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Anna Calvi @ Aula Magna, Lisboa – 17/12/2013

Assistir ao fim do mundo de saltos altos

Quem se cruzasse com Anna Calvi antes de esta subir ontem ao palco da Aula Magna – e não a reconhecendo das andanças musicais -, muito provavelmente diria que a rapariga ia a caminho de uma vernissage de categoria, talvez de uma exposição de arte moderna num recanto lisboeta no meio de nenhures: calças pretas com ar descomprometido, camisa vermelha sem grandes floreados, maquilhagem no ponto e uns saltos ao estilo agulha que lhe acrescentavam uns bons 10 cm.

Imaginar esta figura magra, com ar angelical e uma beleza capaz de se bater com uma Cleópatra a incendiar plateias apenas com a ajuda de uma guitarra incandescente e uma voz vampiresca poderá parecer brincadeira, mas a verdade é que Anna Calvi esconde, por detrás de uma aparência de anjo, uma alma impregnada de negrume. Simplificando, não seria de estranhar que pudesse ser, afinal, uma emissária de Belzebu na terra, com nobre a missão de recrutar terráqueos para o tentador e sempre imprevisível mundo das trevas.

Com apenas dois longas-duração – “Anna Calvi” (2011) e “One Breath” (2013) -, Anna Calvi é hoje um dos nomes mais influentes de uma pop atmosférica de contornos negros, românticos e um forte cariz sexual, que tanto vai beber um copo a casa de Ennio Morricone como um shot a um bar com a senhora Siouxsie. Uma mistura de influências que, mais do que soar como uma manta de retalhos sonoros mal amanhada, se ouve como uma sonoridade verdadeiramente original, tecida à mão, de uma grande imprevisibilidade.

Ajudada por uma qualidade sonora de excelência e um jogo de luz que deixaria feliz muito bom psicadélico, Anna Calvi ofereceu muito provavelmente um dos concertos do ano em terras lusas: grandioso mas intimista, navegando entre o sussurro e o grito, num crescendo que apenas terminou no final de dois encores, com uma plateia rendida e uma Anna Calvi surpreendida com tamanha devoção.

Pelo caminho foram muitas as razões para celebrar o lado negro da existência: “Suzanne and I” é sensualidade pura, Marlene Dietrich a cores numa voz inesperada entre a pop e a ópera; “Eliza” vê nascer o primeiro solo incendiário e uma evocação precoce de Belzebu; em “Suddenly”, Calvi parece dançar com a guitarra e, quanto a “Sing to Me”, surge como uma música de encantar de sereias, dirigida aos marinheiros de Ulisses na sua imensa Odisseia; “Cry” vê implantar-se o estado de loucura sónica; em “I`ll Be Your Man”, Calvi vem junto da luz mostrar os saltos, oferecendo um solo far-o-westiano que poderia ilustrar, na perfeição, uma ressaca medonha numa madrugada pós-saloon num deserto abrasivo; “Piece By Piece” é o mais perto que estamos de uma música para crianças, fundo musical para servir de acompanhamento a Hansel & Gretel enquanto devoram uma casa inteira feita de doces; “Fire”, cover de Bruce Springsteen, é esventrado e servido cru, num momento que de tão assombroso nos leva a perguntar se não haverá uma outra guitarra escondida a acompanhar Anna Calvi; em “Desire” a voz de Calvi perdeu já as estribeiras, navegando ao sabor de um fole tocado na perfeição; “Love Won`t Be Leaving” é um momento Lynchiano com travo a mescalina, em que a chagada do fim do mundo é anunciada pelo rugir de uma guitarra eléctrica; “Jezebel” é a chegada à terra do Anti-Cristo, com Calvi a esticar a voz para lá das nuvens ameaçadoras; “Rider to the Sea” é Pink Floyd em modo de insolação numa praça de touros situada num deserto perdido; em “Blackout”, a grande despedida, esbatem-se as fronteiras entre o Céu e o Inferno, numa festa onde anjos e pequenos demónios se divertem a jogar à apanhada.

A acompanhar Calvi esteve um trio incrível de músicos, ajudando nos coros e revezando-se (dois deles) nos instrumentos, numa extensa lista onde cabiam um fole, um metalofone ou uma percussão cheia de artifícios. Uma noite de absoluto triunfo para Anna Calvi que fechou, com chave de ouro, um ano de grandes concertos. Simplesmente brilhante.
Fotografia de Graziela Costa. Galeria aqui.



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