Festa do Cinema Francês 2014

15ª Festa do Cinema Francês

15 velas, 15 bons motivos

A Festa do Cinema Francês já levantou voo e prepara-se para aterrar em Lisboa já no próximo dia 2 de Outubro. Até ao dia 22 de Novembro serão exibidas 24 ante-estreias (sim, leram bem: vinte e quatro!) e um pouco por todo o lado já começamos a ver os cartazes da Festa que este ano nos brinda com uma nova imagem gráfica, resultado do óptimo trabalho levado a cabo pela agência criativa Publicis.

Mas as novidades não se ficam por aqui. A Festa, que este ano sopra 15 velas, quis garantir que a data não passava despercebida e trouxe-nos malas e bagagens carregadinhas de novidades. Uma das principais é a forte aposta na expansão geográfica: a acrescentar às 7 cidades anfitriãs de 2013, vão também receber a Festa Portimão, Seixal, Braga, Leiria, Caldas da Rainha, S. Pedro do Sul, Viana do Castelo, Setúbal, Aveiro, Santarém e Funchal. E se provas faltassem que esta é cada vez mais uma Festa profundamente enraizada na paisagem cultural do nosso país, a iniciativa “Festa na Aldeia” vem encerrar a discussão. O interior ganha destaque nesta 15ª Edição, e o cinema francês chega pela primeira vez a cinco aldeias do nordeste do país através de um ecrã portátil. Serão anfitriãs as aldeias: Vila Chã de Braciosa, Palaçoulo, Malhadas, S. Martinho (Miranda do Douro), Lage (Vila Verde) e Escariz (União de Freguesias de Escariz São Mamede e Escariz São Martinho).

A partir desta edição, Azouz Begag assume que pretende “mudar a imagem da França, matar os clichés e mostrar um país diversificado” e nós subscrevemos inteiramente esta necessidade, tendo por isso preparado para os nossos leitores um artigo que sopra as 15 velas com a Festa e que, por cada uma, vos apresenta uma boa razão para não perderem a oportunidade de festejar a diversidade e a originalidade da sétima arte falada na língua do Astérix… Aqui vão elas:

1. Sopramos a primeira vela ao filme número 1. Todos gostamos de eventos de qualquer coisa, e os de abertura têm um gostinho especial porque vêm acompanhados pelo iniciar de algo. “La Cour de Babel”, estreado em França há sete meses e merecedor de uma fantástica recepção por parte da crítica francesa, é quem abre as hostes desta Festa. Quem assina é a notável Julie Bertucelli, autora de vários documentários televisivos de altíssima qualidade mas cujo reconhecimento internacional advém do sucesso que tiveram os filmes “Depuis qu’Otar est parti…” e sobretudo pelo “L’Arbre”, exibido na sessão de encerramento de Cannes 2010. Desta vez é a abordagem documental que pisa a passadeira vermelha e se optarem por se deslocar até ao São Jorge no dia 2 de Outubro vão ter a oportunidade única de assistir a uma obra que nos conta a história de uma turma de adaptação onde alunos imigrantes entre os 11 e os 15 anos de idade aprendem as suas primeiras lições de francês. Crianças que nos chegam da Irlanda, Senegal, Marrocos, China e Brasil, e cujo único objetivo de uma existência ainda tão curta é a oportunidade de… começar de novo.

2. E porque a segunda arte é a Dança, reservámos a segunda vela para vos falar dos Padrinhos da Festa. Pela primeira vez estes não estão directamente relacionados com a sétima arte, mas antes com a expressão corporal, mais especificamente com a dança. O “Movimento DansasAparte” foi criado em Setembro de 2005 e é actualmente constituído por 11 “bailarinos” orientados por 2 técnicos. Um grupo que abraça o objectivo de sensibilizar as comunidades para as capacidades e potencialidades da população com deficiência e que irá brindar o público amante do cinema francês com uma peça que se pauta pela procura constante dos sonhos que nos ajudam a alcançar aquilo a que nos propomos a nós próprios. Uma viagem diferente através de sons, expressões e movimentos corporais para ver, explorar e reflectir.

