Bombay Bicycle Club | “So Long, See You Tomorrow”

Bombay Bicycle Club | “So Long, See You Tomorrow”

A quarta das faces de Bombay Bicycle Club

A sua indissociabilidade do panorama musical desde o nascimento é discutível; a banda liderada por Steadman, nessa demanda pela identidade – ou talvez pela não-identidade -, demonstrada até agora pela intermitência e irregularidade da sonoridade de mutações persistentes e tão opostas quanto inesperadas, que se repare na irreverência adolescente indie do álbum estreante, em contraste com o folk ternurento de “Flaws”, percorre um caminho ingrato dirigido à imagem de indefinição que o grupo perpassa, sugerindo, no entanto, no meio desta instabilidade, uma persistente curiosidade a cada sonoridade que é explorada. Ainda assim, com a confirmação latente de uma ego sonoro comum aos récords de Bombay Bicycle Club (BBC), nunca foi possível a afirmação peremptória na indústria musical exigente em directrizes.

Seguindo a lógica da narrativa, “So Long, See You Tomorrow” é o culminar desta “evolução”. Envolvendo tenuemente o que os caracterizou (minimamente) nos trabalhos anteriores, Steadman impõe ao estilo de BBC um orientalismo vincado, camuflado fugazmente por detrás do pop electrónico de traços caleidoscópicos e de sintetizadores crepitantes, contornado por um neo-psicadelismo efémero. O experimentalismo é, como primordialmente – ainda que não assumisse valores absolutos e fosse específico à banda -, acentuado e discernível desde «Overdone»; mas é também denotado, nos primeiros minutos do récord, um histerismo veraneante, um maximalismo ingénuo que impregna as melodias de volatilidade.

Ora, se «Overdone» e «Carry Me» seduzem pela tépida vivacidade por que são ocupadas, demonstrando uma brandura que compõe a melodia, «Luna» é um espaço de abstracção coagida pela indelicadeza dos sintetizadores sibilantes; não é subtil e, ainda que não fosse esse o objectivo, aparenta tratar-se dum esforço em acrescentar camadas e camadas de instrumentos sobre os vocais lânguidos, denegrindo qualquer espontaneidade que por aqui houvesse. Torna-se um calculismo forçado, uma cascata de som que, pelo mesmo leito, que precipita copioso, por que arregala a vista, rapidamente a desinteressa devido à insistência permanente.

E este bloco sonoro de texturas inóspitas é massivo, fastidioso. Cria volatilidade, juntamente com o particular apreço que os BBC têm pelos refrões elípticos, crescendos de agudos que são causa do carácter catchy assumido pelas faixas. «Eyes Off You» poderia ser de renome – relativamente ao restante do álbum – mas a ligeireza repetitiva, a aparente intenção de superficialidade destoa as melodias conscientes: é-se disperso da compleição das composições, dos meandros do baixo e das guitarras.

«Feel» revela-se, assim, a epítome do trabalho: que se note o orientalismo profundamente bollywoodesco, as vicissitudes dos excessos da produção e, ao mesmo tempo, a frescura emanada pelas colunas. O seu carácter de peça central na análise do viçoso récord é pronunciado pelo sentimento de descoberta, pelo reconhecimento e eloquência da novidade – ainda que, liricamente, esse sentido seja dúbio; é a expressão da sonoridade que Steadman desenvolveu na sua viagem pelas Índias e da pretensão sedutora deste trabalho.

E aparenta evoluir. A doçura visceral anterior é pintada a degradé para «Come To» e «So Long, See You Tomorrow», lar do equilíbrio que a banda procurou entre as díspares influências e a contenção exigida. É finalmente específico e presume a compreensão dos 30 minutos que decorreram, saudosos como se esculpem na derradeira faixa; e é o mérito dos Bombay Bicycle Club que amaina as questões ímpias com a ternura ingénua e casta de quem são e instiga tolerância. E, não sendo tal coisa que sugira e promova um aprazamento futuro com o que aqui foi desenvolvido – um pouco de estabilidade, portanto -, é o que mantém este sisudo, fragmentado pedaço de música na memória por mais do que seria esperado.



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