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Ana Mariano | Entrevista

A Rua de Baixo esteve à conversa com Ana Mariano que, em Junho do presente ano, lançou o seu mais recente trabalho artístico, “Outras Vias de Aproximação”. 

Do aconchego e do desembaraço, um sentido de verdade, de pertença e de vontade. Ana Mariano é instintivamente enternecedora – se nos comove pela sua presença tão brava e cativante; também nos consola pela sua arte tão transformadora e imaculada. 

Fica o registo escrito deste diálogo-poema. 

Boas escutas! 

Rua de Baixo [RDB]: Outras Vias de Aproximação. Que novos (se forem novos) caminhos de proximidade são esses?
Ana Mariano [AM]: O EP seguiu-se ao disco “Nuvem” e ele surgiu porque tinha muita vontade de me aproximar de quem me ouve; não de alguém em específico, mas do meu público, das pessoas que me estão a ouvir. Quis trazer uma versão ‘mais despida’ das canções, digamos assim. Foi também como uma aproximação do centro, do cerne das canções.

RDB: Lançaste o teu primeiro álbum “Nuvem” em 2024. Agora, em 2025, foi editado o teu EP “Outras Vias de Aproximação”. Como equiparas os dois? Como os distingues? Sei que, por exemplo, o EP foi produzido inteiramente por ti. Como foi esse processo? 
AM: Acho que a diferença assenta, desde logo, na minha voz – já canto as canções de uma maneira diferente, com mais postura e mais assertividade, penso eu. Estou mais madura, não só pelos concertos, mas também porque tenho tocado e cantado mais, comecei a encarar as canções de forma diferente – o que também se refletiu na forma como olho as coisas. E é bom estar aqui, a fazer o que gosto, a crescer e a perceber por que caminho ir. Este EP foi produzido por mim, desde logo porque me queria desafiar a fazer isso. A Inês Apenas, por outro lado, também foi imprescindível neste processo todo – os rearranjos de duas canções do disco foram feitos com ela. Por sua vez, o processo de construção do EP também foi muito distinto do disco. Enquanto no disco eu tinha uma banda a trabalhar comigo, estava em estúdio com os produtores; no EP estava em casa a fazer pré-produção, depois ia, por exemplo, ao Porto para gravar com a Malva; ainda alugava um estúdio para gravarmos o que faltava…

RDB: Neste EP, reúnes várias vozes e participações de pessoas, também artistas, com quem colaboras e (tens uma relação de amizade). Qual é a importância de estabelecer colaborações e momentos de partilha neste sentido aquando da criação de canções?
AM: É muito importante, mesmo, e sinto que não se fala o suficiente disso. Acho que às vezes nos é “pedido” – inconscientemente – que seja uma competição… Na verdade, se virmos a coisa pelo lado oposto e se nos unirmos e estivermos em conjunto, a questionar também, as coisas ganham, como se o próprio universo da canção ficasse diferente. Eu, normalmente, componho sozinha, porque tenho coisas a dizer, mas depois na parte dos arranjos e afins, é imprescindível ter comigo os meus colegas e amigos – pessoas artistas que eu admiro muito.

RDB: O que significa para ti o silêncio? Dar espaço ao silêncio?
AM: Eu sou muito fã de silêncios. Eu acho que o silêncio, para questionarmos as decisões, para entendermos o que sentimos, é muito importante. Por outro lado, há vezes em que esse silêncio também pode ser negativo. É um processo de crescimento (para) aprendermos a lidar com o mesmo. E estarmos bem tanto em silêncio como no meio de uma confusão de gente. Acredito que é fundamental esse silêncio para nós artistas e compositores porque quando sentimos que temos coisas para dizer, temos de perceber o que é que queremos mesmo dizer e como vamos fazê-lo. O que será que me está a trazer felicidade? É por aí…

RDB: Como tem sido a tua experiência enquanto artista? Para onde caminha a Ana Mariano, compositora e cantora? O que mais te desafia actualmente?
AM: Eu estou sempre a compor e sinto que estou numa fase da minha vida em que estou a aprender muito também com outras áreas dentro da música. Tenho ‘lidado’ com pessoas de diferentes áreas e acho que isso também me está a desafiar muito. Por outro lado, tem sido muito importante para mim discernir sobre ‘o elo das palavras’ enquanto artista. Porque é que esta palavra importa tanto? Porque é que estou há semanas à volta desta letra? E isso tem-me trazido um crescimento muito grande. E é desafiante falar e estar com pessoas, artistas que admiro. Talvez a fase mais desafiante da minha vida artística, até agora, tenha sido fazer a abertura dos concertos do Rui Veloso. Foi também um processo muito especial, ganhei ‘estaleca’ e senti que as pessoas me queriam ouvir. E acho que isso é das coisas mais bonitas que uma pessoa que escreve canções pode sentir.

RDB: Nota-se muita polidez, método e sensatez naquilo que escreves e cantas. Como um desabafo que é partilhado na mais serena das conversas. O que pretendes transmitir com as tuas canções? Ou o que procuras através delas?
AM: Eu acho que a primeira pergunta leva à outra porque na verdade é que quando escrevemos uma canção, sobretudo para nos entendermos, na medida em que temos de escrever também para perceber o que se está a passar connosco e à nossa volta, surge muita polidez por causa disso. Paralelamente, essa polidez existe porque é isto o que eu gosto de fazer, é isto no qual eu quero ser boa a fazer; sinto que existe uma certa pureza naquilo que eu escrevo, no sentido em que são coisas sobre a minha vida muitas das vezes – sobre questões que me surgem, sobre aquilo que sinto e se passa cá dentro. Por outro lado, às vezes custa mais polir as coisas por causa disso mesmo. Pelo menos, tento que as coisas façam sentido de várias formas. E para que as coisas façam sentido é preciso, não só, procurar as palavras para transmitir o que queremos dizer, mas também entender o que se passa dentro de nós – é importante sermos reflexos daquilo que sentimos, connosco e com os outros. 

RDB: O que torna belo e apetecível «Mais um Dia No Calendário»?
Na verdade, a «Mais um Dia No Calendário» acaba por ser uma desconstrução de somente mais um dia no calendário. Eu acho genuinamente que é uma sorte podermos estar aqui, podermos crescer a cada momento. Estou rodeada de pessoas que me conhecem bem e, acima de tudo, me aceitam. Por outro lado, com a vida a acontecer vamo-nos apercebendo que não podemos estar sempre felizes, que vamos perdendo quem amamos, e que a sorte não é um dado adquirido… por ora, é aí, quando nos apercebemos disso, que temos de nos esforçar para nos sentirmos bem connosco mesmos, no sentido em que cada dia é único só por si. Cada dia não é só mais um dia, não é? Até acho que é meio ‘revolucionário’ nos dias que correm nós rirmos ou tentarmos sorrir ou olharmos para uma pessoa e dizermos que gostamos dela… 

RDB: Uma frase ou expressão que te marque/inspire desde que te lembres. 
AM: Um poema – “So You Want To Be A Writer”, pelo Charles Bukowski. 

“… when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was. …”

Eu li este poema quando estava no secundário, talvez, e nunca mais me esqueci dele. Às vezes tenho estas palavras bem presentes na minha cabeça, para não me ‘perder’. É desafiante ser músico e artista e ter isto em mente ajuda-me a não perder a ‘razão’ pela qual estou aqui, a fazer o que realmente gosto. 



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