma evolução. As bandas aparecem e desaparecem ao sabor das circunstâncias e não há continuidade nem longevidade nem persistência. Não sei se os nomes que citou são sinónimos do blues em Portugal. O mercado é que o devia estabelecer mas está destruído. Não há possibilidade de concorrência sem mercado aberto e, enquanto forem funcionários públicos a escolher, arbitrariamente, o que as pessoas podem ver ao vivo, não vamos a lado nenhum. Deixem o consumidor escolher o que quer ver e em poucos anos o panorama musical português revitalizar-se-á.

Quanto ao The Legendary Tigerman, sem polémica, tive recentemente ocasião de ver e ouvir um excerto ao vivo, na TV, e mantenho a minha opinião: muito interessante do ponto de vista musical e cénico mas muito pouco a ver com blues.

RdB – O The Legendary Tigerman não estará apenas num outro registo do blues, numa evolução de condições socio-culturais bastantes específicas? Talvez um pouco como o Hasyl Adkins, que se tornou one-man band por ouvir o Hank Williams na rádio e pensar que era ele que tocava os instrumentos todos.

CP – Parece-me que estamos em pontos de partida diferentes. Na minha opinião não existem outros registos de blues. Os blues têm uma origem clara e definida no tempo e no espaço, socialmente e até etnicamente. Evoluíram da canção de trabalho para o bluesman solitário que animava as festas de fim-de-semana e daí para bandas, até que Muddy Waters “descobriu a electricidade”. Dos anos 40 para cá diversos artistas de grande capacidade expressiva estabeleceram os padrões do blues modernos e, tanto quanto vejo, a evolução terminou há muito, se é que alguma vez existiu. As alterações de estilo ou execução dos instrumentos devem-se mais ao desenvolvimento tecnológico do que a qualquer outra coisa fora da expressividade individual de cada músico. Blues é performance dentro de padrões estabelecidos já nos anos 30, se não antes. A qualidade de um músico de blues mede-se, essencialmente, pela sua expressividade e todos são diferentes. Podemos gostar mais da sensibilidade de uns do que de outros mas não consigo discutir diferentes “registos de blues”, pelo menos em sentido lato. Ou se está dentro ou se está fora, não há meio-termo. Termino citando um dos maiores: Blues is roots, everything else is the fruit [Willie Dixon].



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