“As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes

“As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes

É difícil definir As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes. É um só filme separado em três partes? São três filmes independentes? É um épico? São contos soltos que ocasionalmente se cruzam? São metáforas? É uma crítica?

Não é fácil responder a estas questões, assim como não é fácil fazer uma sinopse do filme. Segue-se a minha tentativa…
Xerazade conta-nos histórias de um triste país entre os países…

O volume 1, “O Inquieto”, é o filme desassossegado, introduz-nos a premissa deste projecto épico. Dos três filmes é o que conta com mais capítulos. As histórias alternam rapidamente e mudam de registo o que confere ao filme um ritmo agitado. Deixa-nos perplexos sobre o que estamos a ver, ora realidade ora ficção. Histórias insólitas, farsas cómicas ou o documento da triste realidade Portuguesa.

O volume 2, “O Desolado”, abranda o ritmo, em contraste com o primeiro. Com apenas três contos, é um filme melancólico e pessimista. A ideia da comunidade presente em todos filmes, é mais proeminente neste capítulo. Tanto no meio rural com a fuga de Palito, como no meio urbano com o episódio “As Lágrimas da Juíza”, que pega numa série de histórias verídicas (recolhidas por uma equipa de jornalistas) da imprensa nacional dos últimos anos e disseca-as ao ponto do absurdo, tornando a sua solução impossível. A realidade da justiça Portuguesa?

Apesar de ter menos tempo que o primeiro volume, o carácter desolado e magoado deste filme torna-o mais longo e cansativo.

O volume 3, “O Encantado”, mostra-nos como Xerazade está cansada de contar histórias ao rei, e no filme isso traduz-se na predominância de uma história, neste terceiro volume que é quase um documentário sobre Passarinheiros. Apesar de conter outras duas narrativas menores, que nos fazem “descer à terra”, e confrontar a realidade, que não tem o mesmo encanto dos mitos. O filme é maioritariamente sobre “O Inebriante Canto dos Tentilhões”, uma comunidade existe nos bairros da periferia de Lisboa. Pessoas que são mestres na arte de caçar, treinar e distinguir o canto dos pássaros.

Um história tão surreal que nos faz questionar o que estamos realmente a ver. Encantados ou desencantados com o canto dos Tentilhões,  este é o mais difícil dos três filmes.

Miguel Gomes retrata um triste país entre os países através de contos reais e/ou ficcionados.

As Mil e Uma Noites surgiu de uma necessidade do realizador registar acontecimentos de Portugal entre 2013 e 2014. Tempos extraordinários, tempos particulares e acima de tudo, tempos de uma crise profunda, queria transformar o Portugal de hoje em filme.

Baseando-se na estrutura narrativa de “As Mil e Uma Noites”, Miguel Gomes relata acontecimentos que tiveram lugar em Portugal nesse período.

Acontecimentos reais ou imaginários? Reais reescritos pelos argumentistas. A ficção vs realidade, temática muito presente na obra do realizador, confronta  o espectador constantemente com essa dualidade. Este duvida e questiona o que está realmente a assistir e percebe que isso afinal pouco importa. São contos insólitos, são cómicos e tristes. São pessoas, são mitos, a comunidade, uma Baghdad que nunca existiu, luta do proletariado, os ricos e os pobres, uma critica ao governo e à Troika. Tudo parece oscilar entre o onírico e a dura realidade socioeconómica portuguesa.

As Mil e Uma Noites é uma manta de retalhos que descreve um Portugal que nós conhecemos, mas também ajuda-nos a descobrir um Portugal escondido, mostra-nos pedras preciosas de um Portugal rural e urbano, cheio de heróis e vilões com super poderes. Oscilando entre o documentário e a ficção, mas sempre com uma verdade da qual não conseguimos escapar. Um filme de contrastes e confrontos, o rural vs o urbano, o mito vs o concreto.

Ora hilariante, ora deprimente o espectador sente-se numa montanha russa de sentimentos e imagens que parecem não fazer sentido.

Toda esta amálgama está concentrada numa película com uma estética singular, cortesia do director de fotografia Tailandês Sayombhu Mukdeeprom, filmada em 35mm e 16mm. Com uma banda sonora eclética que confere ao filme um espírito Kitsch e intemporal.

Acima de tudo, assistir a esta obra é uma experiência, não é fácil e não é para todos.

Os três volumes constituem um “filme-sequência” que nas palavras do realizador é “provocador, selvagem e Rock ‘n’ Roll”.

Faltava ao Cinema um retrato fiel ou não (mas pelo menos um retrato, uma perspectiva, alguém disposto a filmar)  de Portugal e dos Portugueses agora, no presente.

Ainda que seja a visão inquieta, desolada e encantada de Miguel Gomes.



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