doclisboa2011-Anna-Glogowski

DOCLISBOA 2011

Anna Glogowski, a nova directora do doclisboa, abre as portas do festival que decorre de dia 20 a 30 de Outubro.

 As inúmeras interligações do Doclisboa

Um forte cariz político atravessa toda a nona edição do doclisboa, desde a elaboração da retrospectiva “Movimentos de Libertação em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau (1961-1974)”, que por sua vez se liga à retrospectiva de Jean Rouch, à retrospectiva de Harun Farocki e também à secção “Heart Beat”, onde se encontra o retrato da cantora e activista política Miriam Makeba por Mika Kaurismaki.

A existência de um diálogo, tanto entre os filmes como entre as secções, advém de uma predisposição basilar da organização do doclisboa para a reflexão em torno do estado do mundo e para a criação de um espaço de debate. “Estamos numa altura em que é importante olhar e perceber o que se passa e como se muda o mundo através de quem o fez” e de quem o faz antes de nós. É nesse ponto de vista que o doclisboa se foca nos filmes da “Primavera Árabe” e na sessão especial de “This Is Not a Film”, o último filme do realizador iraniano Jafar Panahi, co-realizado com Mojtaba Mirtahmasb, que para além de provar que “a necessidade de filmar é política mesmo quando individual, é uma homenagem à imaginação.”

No dia 15 deste mês, o tribunal de recurso iraniano confirmou a sentença de Jafar Panahi: seis anos de prisão, vinte anos sem realizar filmes ou dar entrevistas.

 

A retrospectiva Jean Rouch

Foi pensada há dois anos quando foi noticiada a restauração dos seus filmes. Dada a “curiosidade que a sua filmografia suscita”, Anna Glogowski já tinha concretizado uma retrospectiva do autor. Tendo sido iniciada no cinema de Jean Rouch pelo próprio nas aulas de cinema onde era professor, é testemunha da “magia” em torno da obra deste Etnólogo e Cineasta, figura seminal do cinema.

Jean Rouch soube “ser quase uma criança até ao fim e é por isso que os seus filmes são eternos e universais.” Transparece o seu prazer de filmar e a “atitude de brincadeira que o Rouch sempre teve com o seu cinema”. Jean Rouch tinha também “muita vontade de ir ao encontro do outro”, o que lhe permitia estar sempre na fronteira entre a realidade e a ficção.

A Cinemateca Portuguesa acompanha o doclisboa na exibição dos filmes de Jean Rouch, prolongando a sua exibição até Novembro.

 

 

Harun Farocki em retrospectiva

Reuniram-se os esforços do doclisboa, do Goethe-Institut e Jürgen Bock para Harun Farocki, autor alemão de firme índole analítica, crítica e política, deixar de ser um dos autores menos vistos no doclisboa e em território nacional para ter uma visibilidade à sua altura.

De modo a expor todo o carácter distintivo da obra de Haron Farocki, a homenagem feita pelo doclisboa desdobra-se até um espaço expositivo apropriado no Palácio Galveias para a mostra da instalação “Três Duplas Projecções”. Harun Farocki vai estar presente para a retrospectiva dos seus filmes e dará uma masterclass no dia 25 de Outubro às 11h no Grande Auditório da Culturgest.

 

 

A estreia mundial com Agnés Varda

Agnés Varda também nos agracia com a sua presença na estreia mundial do primeiro dos cinco episódio da sua recente série de televisão. “Agnês de Ci de Lá Varda” é um leque de crónicas realizado nas viagens de Agnés Varda durante os últimos dois anos enquanto apresentava o “Les Plages de Agnés” e as suas instalações. Anna Glogowski, quem produziu “Les glaneurs et la glaneuse” e o “Les glaneurs et la glaneuse… deux ans après”, conseguiu convencer o canal Arte a trazer o filme a Lisboa uma vez que o primeiro episódio conta com 20 minutos rodados em Portugal.

Novidades

Anna Glogowski contou com uma equipa reduzida para uma escolha exaustiva entre os 1400 filmes propostos, sendo que cerca de uma centena são portugueses. “É formidável que, apesar da situação económica difícil, exista quem deseje e quem tenha necessidade de fazer filmes. Um filme é a associação de um sonho e a necessidade. O doclisboa está aqui também para mostrar um conjunto de sonhos, necessidades e realidades.”

Na sua nona edição, o doclisboa aposta em dezassete primeiras obras, quatro das quais integram a “Competição Portuguesa” que se divide em oito sessões composta por médias e longas-metragens e duas sessões de curtas-metragens.

Encontro / Debate: O que é produzir?

Após a visualização d’“Aquele Querido Mês de Agosto” de Miguel Gomes, “onde a estrutura narrativa é interrompida pelo produtor como uma espécie de censor para decidir os avanços artísticos do filme com o realizador”, Anna Glogowski teve a ideia para um debate sobre o trabalho de produção. As questões de Glogowski partem de uma longa reflexão e experiência de produção na televisão francesa e do que tem observado do cinema português desde 2007 enquanto programadora da competição portuguesa do doclisboa. “A noção de produção é vivida de maneiras diferentes conforme o contexto em que se passa. Em Portugal interessa saber se as produtoras desenvolvem algum trabalho artístico” ou se somente tornam viáveis as condições para a feitura do filme. Se o produtor é o primeiro espectador do filme, Anna Glogowski crê que o realizador “precisa desse olhar externo”, da perspectiva objectiva do produtor. No entanto, também será pertinente o produtor apontar as falhas mais subjectivas da produção do filme de modo a evitá-las. “Sendo o filme um sonho e o produtor alguém que vai ajudar a torná-lo real, é apropriado questionar qual vai ser a relação destes dois parceiros e se serão parceiros ou não.”

Embora ardente defensora da importância do trabalho conjunto entre realizador, produtor e difusor televisivo, Glogowski também pretende abordar casos de auto-produção no dia 24 de Outubro às 15h no Fórum Debates da Culturgest.

O festival terá a presença de dois realizadores que tiveram retrospectivas dedicadas à sua obra em edições anteriores para as sessões de abertura e a de encerramento. “Crazy Horse” de Frederick Wiseman abre, “Photographic Memory” de Ross McElwee encerra as portas do doclisboa.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This