Festa do Cinema Francês - Movimento DansasAparte

3. A terceira vela multiplica-se em genialidade e vale 91 anos daquele que é uma referência fundamental na história do cinema francês. Foi em Fevereiro deste ano que Alain Resnais apresentou o “filme mais original e ousado da Berlinale”, justificativa que valeu ao “Aimer, Boire et Chanter” o prémio da crítica como melhor filme da competição no Festival de Berlim. O cineasta não esteve presente na estreia, tendo ficado em Paris por questões de saúde. Duas semanas depois, no dia 1 de Março, viria a falecer, deixando para trás um legado de aproximadamente 50 filmes. Mestre incontornável do cinema francês, foi diretor de algumas das principais obras revolucionários da Nouvelle Vague e mostrou-uma nova forma de encarar as estéticas do tempo e da memória no grande ecrã, sendo também inegável o enorme impacto que algumas das suas obras tiveram na redifinição da linguagem da fotografia de moda. Autor de clássicos como “Hiroshima Mon Amour” e “L’année dernière à Marienbad”, Alain Resnais vê nesta Festa do Cinema Francês a sua mais que merecida homenagem através de um ciclo que nos traz uma retrospectiva da sua obra e ainda duas ante estreias: o já referido “Aimer, boire et chanter” e o “Vous n’avez encore rien vu”. A puderem escolher, é de ir a todos.

4. Na quarta vela damos-vos a conhecer quatro filmes de outro dos nomes lendários do cinema francês, Marcel Pagnol. Dramaturgo, escritor e realizador francês, estes será igualmente homenageado nesta Festa através da exibição dos filmes: “Naïs”, “Topaze”, “Le Schpountz” e “Les lettres de mon moulin”. Esta é uma oportunidade única de contactar na primeira fila com o valor humanista clássico que pauta a cinematografia de Pagnol cuja experiência de visualização tem uma capacidade de transformaçãoo profunda. Mais uma vez: a poderem escolher, é mesmo de ir aos quatro e, já agora, aproveitem também para conhecer o convidado Nicolas Pagnol, neto de Marcel Pagnol e de Jacqueline Bouvier, que estará em Portugal para nos falar obra do seu avô enquanto presidente da “Marcel Pagnol Communication” (MPF).

5. Vamos agora falar-vos sobre Boris Lojkine, um professor de filosofia detentor de uma obra cinematográfica ainda pouco extensa, mas que ostenta já traços de uma enorme qualidade. Destacamos o documentário “Les âmes errantes” de 2006 e o filme em exibição na Festa do Cinema Francês, “Hope”, que recebeu o prémio da Sociedade Francesa de Escritores, Compositores e Directores (SACD) no Festival de Cannes de 2014 e que chega agora até nós para nos contar a história do camaronês Leónard que, durante a travessia do Sara para chegar até à Europa, encontra Hope, uma nigeriana na qual vê reflectidos os seus próprios sonhos e ambições.

6. Na sexta vela continuamos em Cannes. Chegou-nos aos ouvidos que “Run “é o primeiro filme da Costa do Marfim desde há 29 anos que aparece numa secção do Festival de Cannes” (RFI, Les voix du monde) e isto foi suficiente para ficarmos imensamente curiosos sobre esta obra. Realizado por Philippe Lacôte, natural de Abidjan, tem em “Run” a sua primeira longa-metragem, que lhe valeu o Primeiro Prémio do Jerusalem Film Lab, e 7 nomeações no 67º Festival de Cannes. “Run” evoca a crise que abalou o país no início dos anos 2000 e não foi fácil ousar pisar estes terrenos: Lacôte chegou a ter a ver a sua fotografia na capa de um jornal com o título “Este homem é perigoso”, mas nem por um momento lhe ocorreu parar o projecto.

Para vos aguçar a curiosidade, podemos contar-vos que o nome vai beber inspiração ao protagonista do filme que acaba de matar o primeiro-ministro do seu país e que, por isso, não tem muito mais hipóteses do que… Run.

7. Agora vamos ao campo da comédia: “Les Combattants” é a estreia de Thomas Cailley nas longas-metragens e é o primeiro filme a ter vencido as três principais categorias da Quinzena dos Realizadores, mostra paralela à programação do Festival de Cannes. Um filme que nos conta a história do jovem Arnaud que se apaixona por uma fanática pela vida militar, Madaleine, e que promete deliciar os corações do público português com a mesma leveza com que conquistou a crítica da sétima arte.

8. Na oitava vela vamos até aos Óscares e falamos-vos sobre o desenhador de banda-desenhada e cineasta francês Sylvain Chomet, conhecido sobretudo por duas obras, ambas nomeadas para o Óscar de melhor curta-metragem e melhor filme de animação: falamos da curta “La Vieille Dame et les pigeons” e da excelente adaptação do script inacabado de Jacques Tati, “L’illusionniste”, que mereceu também o César do Melhor Filme de animação em 2011. Na Festa do Cinema Francês chega-nos agora uma nova faceta do realizador, através da comédia “Attila Marcel”, que é já um verdadeiro caso de sucesso de crítica na França e que nos conta a história de um homem, Paul, que parou de falar quando os pais morreram, aos 2 anos de idade.

