Lianne La Havas @ EDP Cool Jazz (26-7-2015)

Lianne La Havas @ EDP Cool Jazz (26-7-2015)

La Havas, a imparável

Em estreia absoluta em Portugal, a cantora soul britânica arriscou e apresentou praticamente na íntegra o seu futuro álbum (“Blood”), perante uma plateia do EDP Cool Jazz que começou sentada e acabou a dançar.

Não deixa de ser irónico que a primeira voz ouvida nos jardins do Palácio do Marquês de Pombal (no arranque de «Unstoppable», o primeiro single do seu futuro álbum) tenha sido a de Frida Touray, responsável pelas backing vocals, ainda antes da protagonista da noite ter entrado em cena. Há poucos anos era esse o papel de Lianne La Havas, mas muita coisa mudou desde que decidiu sair debaixo da asa de Paloma Faith e enveredar por uma carreira em nome próprio. Uma actuação no célebre programa da BBC “Later… with Jools Holland” resgatou-a da obscuridade, ao ponto de ter chamado a atenção dos seus ídolos Prince e Stevie Wonder. O seu álbum de estreia valeu-lhe uma nomeação para a shortlist do prestigiado Mercury Prize e entretanto já abriu concertos de Bon Iver e Bombay Bicycle Club, tocou no festival de Glastonbury e gravou com Prince, Alt-J e Rudimental.

Trajando uma elegante camisa branca, saia preta justa ao corpo, sapatos de salto alto e cabelo ao estilo de Janelle Monae, a jovem de 25 anos encantou uma plateia reduzida (já vimos este mesmo espaço muito mais composto em outros concertos do EDP Cool Jazz) mas perfeitamente conhecedora da sua voz versátil e cristalina. A acompanhá-la esteve um banda competente, composta por quatro homens (teclista, baterista, guitarrista e baixista) e uma voz feminina de apoio.

Apesar de o seu segundo álbum (“Blood”) apenas ser editado no próximo dia 31 de Julho, La Havas não se coibiu de o dar a conhecer quase na íntegra (apenas dois dos 10 novos temas ficaram de fora do alinhamento). As canções continuam focadas nas suas relações amorosas mas agora falam também das suas raízes familiares, não fosse ela filha de pai grego e de mãe jamaicana. Através do R&B de «Green & Gold» trouxe-nos as cores da Jamaica e afirmou “those eyes you gave to me, that let me see where I come from”, enquanto tocava surpreendentemente uma guitarra-baixo.

Só a partir do terceiro tema – «Is your love big enough?» – é que vimos La Havas finalmente na posse da sua inseparável guitarra azul-turquesa. A canção começa logo com a confissão “I found myself in a secondhand guitar”, denunciando que aquele instrumento foi mesmo decisivo na descoberta do seu próprio estilo.

Depois de «Au Cinema», «Tokyo» (com uma linha de baixo que nos remete para a nigeriana Sade) e «Wonderful», chegaria então um dos melhores momentos da noite. Acompanhada apenas pelo vento que se fazia sentir (e cujo som disse gostar) e pela guitarra lap steel colocada sobre os joelhos de um dos seus músicos, interpretou o hipnotizante «No Room for Doubt», com direito a palmas pelo meio. A versão de estúdio deste tema conta também com a voz de Willy Mason, num dueto que faz lembrar Cibelle e Devendra Banhart em «London, London».

As letras das músicas de La Havas são tão pessoais e expõem a sua vulnerabilidade de tal modo que parecem fazer parte de um processo de catarse através da música. «Lost and Found» é uma farpa a um antigo namorado, na qual admite “you broke me and taught me to truly hate myself”. Infelizmente, a confissão acabou por ser prejudicada por problemas técnicos que persistiram ao longo da canção.

A voz de La Havas subiria de tom em «Midnight», tema mais up-beat, gravado durante uma recente viagem com a sua mãe à Jamaica e bem revelador da dimensão da sua voz e da versatilidade da sua música, feita de constantes mudanças de ritmo. Seguiu-se «Elusive», magnífica versão de um tema de Scott Mathews, que nos soou melhor que o original. A propósito, diga-se que o território das covers não lhe é nada desconhecido: ao vivo, já tocou canções dos Radiohead, Gnarls Barkley, Little Dragons e Pharell Williams, embora só o tema de Scott Mathews tenha sido gravado em estúdio e integrado o seu álbum de estreia, em 2012.

Despediu-se em jeito de rocker, a desafiar estereótipos ao som do pesado «Never Get Enough» (mais um exemplar do seu novo trabalho), que alterna ambientes calmos e abruptos, com de fortes riffs de guitarra e com a ajuda de um microfone que lhe distorce a voz. De repente parece que aterrámos num concerto completamente diferente e desconfiamos que bandas como Papa Roach, Limp Bizkit ou Slipknot também terão feito parte da sua adolescência.

Debaixo de uma chuva de aplausos, regressou sozinha para tocar «Age», que versa sobre o relacionamento com um homem mais velho. Visivelmente feliz, improvisou um “he’s rather old enough to be my father, so he’s not the one for me, ‘cause I fancy… Portugal”, para satisfação de uma plateia que foi acompanhado e marcando o ritmo com palmas.

Novamente com a sua banda em palco, atirou-se ao contagiante «What You Don’t Do», segundo single extraído do futuro álbum. “I know you love me, I don’t need proof”, cantou no refrão, mas a assistência fez mesmo questão de lhe dar uma prova de amor, abandonando o conforto das cadeiras e entregando-se à dança.

Quando, por fim, ofereceu o tema que já tinha sido pedido abundantemente («Forget», mais uma ferroada a um antigo amor), os corredores e o espaço à frente do palco já tinham sido transformados numa enorme pista de dança. O intenso brilho nos olhos de La Havas e de cada um dos músicos era bem demonstrativo da satisfação da banda. Cerca de 1h20 depois do início do concerto, abandonou definitivamente o palco com um convite: “keep dancing!”. A noite estava ganha.

Fotografia de José Eduardo Real



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This