“Sacrifício a Moloc” de Asa Larsson

“Sacrifício a Moloc” de Asa Larsson

O lado escuro da natureza humana

Mestre do policial negro, a sueca Asa Larsson chegou novamente aos escaparates nacionais com mais um livro que promete, desta vez, agradar a todos os fãs do género.

Falamos de “Sacrifício a Moloc” (Editorial Planeta, 2015) – vencedor do Prémio da Academia Sueca para o Melhor Romance Policial de 2012 -,  quinto livro da série Rebecka Martinsson, ex-advogada e atual procuradora, que vem, felizmente, dar outro fôlego à escrita de Larsson que com “Quando a Tua Ira Passar” tinha ficado uns furos abaixo do esperado.

Tendo Kiruna como cenário, na Lapónia sueca, a mais recente aventura literária de Asa Larsson, tem a sua génese quando um grupo de homens decide encetar uma caçada implacável a um urso ferido que revela um intrincado e estranho mistério.

A partir daí, a narrativa move-se por caminhos aparentemente desconexos, que envolvem um terrível e frio assassinato, o desaparecimento de uma criança bem como uma série de questões que misturam religião, ganância, inveja, avareza e vingança.

Inicialmente designada para a investigação, Martinsson acaba por ocupar um plano de menor destaque no caso pela impertinência do sempre ambicioso e sem escrúpulos Carl von Post que consegue ficar responsável por toda a operação.

Injustiçada e incomodada por representar um papel secundário, Rebecka opta por tirar um período de férias. Ainda assim, toda a complexidade e estranheza do caso faz com que a ex-advogada não saia completamente de cena.

Fruto de uma investigação paralela que conta com a ajuda de companheiros mais chegados, como Krister Eriksson, Anna-Maria Mella e Lars Pohjanen, Martinsson descobre que a caçada do urso é apenas a ponta de um iceberg que leva a mais crimes inexplicados que transportam o leitor numa viagem entre presente e passado.

Através de constantes flashbacks entre a atualidade e os anos que envolvem a Primeira Grande Guerra, Larsson traz a palco a trágica história de amor entre Elina, uma jovem professora, e Hjalmar Lundbohm, o gerente da mina de Kiruna, negócio que colocou definitivamente a povoação no mapa da Suécia.

Quanto mais Martisson investiga, mais são as certezas que os crimes de hoje são o reflexo e a consequência de acontecimentos passados. A única forma de resolver o caso é encetar uma investigação por conta própria que apenas pode evitar mais mortes se for realizada em género contrarrelógio.

Uma das grandes mais-valias de “Sacrifício a Moloc”, algo que Larsson já nos habituou, é o perfil sintético mas muito rico dos capítulos que apresentam ou relembram personagens, locais e épocas. Como já referimos, a trama alterna entre presente e passados (recentes ou mais longínquos) e permite uma plena contextualização da globalidade de uma história que por vezes se socorre, e bem, da beleza da paisagem sueca assim como da própria literatura como uma forma de (melancólica) expiação e salvação.

Fica também a sensação da presença de alguns tiques trágicos (de inspiração teatral) que servem de alicerce à exibição de acontecimentos decisivos, que não sendo revelados de forma direta, fazem uso de um somatório intuitivo que apenas peca, numa ou de outra situação, pela escassez mas que se refugia numa escrita inteligente e repleta de afincadas camadas de suspense.



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