9. Falamos-vos agora de uma das convidadas da Festa do Cinema Francês, Anne Fontaine, que assina a divertida comédia “Gemma Bovery”. Bailarina de formação, Anne Fontaine inicia-se no cinema nos anos 80, tendo participado em algumas comédias como “Profs”, muito embora o reconhecimento internacional tenha acontecido através de filmes como “Coco avant Chanel”, ou o mais recente “Adore”, sendo este segundo um excelente drama psicológico que nos convida a conhecer um totalmente novo e desconhecido território emocional. “Gemma Bovery” é o regresso da realizadora ao campo das comédias e é uma adaptação de uma espécie de banda desenhada de Posy Simmonds inspirada livremente em “Madame Bovary”. Se ao sedutor universo da obra de Flaubert se juntaram os ingredientes mágicos do humor, parece-nos bem que este filme pode ser detentor de uma receita vencedora!

10. À décima vela, continuamos com os convidados da Festa e, desta vez, damos-vos a conhecer Pascal Tessaud. Mestre em cinema, estudou em Verneza e cedo se iniciou pelo universo das curtas-metragens. É em 2012 que dá o pulo para as luzes das ribaltas através do “La Ville Lumière”, filme que obteve o grande prémio da melhor curta-metragem internacional no festival de Toronto 2014 ReelWorld film. Apoiante e defensor de um cinema mediado pelo diálogo directo com a cultura popular, “Brooklin” é um filme que nos sugere uma reflexão sobre o tema e sobre o poder interventivo que a sétima arte pode ter no quotidiano e no contexto social das comunidades.

11. Festejamos agora um dos filmes que mais aguardamos nesta 15ª Festa do Cinema Francês: “Sur le chemin de l’école”. Um documentário aplaudido pela crítica que percorre a história de quatro extraordinárias crianças que todos os dias percorrem longos e penosos caminhos pelo direito à sua própria educação. Uma obra que soma já 3 prémios, de entre os quais destacamos o César para Melhor Documentário. Pascal Plisson, realizador e especialista na realização de documentários sobre África, é quem assina este documentário que parece certificar-se que nos irá levar através de uma viagem que irá muito além dos trilhos das montanhas Atlas em Marrocos, da Índia meridional ou dos planaltos da Patagónia…

12. À décima segunda razão, voltamos aos convidados, desta vez para vos falarmos de Fabianny Deschamps. A realizadora, que é também é cenógrafa e cuja carreira sempre se pautou por uma forte ligação ao teatro e às artes plásticas, conta já com algumas curtas várias vezes premiadas em concursos internacionais, e ‘New Territories’ é o nome da sua primeira longa-metragem. A obra vai estar em ante-estreia na Festa do Cinema Francês e conta-nos a história de duas mulheres com vivências e percursos aparentemente antagónicos que se irão cruzar para dar origem a uma viagem através das ténues fronteiras da vida, da cultura e das crenças.

13. A fechar os convidados, ainda temos uma vela para nomear Philippe Godeau, produtor de renome, assumidamente apaixonado pela sétima arte e ambicioso por natureza. Na bagagem traz um sem fim de produções televisivas, bem como produções cinematográficas de nomes como Pialat, Van Dormael ou Jean-Pierra Améris. A sua presença na Festa acontece no âmbito do filme “Camping à la ferme”, a obra mais recente de Jean-Pierre Sinap, o qual também estará presente na sessão.

14. Quase a chegar às últimas velas, tempo ainda para vos falarmos do Universo da Animação. Um ciclo de filmes para todos os públicos e que volta a contar com a excelente iniciativa de sessões escolares gratuitas em todas as cidades. O nosso destaque vai para a dupla Marc Boreal e Thibaut Chatel e para o seu mais recente “Ma maman est en Amérique, elle a rencontré Buffalo Bill”. Uma história que promete tocar os corações dos 10 aos 70 anos e que, segundo a crítica, consegue “um equilíbrio perfeito entre melancolia e humor, gravidade e despreocupação.” (Stéphanie Belpêche , LeJournal du Dimanche).

Se ainda estão a torcer o nariz à animação talvez valha a pena recordar que Marc Boreal é conhecido pela participação em séries de enorme sucesso como o são “The Adventures of Tintin” ou “Babar” e convidar-vos a espreitar o trailer da animação que este ano já passou por 5 dos principais festivais de cinema e recebeu a Menção especial no Festival du Film d’Animation d’Annecy.

15. Apagamos a última vela festejando a obstinada curiosidade dos irmãos Lumière, o universo fantástico de Méliès e o poder transformador que (quase) sempre nos propõe a linguagem pura, realista e livre de preconceitos das obras assinadas em francês.

Oh la la la, c’est la magie du cinéma français. On y va?



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